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Penso, logo duvido.

A odisseia de Temer – Luiz Otavio Cavalcanti

Luiz Otavio Cavalcanti

Ulysses and the Sirens ? by Herbert James Draper.

A Odisseia de Homero ? um dos grandes poemas ?picos da Gr?cia Antiga. Escrito no s?culo VII a. C., descreve a saga de Ulisses (Odisseu), na volta para casa ap?s a guerra de Troia.

O talento de Ulisses ? testado de v?rios modos. Seja no discurso, onde ele mostra e, ao mesmo tempo, oculta a realidade. Seja na paciente tessitura de construir local seguro para sobreviver. Seja na tenaz capacidade de evitar a tenta??o de sereias na viagem de retorno a ?taca.

Trata-se de jogo no qual o trof?u era sua vida. E para o qual ele emprega a calma do monge e o vigor do boxeador.

Cada um de n?s, em algum momento de nossa exist?ncia, ter? vivido sua odisseia. De maior ou menor quilate. O presidente Temer vive tamb?m a sua.

O governo Temer tem especificidades desde sua origem. Calibradas por seu destino. Sua origem ? a Constitui??o, reiterada na palavra e no voto do Parlamento. Trata-se, portanto, de governo vestido de veludo legislativo.

Seu destino ? patrocinar o conserto. E promover a concerta??o. Conserto da quest?o fiscal, na busca ?ngreme de normalizar as contas p?blicas. Al?m de concertar base de apoio que viabilize a gest?o. Haurindo suas for?as na san??o di?ria de suporte interpartid?rio.

O conserto depende da confian?a do mundo extra pol?tico. A concerta??o depende de elos com o planeta pol?tico. Mas, um n?o funciona sem o outro. Governo precisa de investimento privado e reconhecimento social. Por outro lado, governo tamb?m necessita de suporte parlamentar. Esta ? a linha sacrificial nas fronteiras do governo.

Com saber de experi?ncia feito, Temer n?o titubeou. Deu prefer?ncia ao Parlamento. Procurou a sombra da frondosa ?rvore dos Partidos. E avisou: ?Este governo n?o se preocupa com popularidade?. Enquanto o ?ndice de popularidade escasseava na unidade, as taxas de aprova??o de projetos no Legislativo bombavam ?s dezenas.

Vencidos os primeiros seis meses, o governo se deparou no calend?rio pol?tico com tr?s epis?dios: a) elei??o para a presid?ncia do Senado; b) elei??o para a presid?ncia da C?mara; c) escolha do ministro do STF, relator da Lava Jato, substituindo Teori Zavascki.

No Senado, o governo enfrentou a tentativa do senador Renan Calheiros de obstruir o caminho de Eun?cio Oliveira. O senador Eun?cio, cearense, nunca foi da turma de Renan. E o governo bancou sua candidatura. Era a chance de Temer se livrar da sede de poder do senador alagoano. A vit?ria de Eun?cio foi esmagadora: 60 votos a 10. Vantagem para Temer.

Na C?mara, o governo investiu no atual presidente, Rodrigo Maia, carioca do DEM. Maia praticou a mais transparente solidariedade ao governo Temer. Desde sempre. Inspirando certeza ? decis?o do Planalto. Jogando com paciente ast?cia, Maia costurou apoios de Partidos estrat?gicos. Por sua vez, Temer manteve o governo em discret?ssima posi??o. Ratificando a disposi??o de n?o intervir na elei??o. Intervindo. Numa a??o nuan?ada de s?brio olhar. Resultado: Maia reeleito com mais de 290 votos. No primeiro turno. Vantagem para Temer.

No STF, a atua??o prudente e constitucional da ministra Carmen L?cia conectou o Supremo com a opini?o p?blica. N?o teve a pressa que aniquila o verso. Nem a demora que estraga a boa culin?ria. A ministra foi precisa e oportuna. Alinhou Tribunal fragmentado em vaidades com o esp?rito de repara??o que a popula??o espera nestes tempos de Justi?a. A conjun??o de h?bil condu??o e sorteio levou ao nome do ministro? Edson Fachin. Cujo perfil reservado o aproxima do estilo t?cnico de Teori. Vantagem para Temer ?

O fato ? que as brumas v?o se dissipando. E as bruxas se recolhendo. De uma parte, a taxa de infla??o caminha para o centro da meta ainda este ano: 4,5%. O crescimento do PIB deve alcan?ar mais de 1,5%. Os juros podem cair para uma Selic de 9%. De outra parte, Temer rapidamente nomeou o baiano Ant?nio Imbassahy para a Secretaria de Governo. Selando com os tucanos acordo de semeadura para 2018.

Improv?vel conjuga??o de astros. E o pa?s segue. Em cortejo que assume agora a forma de bloco de rua. At? que passe o Carnaval.

 

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???

 

2 Comments

  1. Mais uma vez, Luiz Otávio com precisão cirúrgica, poi os pontos nos iiii. Parabéns!

  2. Aguda visão para a análise dos fatos políticos. Perfeito domínio do idioma. Elegância de estilo para as metáforas e alegorias. Com estes ingredientes, amigo Luiz Otávio, o produto só pode resultar de muito boa qualidade. Meus cumprimentos pelo artigo.

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