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Penso, logo duvido.

A fonte das desigualdades – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

Escola pública no interior do Maranhão.

Escola pública no interior do Maranhão.

A nota do IDEB-Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (publicada esta semana com dados de 2015), que mede a qualidade do ensino no Brasil, é um testemunho forte e doloroso do fracasso da educação brasileira. Um desastre, especialmente no ensino médio, que deveria preparar os jovens para a universidade e para o mercado de trabalho. A nota total do IDEB neste nivel (incluindo as escolas particulares) alcançou ridículos 3,7, mantendo em 2015 o mesmo que tinha alcançado em 2011 e mantendo-se longe da meta proposta, vale dizer, 4,3. A deficiência da qualidade do ensino se manifesta mais claramente ainda na baixa proficiência em matemática e em português. Houve um tímido aumento da proficiência em Português,  mantendo-se contudo, num nível baixo, e uma queda da proficência em matemática em 2015. Mesmo em Pernambuco, uma honrosa exceção, a nota das escolas públicas do Ensino Médio ainda é muito baixa (3,9), embora tenha subido bastante, nos últimos anos, alcançando a liderança no Brasil (ao lado de São Paulo).

Este precário desempenho escolar deixa os jovens brasileiros completamente despreparados para as exigências e as oportunidades da sociedade do conhecimento, tanto no acesso às universidades quanto na qualificação profissional. Ruim para os jovens, péssimo para o Brasil, que continua padecendo de deficiência de mão de obra, baixa produtividade do trabalho e limitada competitividade econômica. Num mundo em rápida transformação, o Brasil vai ficando para trás.

Para agravar a situação, o despreparo dos jovens brasileiros é muito desigual, por conta da gritante diferença da qualidade do ensino das escolas públicas em comparação com as particulares, diferença que se manifesta em todos os niveis de ensino (mais ainda nos anos iniciais do ensino fundamental). No nível médio, as escolas públicas (onde estuda a esmagadora maioria dos jovens brasileiros) tiveram uma nota de 3,5, bem abaixo dos 5,3 alcançados pelas escolas particulares (quase dois pontos de desvantagem); curiosamente, no ensino fundamental a diferença de qualidade entre as escolas públicas e privadas ainda é maior que no nível médio. Esta diferença de qualidade fundamenta e perpetua as desigualdades sociais no Brasil, abrindo um abismo de diferença de oportunidades entre os jovens; os pobres, obrigados a estudar numa escola pública, vão ficando defasados e afundando na pobreza. Não há como enfrentar as desigualdades sociais no Brasil sem reduzir esta significativa e grave diferença de qualidade entre a educação pública e a particular. As cotas para entrada na universidade são uma gambiarra, da mesma forma que a distribuição de renda com os pobres. Os governos, no entanto, preferem atuar nos efeitos, com medidas simplistas e imediatistas mas com visibilidade, em vez de enfrentar as causas das desigualdades. Até quando vamos continuar apostando nas urgências e deixando escapar o futuro?

2 Comments

  1. Excelente artigo, oportuna denúncia, necessário alerta: perdida a batalha da qualidade na educação, estaremos derrotados na guerra pelo desenvolvimento.
    Só faria um adendo: mais que insucesso da educação, trata-se de fracasso da sociedade que não consegue superar a desigualdade e a pobreza — assim não poderia mesmo a educação responder sozinha pelas disfunções mais amplas de todo o macrossistema.

  2. Haverá no Brasil uma espécie de “cultura de funcionário público” que afeta os professores que são funcionários públicos, tornando-os mais corporativistas que defensores da meritocracia? Sabemos o quanto os sindicatos de professores (predominantemente de funcionários públicos) resistem a mudança e, pelo menos em S.Paulo, tem se colocado contra os bônus no ensino fundamental e médio, estímulos pecuniários à qualidade e eficiência, defendendo ao invés disso tratamento igual para todos, sem atenção à diferenças de mérito – supostamente em nome da democracia e da igualdade. Um exemplo menor, mas sintomático: quando fiz meu doutorado na USP, em 1972, se a média de notas da banca era mais que um dado número (já não lembro se era 8) o aluno tinha título de doutor “cum laude”. Hoje em dia isso não existe mais, está tudo igualado, e você pode inclusive sair com seu título defendendo uma tese de doutorado cheia de erros de português. Sei porque vi, não estou chutando.

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