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Penso, logo duvido.

Bondes amarelos – Teresa Sales

Teresa Sales?

Adolescente amorcegando ?nibus el?trico em Recife.

Adolescente amorcegando ?nibus el?trico em Recife.

O certo seria cham?-los pelo nome. Mas ? muito mais bonito bondes. Principalmente porque eram amarelos. J? viu como perde todo encanto nomear uma cr?nica ??nibus el?tricos?? Lembrei-me de um depoimento de Ariano Suassuna, ao ser questionado por um jornalista impertinente, por que sua op??o mon?rquica. Uma quest?o de est?tica, dizia ele. Onde j? se viu come?ar uma hist?ria: ?era uma vez um presidente da rep?blica??.

Afinal os ?nibus el?tricos n?o passavam de modernos bondes, postos a funcionar pela cabe?a e n?o pelos p?s.

Eu passava uns dias no Recife com minha irm?, Rosa, na Casa da Universit?ria na Avenida Portugal. Estudante ginasiana em Garanhuns, esse era um dos meus melhores programas no Recife. Aproveitava a cama de algu?m de f?rias e ficava me achando, no meio de universit?rias. Ainda n?o conhecia o Recife o suficiente para sair sozinha e tamb?m era medrosa. Os livros me acompanhavam enquanto esperava uma folga da irm?.

Naquele dia ela tinha algo para resolver no roteiro dos novos ?nibus el?tricos e me levou para conhecer. Lembrava-me o bonde amarelo de um livro de hist?rias de minha inf?ncia. Dentro, um cheiro bom de novo. No meio da manh?, n?o eram muitos os passageiros.

O sil?ncio (naquele tempo existia sil?ncio) foi quebrado por uma discuss?o entre cobrador e passageiro. Est?vamos sentadas junto ? borboleta. Aconteceu ent?o o inevit?vel, em se tratando de minha irm?. Ela entrou na discuss?o em favor do passageiro. Ele estava sendo impedido de passar na borboleta, mesmo tendo o dinheiro para pagar, porque descal?o.

?O senhor n?o pode impedir este cidad?o de andar de ?nibus s? porque est? descal?o. O projeto de transporte urbano da prefeitura de Dr. Pel?pidas Silveira foi para uso do povo. Passe, meu senhor?. O cobrador dizia estar cumprindo ordens e o motorista na frente falava alto em seu favor. Com pouco, os passageiros se dividiam entre os que eram a favor e contra o cobrador. E minha irm? n?o arredava p?.

O tempo passando, o ?nibus parado, at? que o motorista decidiu: ?vamos todos at? a garagem? (est?vamos pr?ximos dela) ?para resolver l? com quem decide?. Parecia uma assembleia com dois partidos, cada um levantando argumentos a seu favor. O pobre homem, logo que viu a confus?o formada, implorava para descer. Mas agora n?o era somente minha irm?. Era um time a seu favor, que n?o deixou.

Conhecido por receber com regularidade o cidad?o comum em seu gabinete na prefeitura, alguns passageiros a favor do homem j? amea?avam ir at? o prefeito, mas o popular n?o desceria do ?nibus. N?o precisou. O lit?gio foi resolvido na garagem, a favor do homem descal?o, por um chefe sensato o suficiente para n?o deixar a confus?o chegar ao prefeito.

Eu j? era estudante universit?ria, morando no bairro de Casa Forte, no Recife, continuavam os ?nibus el?tricos circulando. A linha de ?nibus que servia Casa Forte era a de Dois Irm?os, com velhos ?nibus fazendo o mesmo roteiro dos trilhos dos verdadeiros bondes que n?o alcancei. Era uma linha muito mal servida e ?s vezes eu voltava para casa no ?nibus el?trico de Casa Amarela. Compensava caminhar pela Estrada das Ubaias, que liga os dois bairros, em vez de ficar parada no ponto esperando.

Aqui entra a outra hist?ria minha com os ?nibus el?tricos. J? come?avam eles a ficar cansados, talvez por falta de manuten??o. Paravam de repente e ouvia-se a gritaria da molecada: motorista, soltou a banana. A opera??o era simples. Bastava colocar os dois cabos de volta aos fios el?tricos.

Era a quarta feira de cinzas do carnaval de 1968. Eu vinha de uns dias de ?retiro revolucion?rio?: discuss?es infind?veis para tra?ar estrat?gias e t?ticas de atua??o da A??o Popular na pol?tica estudantil. Na Av. Guararapes, um pren?ncio de que a linha de Dois Irm?os iria demorar uma infinidade: acabara de sair um ?nibus. No outro lado da avenida, l? estava j? no ponto o de Casa Amarela. Foi s? atravessar a rua. Fui das primeiras a entrar. Num dos bancos que ficavam antes da borboleta, algu?m deixara uma marmita com uma dentadura completa em cima.

Voc?s podem imaginar, numa quarta feira de cinzas, o que cada passageiro que entrava no ?nibus e necessariamente passava pelo quadro surrealista, exclamava! A melhor: ?eita, o cabra tomou todas, brincou tanto, que esqueceu aqui o sorriso?.

 

3 Comments

  1. Ótimo, Teresa.
    Parabéns.

  2. Ótimas reminiscências, Teresa.
    Lembro, sim, dos elétricos, das bananas que caiam e da lentidão dos mesmos,da zoada que faziam quando passavam pelas conexões, porém largos e confortáveis.
    Também morava em Casa Forte e penava com os dois únicos ônibus da linha de Dois Irmãos. Não havia horário certo para passarem pela 17 de agosto e se os perdíamos, tínhamos que fazer o longo percurso até chegar no terminal de Casa Amarela onde apanhávamos, ou o elétrico, ou as lotações nas quais íamos sentados, com aquele motor barulhento que mais parecia uma usina a moer cana. E o cheiro de combustível que inalávamos….
    Sua Crônica lembrou meu saudoso irmão que, certo dia,tinha 16 anos, chegou em casa com a camisa aos frangalhos por ter brigado com um cobrador que maltratara um passageiro idoso. Depois de troca de sopapos e da falta de solidariedade por parte dos assustados passageiros, ele contou com a interferência do motorista que resolveu, a contento, a contenda. Resultado: uma camisa esfarrapada, um olho roxo, mas com a vitória e o sentimento de haver cumprido o dever de cidadão, que era uma sua marca pessoal.
    Lembrei também dos bondinhos de Lisboa, também amarelos, que não deixo de pegar quando em Lisboa. Subo e desço as ladeiras, como se eu mesma fizesse parte daquela amada cidade. È passeio imperdível que repetirei, mais uma vez no final desta semana, com a mesma emoção de quando os usei pela primeira vez. bjs e muito grata pelas lembranças trazidas.

    • Teresa

      Concordo totalmente com você na preferência pela palavra bonde!
      Coincidentemente, um pouquinho antes de ler sua crônica, deparei-me com bondes e quase fui atropelada. Comentava com uma colega como o tema de Jasmine, recente filme de Woody Allen retomava a peça de Tennessee Williams, A Streetcar named Desire. Ao verificar se esta já existia disponível para leitura on-line, descobri que havia duas traduções diferentes. No Brasil, a peça – e o filme nela baseado, dirigido por Elia Kazan e com um Marlon Brando lindo de arrepiar – intitularam-se Um Bonde chamado Desejo. Mas, em Portugal, ambos receberam o título de “Um Eléctrico Chamado Desejo”.
      Como você, sou mais o Bonde!

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