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Penso, logo duvido.

A Camille Claudel de Ceronha Pontes – João Rego

Jo?o Rego

Cerona Pontes interpreta Camilla Claudel ? Foto J. Rego

Cerona Pontes interpreta Camilla Claudel ? Foto J. Rego

Uma luz abre suavemente o cen?rio. Deitada sobre um monte de barro vermelho come?a a surgir a silhueta sensual de um corpo de mulher. ? uma jovem e bela mulher, que durante uma hora meia ir? nos emocionar representando Camille Claudel, a genial escultora francesa abandonada por Rodin, seu mestre e ex-amante, que ap?s surtos psic?ticos ? trancafiada em um manic?mio onde ir? viver seus ?ltimos anos de vida. Foram trinta anos internada, na maior parte do tempo, sedada e amarrada em uma cama.

Ceronha incorpora de forma surpreendente Camille aprisionada em uma rela??o de amor-?dio por Rodin, realidade que, para ele, j? fazia parte de um passado, mas para sua loucura era o seu alimento di?rio. Sabia-se genial, e de fato era, tanto que alguns historiadores comparam suas obras com a mesma qualidade do seu famoso mestre.

A pe?a de Ceronha explora com intensidade inusitada o drama e a ang?stia de uma alma que navega, a cada instante, entre o del?rio e a dura realidade em que ela, Camille, vive seus ?ltimos anos de vida. Seus mecanismos de defesa, se ? poss?vel identific?-los, era lembrar-se da sua inf?ncia em Villeneuve brincando com a argila vermelha em busca de desenterrar ?diabinhos? na areia. Em outros momentos delira, vendendo suas obras para um p?blico imagin?rio onde a atriz nos puxa, de forma h?bil e corajosa, para o centro da pe?a. Somos de fato, parte concreta dos seus del?rios e suporte para sua atua??o. Comemos com ela, sofremos e nos assustamos com a intensidade do seu sofrimento. ? poss?vel ouvir risos nervosos na plateia, certamente reflexo de algum efeito que a atua??o desta jovem e talentosa atriz provoca em nosso esp?rito.

Mesmo quem n?o conhece a vida de Camille Claudel, no desenrolar do mon?logo os recortes da sua vida v?o se desvendando, num fluxo diacr?nico, tecido pelo presente e o passado, pelo choro e o riso, motivado pelas lembran?as que escapam do pesado manto dos fortes sedativos.

Sempre foi assim na hist?ria da loucura, aquilo que foge ? ?normalidade? em um comportamento que nos causa estranheza deve ser aprisionado, afastado e forclu?do da nossa exist?ncia, pois, como seres constitu?dos na rela??o especular com o outro, ? insuport?vel para n?s, ?normais?, ver-nos diante de um outro que n?o corresponde ao que achamos que somos. O discurso psic?tico nos aterroriza porque amea?a nossa fr?gil percep??o de n?s mesmos. Nos desestabiliza das nossas certezas de ser.

A for?a impulsionadora da pe?a ? exatamente essa instabilidade no discurso da personagem; momentos de extrema lucidez, beleza e sensibilidades alternados com a loucura de seus del?rios, ?nico suporte ps?quico poss?vel para n?o afundar na pura ang?stia. Ali onde a linguagem n?o chega, onde h? apenas sofrimento.

Ceronha chora, rasga as vestes, grita num esfor?o de interpreta??o que se leva ao limite das suas for?as, e da nossa tamb?m.

Para minha surpresa, ao final, ela revela que esta era a segunda sess?o na mesma noite.

A atriz cearense lembrou-me uma Mar?lia Pera jovem ? h? muito tempo ? com o mesmo talento, e uma madura coragem para interagir com a plateia e se entregar como quem se lan?a num abismo, num mergulho profundo na alma da personagem. Um desafio para poucos.

***

A Pe?a ?Camille Claudel? est? em cartaz no Teatro Eva Herz at? o dia 8 de dezembro de 2013, Livraria Cultura do Rio Mar, em Recife.

 

2 Comments

  1. Vi e também me emocionei. João captou muito bem a sensibilidade e a riqueza de interpretação apresentada. Parabéns a Ceronha e ao texto.

  2. João,
    Acabo de chegar do teatro. Já tinha lido tua crítica, o que me motivou a assisti-la. Seria melhor dizer, a participar dela. Pois somos instigados a entrar no palco com a fantástica atriz. Meu vizinho de cadeira recebeu uma carta para a família Claudel e se surpreendeu, ao sair da sala de espetáculos, ao ver que a carta era de verdade. E eu disse meu nome para ser anunciada por ela, como suposta visita, a uma das internadas no manicômio. Seria Helene seu nome? Um café depois, para continuar no clima intimista da peça, com pessoas cuja identidade se deu a conhecer ali, na impossibilidade de voltar logo para casa. E, já em casa, releio tua crônica. Melhor lida depois.
    Teresa

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