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Penso, logo duvido.

Almanac de Catalunya – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Reptil -Parc Guell - Barcelona.

Reptil -Parc Guell – Barcelona.

No Peru, um policial que recebeu propina de um motociclista, engoliu a cédula quando percebeu que os agentes anticorrupção o vigiavam. Um deles lhe aplicou uma vigorosa chave no pescoço para que ele regurgitasse o papel-moeda, mas o meliante de farda já o tinha deglutido, o que o livrou da prova que justificaria a prisão em flagrante delito. 

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Josep Maria Taragona sempre foi homem previsível e ordeiro. Nascido em Blanes, cidade-balneário onde tem início a Costa Brava, teve uma infância de raras cores, o que não era incomum em meados da década de 1950, quando o Franquismo imperava naquele ponto remoto da Península Ibérica, próximo da estrada que levava à França. Depois de estudos medíocres e de ser acoimado pelos colegas de bastante sonso e algo covarde, tirou um diploma de Peritagem Mercantil e, desde então, graças à influência da madrinha junto a Oriol Ribò, então seu amante – ademais de encarregado da embalagem e expedição de pesadas caixas de fios têxteis -, foi trabalhar no escritório central da Fiação Mafil, cuja fábrica ficava pelas bandas de Granollers. Promovido mais tarde a Chefe de Conta do Mercado Interno, justa contrapartida à fidelidade que desde o início devotou a Don Marc Vidal, seu chefe e mentor, Josep Maria Taragona se considerava um homem feliz com seu 1,76 de altura; olhos azuis; cabelos oleosos e muita desenvoltura para grandes caminhadas, mesmo quando já completara cinquenta e seis anos de vida.

Como ainda acontece bastante em certas partes do condomínio europeu, ele não se dava conta do mau hálito que exalava e, dada a aversão à água que tinha desde criança, borrifava as axilas azedas com loção Puig que levava sempre no porta-luvas do carro e que comprava no El Corte Inglés, da Diagonal, não muito longe de onde trabalhava. Catalanista de sete costados, se ensimesmara de vez com os castelhanos e quejandos quando o padre Castro, galego da paróquia de Girona, lhe acariciou o pênis murcho sob pretexto de apontar uma passagem do catecismo no lusco-fusco da velha sacristia. Pelo sim pelo não, se manteve virgem até os vinte e dois anos, quando tomou coragem e fornicou por nove minutos com uma andaluza na parte baixa das Ramblas. Desde então, só veio a saber o que era sexo quando desposou Nemesià, quatro anos mais tarde, mulher enérgica que conheceu em Cadaquès, numa roda de sardana. Isso é quase tudo o que se sabe da vida desse impoluto cidadão. Impoluto?

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Os tubarões da Groenlândia podem viver até 440 anos, segundo um estudo. Inconveniente: eles precisam de 150 anos até atingir a maturidade sexual. Só um animal vive mais do que ele: o mexilhão da Islândia que pode chegar comprovadamente a 507 anos. 

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Além de Nemesià e da filha Llubià, nada estruturava mais a vida de Josep Maria Taragona do que a devotada paixão que une todos os culés. Pois assim são chamados os torcedores do Futbol Club Barcelona, nome oficial da esquadra azul-grená. Durante a temporada, que se estendia não raro por nove prazerosos meses, a depender da performance do time nos vários torneios de que participava, ele comparecia com a família ao Camp Nou. Com ela, também iam os vizinhos Jordi e Elisa. Lá chegando, se entocavam no aconchego de um lugar lateral das arquibancadas onde mantinham três cadeiras. Se fosse inverno, invariavelmente levava ao pescoço um cachecol do clube e um pão com botifarra em papel alumínio que Nemesià lhe preparava. Nas raras vezes em que o time perdia ficava desolado, mas a dor só se tornava insuportável se o resultado adverso beneficiasse o arquirrival Real Madri.  Em qualquer circunstância, corria para casa para não perder a reprise do jogo e os comentários televisivos. Aos domingos, quando o time já jogara na véspera, ia ao restaurante Can Flores, da sua Blanes natal, onde se deliciava com navajas e peixe ao forno.

Agradava-lhe pouco, para não dizer nada, que Blanes estivesse tão congestionada de mouros e negros, mas tampouco os tratava mal. Embora falasse perfeitamente espanhol, Josep Maria Taragona se recusava a responder nesta língua aos imigrantes indesejáveis que lhe dirigiam a palavra. Sem hostilidade aparente de qualquer sorte, resmungava um catalão empolado. Nesse contexto, a pedra angular do separatismo para ele era, evidentemente, o poderio econômico da província e a dádiva de ter autonomia de representatividade nos desportes. Quando alguém lhe perguntou o que seria de seu clube se não houvesse a Liga Espanhola, passou dois dias reflexivo e meditabundo. Como não pensara nisso? Fosse como fosse, não esqueceria a tia Montserrat, que um dia chegou em casa de cabelos raspados por guardas franquistas. Fora punida por falar catalão na fila da farmácia. Ele próprio estivera em Madri para ver futebol, mas não podia admitir que se fizessem comparações entre a capital e Barcelona. Reconhecia, contudo, que lá se comiam melhores churros.

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O renomado cientista Albert Einstein, reputado como o maior gênio de todos os tempos, se encantou nos anos 1930, em Paris, com uma iguaria brasileira chamada vatapá. Ao degustá-la, teria dito que só agora sabia o que significava a palavra absoluto.

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O lado insólito da vida bateu à porta de Josep Maria Taragona numa manhã de junho quando dois guardas uniformizados chegaram a seu apartamento no Carrer Provença para detê-lo. E tudo começara na véspera. Mais precisamente quando, na madrugada anterior, ele despertara tomado de lancinante dor de dente. Ao se olhar no espelho, se apercebeu que a bochecha esquerda estava inchada e ligou para o dentista e amigo Abelardo Ratera que, para sua consternação, estava de viagem a Andorra naquele dia. Mas sendo este muito solidário, lhe recomendou um analgésico potente e disse que comparecesse ao consultório da irmã, também dentista, que esta lhe aliviaria a dor com um desinfecção no local até que ele próprio estivesse de volta e o curasse em definitivo do incômodo. Foi assim que Josep Maria Taragona foi à farmácia próxima à estação de metrô e lá se entupiu de dois cachetes de poder tão transcendente que não somente sentiu que a dor cedia, como também logo foi acometido de uma sonolência que o remeteu a um estado quase cataléptico ao chegar em casa.

Tão profundo foi o sono que só mesmo a recidiva da dor o fez se lembrar de que não estava curado e que se impunha seguir à risca a recomendação que o amigo lhe dera naquela madrugada de muita bruma. Quase tão desesperado quanto estava no auge do sofrimento, resolveu deixar o carro na garagem e tomar um táxi para a parte alta do Passeig de Gràcia onde, afinal, foi recebido pela solícita Dra. Marta Ratera, viúva bem fornida de carnes que se devotara à profissão como sacerdócio, especialmente desde que enviuvara do primo e que jurara a si mesma que sublimaria seus desejos mais inconfessos nas longas caminhadas pelas montanhas em que se entretinha com a colheita de cogumelos e a cozinha rústica dos campos da Catalunha. Ao ver o amigo do irmão quase febril, logo constatou pela radiografia que uma bolsa de pus se formara na raiz do pré-molar esquerdo e tratou de sarjar o abcesso. Apesar de anestesiado, Josep Maria Taragona sentiu enorme alívio quando o líquido amarelo lhe desceu pela língua e cuspiu sangue e uma baba que amargava que nem fel.

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O pároco de Noto, Sicília, está a ponto de tomar medidas legais contra o Pokemon Go, “diabólica fábrica de cadáveres ambulantes”. Já no Irã, a Academia de Língua e Cultura Persa se decidiu por abolir o uso da palavra Nutella. Em seu lugar, impôs a adoção da expressão “Nane dagh, chocolate dagh” , que significa “pão quente, chocolate quente”. 

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Tomado de alívio e com a área indolor em função da anestesia, Josep Maria Taragona relaxou a musculatura e teve um momento de quase êxtase ao se refastelar na cadeira anatômica da dentista. Enquanto esta ultimava preparativos para lhe cimentar um bloco provisório na área vizinha ao sinistro – já que ele a cutucara temerariamente, abalando uma prótese que não duraria muito -, eis que Josep Maria Taragona, culé, casado com Nemesià,  pai de Llubià e funcionário exemplar da Mafil, teve um inexplicável impulso que colocaria em risco o equilíbrio de seu pequeno mundo doravante. E este se deu mais precisamente no momento em que, vendo a porta fechada e sabendo que a secretária saíra para almoçar, posto que assim anunciara pela porta entreaberta, ele resolveu submeter sua virilidade a um terceiro teste na vida. Então, num ato que ele mesmo reconheceria mais tarde como tresloucado e irrefletido, apalpou a polpa das nádegas da protética virtuosa ao cabo de detida contemplação.

Olhando-o nos olhos, depois de rebater sua investida com um safanão, a Dra. Marta Ratera foi enfática: “Vou terminar o que comecei porque não sou de deixar uma missão incompleta. Mas, saindo daqui, vou prestar queixa na delegacia contra o senhor. Passa da hora de termos oportunistas que, se passando por idiotas, se entregam ao exercício sórdido de atacar mulheres desprotegidas”. Com a boca cheia de algodão e um sugador de saliva que lhe pendia do lábio inferior, Josep Maria Taragona suou bastante frio e pensou que o melhor caminho para evitar o vexame seria o de telefonar para Abelardo Ratera para que ele dissuadisse a irmã de fazê-lo. Mas, ainda no consultório, onde nada teve que pagar pela consulta, foi tomado pela desolação mais completa ao saber que o amigo saíra para esquiar. Tendo tartamudeado algumas desculpas, chegou a hora de Josep Maria Taragona se despedir de Dra. Marta e pedir penhoradas desculpas a que ela respondeu com um simples aceno, visível indiferença, enquanto apontava a porta.

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A televisão estatal egípcia abole antena e microfone para as apresentadoras por causa do excesso de peso. Elas poderão voltar depois de um regime. “Elas não são mais o que eram quando foram contratadas”, se queixou a diretora de programação.  

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Desconfiado de que ela talvez não fosse dar parte do delito na delegacia, depois de reconsiderar o caso, voltou para o Carrer Provença de metrô, já que Nemesià ligara para o trabalho dando conta de sua ausência e justificando a raríssima falta. Foi só no dia seguinte pela manhã, ao deparar os policias, que ele recebeu a positivação do dano que tinha feito à laboriosa apreciadora de cogumelos de montanha e de guisados encorpados. Uma vez enfurnado na cela do comissariado da Polícia Nacional, Josep Maria Taragona recebeu do carcereiro o recado de que tinham que esperar a chegada do delegado titular que tivera um problema familiar em Arenys de Mar, o que retardaria o andamento do inquérito naquele dia. Nemesià se recusara a levar-lhe um sanduíche e o amigo Abelardo Ratera já se decidira por abreviar a estada na montanha para estar presente ao lado da irmã, naquele momento de ultraje coletivo em que a honra da família estava em jogo, pelo que qualificou como um imperdoável abuso de confiança.

O agente penitenciário Carisio Puigcorvert, talvez apiedado do infortúnio daquele homem subitamente desorientado após ter cometido um delito que ele, pessoalmente, considerava de menor monta, foi até a gaveta da mesa mais próxima e de lá retirou uma cópia nova do “Alamanac de Catalunya”, com o qual Josep Maria Taragona poderia se entreter. Pena que não podia dar-lhe uma caneta para as palavras cruzadas porque isso era contra o regulamento. Lendo vinhetas que pareciam espoucar de todos os lados do mundo, Jose Maria Taragona tentava avaliar o que seria doravante de sua vida, até então exemplar. É certo que o velho Marc Vidal iria dar-lhe ouvidos, mas quem mais? Da mulher e da família por certo não era lícito esperar um perdão, pelo menos no curto prazo. Abelardo parecia ser um caso perdido pois era o varão da parte ofendida, e os danos profissionais e financeiros eram palpáveis. Isso porque apenas dois anos o separavam da aposentadoria com salário cheio. Sendo demitido, quem poderia contratá-lo se jamais tivera outro emprego? Quem queria saber de um pervertido, de um proscrito?

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Precisando de um souvenir de Moscou para comprar de última hora? O grupo Kalashnikov, produtor do apreciado AK-47, anuncia a abertura de uma loja no aeroporto de Cheremetievo. Nela se poderá comprar  “cópias de armas de fogo que podem ser adquiridas por qualquer pessoa em idade legal”, assim como bonés e camisetas.

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O delegado Ignasi Pujol não viu maior necessidade de manter a prisão e relaxou-a mediante o pagamento de pouco mais de mil euros, soma esta que Llubià entregou em mãos contra apresentação de um recibo carimbado. Nesse intervalo, por várias vezes, Josep Maria Taraona já se vira cumprindo pena entre toda sorte de delinquentes da Costa Brava e só o fato de ganhar as ruas fez com que achasse que seu calvário poderia ter chegado ao fim. Mas a verdade é que era muito tarde para Josep Maria Taragona. A caminho da casa do irmão, Pere, que o acolheria enquanto os ânimos não se acalmavam do lado de Nemesià, Llurià lhe disse que o advogado da empresa já recomendara o nome de um colega para defendê-lo. Se era para confortar ou não, o certo é que o prognóstico era positivo. “É a palavra de um contra a palavra do outro. Basta ele negar que tenha apalpado a mulher e devera bastar”. A filha então lhe disse que, independentemente do que tivesse acontecido, e das consequências legais, a casa estava desmoronando. As redes sociais não o perdoavam.

Conhecido doravante como o “tarado da rua Provença”, Josep Maria Taragona recebeu apenas uma mensagem de apoio, mas de todo lado espoucavam os apupos. O velho fornecedor de presunto disse que passasse mais tarde pois estava ocupado, fato inédito em trinta anos de convívio. Àngel telefonou para Nemesià e pediu que as férias conjuntas aos lagos italianos fossem canceladas por “falta de clima”. A empresa sugeriu que pedisse uma licença e o noivo da filha, Ferran, houve por bem terminar a relação sob a frágil alegação de que “as coisas já não vinham nada bem entre nós”. Pere, o irmão, que morava na vizinhança da igreja Sagrada Família, ainda se prontificou a hospedá-lo pelo tempo que fosse preciso, mas logo se deu conta de que os próprios vizinhos não estavam satisfeitos com o novo morador. Foi dessa forma que Josep Maria Taragona se sentiu do dia para a noite muito solitário. Mesmo assim, depois de tomar um banho de verdade e se encaminhar para o Parque Güell onde esperava, de alguma forma, ir à desforra com o próprio erro, Josep Maria Taragona teve um ataque de riso e de choro ao mesmo tempo. Da cadeia, trouxera o exemplar do almanaque que pretendia folhear no crepúsculo até que a hora soasse.

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Na falta de cabra, vaca ou cavalo, os povos que viviam na cidade pré-hispânica de Teotihuacan, no México, criavam coelhos para comê-los; utilizavam seus ossinhos como ferramentas e a pele como agasalho, revelaram recentemente os arqueólogos.   

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Foi Clementino Tixador o primeiro a ver o corpo desengonçado sobre as banquetas ornadas de mosaicos de Gaudí. Pensando se tratar de um bêbado que tivesse ficado escondido no bosque e, afinal, adormecido, o zelador ainda tentou lhe dar um safanão no braço para despertá-lo. Só então se deu conta de que Josep Maria Taragona apresentava rigidez cadavérica. A ponto de o braço que deveria se apoiar no muro estar apontado para cima, como se fosse uma escultura inanimada. Pois bem, Clementino Tixador acertara em parte. Inanimado, ele estava. Mas escultura, bem, isso Josep Maria Taragona não fora. O que ele fora sim foi exemplar funcionário da Mafil; devotado assistente de Marc Vidal antes de se tornar chefe; marido atencioso de Nemesià e pai de Llubià, a quem desejava um futuro como secretária executiva. Fora também ex-quase futuro sogro de Ferran, amigo de Abelardo Ratera até poucos dias antes assim como de Jordi e Elisa. Do irmão Pere, já não falava porque este pouco valia. Naqueles últimos minutos a sós consigo mesmo, Josep Maria Taragona concluiu que sucumbiria porque assim era a vida. E, ironicamente, quando cedera a um impulso, talvez por falta de treino, errara ao beliscar a bunda da Dra. Marta Ratera. Restava saber: como seria a temporada do Barça 2016-2017? Dessa vez, pela primeira em mais de meio-século, Josep Maria Taragona não a acompanharia.

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6 Comments

  1. Fernando Dourado a cada texto nos surpreende com seus truques narrativos. Aqui brinca com o tempo, entrelaçando o conteúdo central com textos que nos causa estranheza, a princípio, para, só no final, amarrar um sentido revelador da trama do personagem principal. Sem saber acompanhamos a vida de Josep Maria Taragona, narrada pelo autor, intercalado por flashes esparsos da leitura que o personagem faz de um velho almanaque catalão, quando na prisão.

    Brilhante!

    • Obrigado, João Rego. Você sempre tem uma palavra amiga e dá um empurrão vigoroso na inspiração. Para quem é dos velhos tempos, os almanaques serão sempre uma doce lembrança.Legal sua ilustração do calvário de Taragona. Juro que tentei salvá-lo, mas não consegui.

      Abraço

  2. Insólito, divertido e informativo este texto do Fernando Dourado Filho dava um óptimo roteiro de filme com esquetes à moda do Dino Risi com um toque a Almodovar.

    • Obrigado, Pascale. De fato o flerte com o cinema está se tornando intenso, mas é cheio de avanços e recuos. O Brasil é meio viciado nos chamados “films d´auteur” , pelo que me dizem, e a meia-dúzia que dá as cartas na indústria não se interessa muito em contar a história alheia – mesmo quando é boa -, optando sempre pela sua própria história. Um dia chego lá.

      Bjs

  3. Gente comum, vida simples, cotidiano sem surpresas. Coitado do espanhol e de tantos outros, que ao tomarem uma atitude errada uma vez na vida são massacrados para sempre. Gostei muito da narrativa tão rica em detalhes e intercaladas de notícias atuais, que apenas ao final, descobri de onde vieram e a razão de estarem ali. Parabéns ! Continue a nós brindar com seus contos.

  4. Obrigado, Elizabeth. Contar com você entre minhas leitoras assíduas é uma grande alegria. Sei que você tem um olhar fino e caibrado. Além da natural generosidade. Abraço

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