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Penso, logo duvido.

Causos Paraibanos VIII – Mestre Pititinga e sua “Gaivota” – Clemente Rosas

Clemente Rosas

Chegada de Jangada na Praia do Mucuripe ? Acervo IBGE.

Chegada de Jangada na Praia do Mucuripe ? Acervo IBGE.

Em l?ngua tupi, a palavra quer dizer ?pele branca?.? Nunca soube se era seu nome de registro ou apelido, mas n?o lhe destoava.? Entre os mestres jangadeiros das praias paraibanas, quase todos negros, mulatos ou caboclos, ele era moreno claro.? Alto, desempenado, forte, com merecida fama de valente, era o ?capit?o? de Gaivota, a jangada do meu tio Nelson, elegante e veloz como poucas.

Meu pai e meus tr?s tios maternos o conheceram na mocidade, viveram com ele algumas aventuras n?uticas e me deram testemunho de suas proezas.? Algu?m j? o vira, sozinho, em alto mar, colocar no seu furo um mastro de bote, com a vela enrolada.? Quem conhece o balan?o de um bote pesqueiro em mar aberto, e o peso do seu mastro, bem pode avaliar a fa?anha.? E em mat?ria de brabeza, n?o foi s? uma vez que meu tio M?rio, delegado, foi tir?-lo da cadeia, por escaramu?as com parceiros.? Na mais grave delas, um duelo a faca, teve o abd?men rasgado por um golpe, e as tripas se projetaram para fora.? Recolheu-as com a m?o esquerda e manteve-se firme, sem largar a peixeira da outra m?o.

Em desaven?as mais duradouras, seus inimigos tremiam com a amea?a de resolver o caso no mar, onde n?o h? socorro nem testemunhas.? Como armas, al?m da peixeira, s? a ara?anga, esp?cie de clava para matar peixes mais agressivos, fisgados no corso, como o agulh?o de vela, as bicudas, cavalas e albacoras.? Mas quando ia pescar com meu pai e meus tios, era bem humorado, brincalh?o e, algumas vezes, temer?rio.

Numa dessas pescarias, ao voltar do ?mar de fora?, desprezando as passagens das ?barretas?, o mestre resolveu cruzar por cima da linha de arrecifes, o que era poss?vel para embarca??es de fundo chato, mas apenas com a mar? cheia.? As ondas quebravam por cima da jangada, mas havia ?gua suficiente por baixo, sendo necess?rio apenas equilibrar o peso, para que ela n?o embicasse.? Mas, naquele dia e hora, a mar? estava meia, e quando os ??argonautas? se deram conta, os arrecifes se entremostravam.? No momento exato, uma marola inesperada elevou a jangada, evitando o choque. ? Coment?rio de Pititinga:

– Gaivota faz ?cacunda? pra passar em cima da pedra!

Doutra feita, imprud?ncia semelhante fez a embarca??o virar, jogando n??gua tripulantes e apetrechos.? Enquanto meus tios, em alvoro?o, procuravam recolher cani?os, sambur?, iscas e peixes j? pescados, quem foram vislumbrar, j? sentado no lombo da jangada, e de riso solto: Pititinga!

Fui conhec?-lo melhor na sua velhice, quando as grandes jangadas de paus roli?os j? haviam desaparecido.? Ele sobrevivia precariamente, pescando peixinhos e arrancando polvos das pedras, numa jangadinha de empurrar com vara.? Em raro momento em que o vi sem camisa, pude constatar as quatro ou cinco grandes cicatrizes na barriga, evid?ncia das pelejas de faca de que tanto ouvira falar. P?lido, algumas vezes b?bado, com feridas nas pernas que n?o saravam pela exposi??o constante ? ?gua do mar, era ajudado pelos veranistas.? E os que com ele conviveram na mocidade, como meu pai, tinham a paci?ncia de ouvi-lo, quando aparecia, ?chumbado?, para conversar.

Quanto ? turma jovem, sempre que havia festa, churrasco ou feijoada, n?s o convid?vamos, para tocar o zabumba e ?puxar? as letras de ?coco?, a dan?a preferida da fam?lia, nas temporadas de ver?o.? Ainda hoje temos boa mem?ria dessas letras, falando de porto, de mar, de peixes, de morenas ?flores da noite?, da vida ? toa dos praieiros.

A ?ltima vez que lembro ter visto Pititinga foi numa rua central de Jo?o Pessoa, onde ele n?o ia quase nunca.? Estava ali, talvez, para receber tratamento de favor de algum m?dico com casa de veraneio em Cabedelo.? Embrulhado num casaco roto, p?s descal?os, estranho ao meio, com o caminhar balan?ado dos marinheiros, n?o lembrava em nada o mestre jangadeiro imponente, com o chap?u de palha de abas dobradas em bico, na parte dianteira, para reduzir o efeito do vento, cuja imagem eu guardava na mem?ria.

Morreu pouco depois, quando o mundo em que nasceu e viveu tamb?m morria.? A explora??o das matas acabou com o pau de jangada, como, s?culos antes, aconteceu ao pau brasil. Junto ?s jangadas, foram-se tamb?m os botes veleiros, vencidos pela concorr?ncia dos barcos a motor e pela escassez do peixe nas ?reas pesqueiras mais pr?ximas.? A urbaniza??o das praias fez desaparecer os imensos coqueirais, e com eles a disponibilidade de palhas para as choupanas que os propriet?rios deixavam construir, ? vontade, em suas terras, na convic??o ing?nua de que a fuma?a das cozinhas dos pescadores fazia bem ? planta??o.

De tudo ficou apenas a lembran?a.? Mas no patrim?nio intang?vel da Praia Formosa, Pititinga ter? sempre lugar de destaque.

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4 Comments

  1. Clemente, Mais uma linda história, narrada com brio e elegância. Lendo-a senti nas narinas a salinidade do mar e me veio à memória os passeios de jangada com profissionais que eu mesmo fiz em São José da Coroa Grande, no litoral sul de Pernambuco. Em tempo: pititinga, na Bahia, é um peixinho pequeno e delicioso que é servido com aperitivo.

  2. Clemente,
    Como é saboroso ler seus causos paraibanos! Pela leveza e precisão da escrita. Porque você nos leva a lugares e tempos que de algum modo também foram nossos. Daqui a pouco já está do tamanho de um livro.

  3. Obrigado, amigos. Mas temo que não cheguem a dar um livro.
    Vamos ver.

  4. Lindo esse relato. Um pedacinho dos coqueirais e jangadas cheguei a ver em Arembepe, 1962/1963, quando ainda era preciso atravessar um areião p’ra chegar lá. Mas é claro que já era muito diferente dos “Causos”. Só vi um menino pequeno subindo no coqueiro para tirar coco lá em cima!
    Vai dar livro sim. Não precisa ser livro grosso, ora essa.

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