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Crise dos Refugiados (3): muros vão se erguendo – Helga Hoffmann

Helga Hoffmann

Volunteer aid worker Rob Lawrie with 'Bru', the four year old refugee he has admitted to trying to smuggle into the UK from France.

Volunteer aid worker Rob Lawrie with ‘Bru’, the four year old refugee he has admitted to trying to smuggle into the UK from France.

Um ex-militar inglês, Rob Lawrie, morador de Leeds e pai de 4 filhos, foi julgado em Boulogne, França, 14 janeiro pp., por “delito de solidariedade”. Tentou levar para a Inglaterra uma menininha de 4 anos, Bahar, cujos pais, fugindo da guerra no Afeganistão, estão há tempo na zona conhecida como selva de Calais.

São ajuntamentos de tendas perto do Canal da Mancha, em que mais de 5000 pessoas (sírios, curdos, afegãos, eritreus, sudaneses), em condições de vida esquálidas, esperam uma oportunidade de passar à Inglaterra. Famílias inteiras estão em abrigos improvisados no chão de lama, homens jovens sozinhos ao relento nos matagais. Há episódios de violência, e nem só de grupos tentando abordar um ferry boat à força ou chegar à força ao Eurotunel. Caminhoneiros podem cobrar 5000 euros para ocultar um “passageiro” ilegal, que arrisca ter o destino dos 71 corpos (59 homens, 8 mulheres e 4 crianças) encontrados dentro de um caminhão-refrigerador abandonado, em agosto do ano passado, no acostamento de uma estrada austríaca perto da fronteira com a Hungria.

Rob Lawrie passara muitos meses fazendo em seu caminhão o trajeto Leeds-Calais, onde estava construindo abrigos junto com os migrantes e para onde trazia donativos, em dinheiro e em espécie, arrecadados em campanhas humanitárias. Era o que se chama um “aid worker”, para o que não há boa expressão em português: alguém cuja atividade profissional é a ajuda humanitária. Nessa convivência tornou-se amigo da família vinda do Afeganistão e para a criança encantadora acabou se tornando quase um tio.  A pedido do pai da criança, Reza Ahmadi, que tem parentes em Leeds, decidiu reunir a pequena Bahar com seus primos. Construiu uma caixa de madeira na boleia atrás do seu assento, onde a criança ia deitada dormindo. Acontece que no caminho dois refugiados se agarraram ao caminhão, a polícia o fez parar, ele teve que descer para a fiscalização, a menininha acordou, se viu sozinha, pulou do assento chorando em busca do motorista e jogou-se nos braços dele, então flagrado e processado por tráfico. O pai da criança se sentiu culpado das tribulações do amigo, teve que explicar a longa história, garantir que nada pagara a Rob Lawrie, quem agora corria o risco de ser condenado a 5 anos de prisão. No fim das contas, depois de abaixo assinados (118 mil assinaturas na França, 53 mil no Reino Unido) e solidariedade vinda de muitos países, o juiz de Boulogne suspendeu a pena e aplicou uma multa de mil euros. Sob os aplausos dos presentes, o delinquente absolvido mal conteve as lágrimas.

O inglês não negou o crime cometido, como disse: “sou alguém que, na loucura de um momento, fez algo ilegal, porque não queria que uma menininha de 4 anos passasse o inverno na selva”. Nem é a favor de que simplesmente se abram as fronteiras.

Aliás, a selva de Calais não se formou na atual crise de refugiados, está lá há muitos anos, sem que diferentes governos em Paris consigam saneá-la, mas é claro que aumentou e se tornou mais visível, e a tensão piora diante da perspectiva de a França se encontrar diante de novas levas de refugiados. Ano passado em setembro, a União Europeia concordou em realocar de forma organizada 160 mil refugiados que estavam na Grécia e na Itália, portas de entrada por terra e mar, que se queixam de não terem condições econômicas nem para registrar, muito menos para manter, a quantidade desproporcional que ali chega. A França, nesse primeiro acordo, se comprometeu com uma cota de 30 mil: até o fim de janeiro, registrara, dessa cota, o pedido de asilo de 62 pessoas. (E nem há como criticar a França, já que a União Europeia toda só havia realocado 272, o que é menos do que antes do inverno chegava à Grécia por hora.)

No desenrolar da maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial, e da pior crise da União Europeia desde a sua criação, haverá mais gente punida por “delito de solidariedade”. Angela Merkel, a figura mais proeminente nos esforços em favor de um programa comum europeu para acolher refugiados, além de medidas para conter seu fluxo na origem, certamente está sendo punida politicamente. Alguém que tinha a reputação de ser tão pouco impulsiva quanto um britânico, talvez “na loucura de um momento” declarou abertas as fronteiras da Alemanha. Mais de um milhão de pessoas chegaram em 2015, famílias inteiras, mas também uma imensa quantidade de crianças desacompanhadas, sozinhas.

Milhares continuam entrando, com o recrudescimento de bombardeios russos na Síria nos últimos meses. Quando, no início de fevereiro, a ONU promovia em Genebra negociações de paz e por um cessar-fogo na Síria, forças russas e do governo em Damasco conduziram em dois dias mais de 300 ataques aéreos nas cercanias de Aleppo. Em janeiro, em cidades sitiadas, seja controladas por tropas de Assad, seja por rebeldes, dezenas de pessoas morreram de fome, porque a ONU não conseguia permissão para o envio de comboios humanitários. Mais de 30 mil sírios se deslocaram nas últimas semanas para a zona de fronteira com a Turquia, que, tendo recebido 2 milhões e meio de refugiados, acaba de fechar a fronteira e declara ter chegado a um limite de sua capacidade de acolhida.

Quem lembra agora dos aplausos internacionais e dos altos níveis de aprovação doméstica da chanceler alemã ainda há seis meses? Em meados de 2014 o índice de aprovação de Merkel entre os alemães andava por volta de 75%, e ainda em meados de 2015 estava nesse nível. Naquele momento (pouco antes do editorial “Willkommen” aqui na “Será?” no início de setembro) nenhum analista político duvidava de sua reeleição. Hoje o índice de aprovação já está em menos de 50%. E tudo por causa dos refugiados de guerras.

Parece que ninguém imaginou que seriam tantos e de uma só vez, nem que a Alemanha seria acusada pelos vizinhos de ter exacerbado a crise. E o clima piorou depois dos ataques terroristas de 13 de novembro em Paris e depois que se espalhou a notícia de ataques sexuais e achaques durante as festas de Ano Novo em Colônia, e que os abusos haviam sido cometidos por homens árabes ou africanos do norte, inclusive alguns que estavam esperando a decisão sobre pedidos de asilo. Foi se espalhando insidiosamente o medo. Não é medo da possibilidade de terroristas infiltrados entre os que chegam, ainda que esse também tenha uma base, dado o colapso dos sistemas formais de registro e identificação nas fronteiras externas da União Europeia. É uma desconfiança mais próxima do cotidiano, em relação aos costumes e convicções diferentes, sobretudo em relação à liberdade individual e a igualdade entre os sexos, ou noções sobre o que seja o espaço público e o espaço privado. Não é sem razão que nos cursos dados para refugiados na Noruega, por exemplo, a preocupação maior nem seja com a língua, e sim, ensinar aos recém-chegados que na Noruega as mulheres têm o direito de se vestir como queiram, que uma mulher andando sozinha na rua não significa disponibilidade dela, e que mesmo que uma mulher te dê um beijo isso não indica que ela vá ter relações sexuais com você.

Junto com a popularidade de Angela Merkel também caiu o apoio à CSU-CDU, da faixa dos 40% para a dos 30%. Aqui o medo é que o centro perca apoio para extremistas e isso afeta a CSU, o partido menor e mais à direita na coalizão de Angela Merkel.

Domingo, 6 de fevereiro, Pegida, sigla até há pouco ignorada de um movimento nacionalista e antimuçulmano, promoveu manifestações em 14 países europeus (e até em Calais, apesar de proibição do governo francês que temia confrontos). Pegida é a sigla em alemão para “europeus patrióticos contra a islamização do Ocidente” e as manifestações pediam aos governos não aceitar refugiados. Representantes desse movimento chegam ao ponto de defender a violência contra refugiados, até mesmo atirar contra quem não se consiga prender na fronteira. Eis aí uma vertente ocidental de fanatismo que pouco deve a militantes do EI. Também na Finlândia, que recebeu alguns milhares de refugiados, sobretudo do Iraque, surgiu um movimento de vigilantes hostil a imigrantes, que se denomina Soldados de Odin, um deus da mitologia nórdica.

O presidente do CSU e Premier da Bavária, Horst Seehofer, está há meses em campanha contra o plano Merkel, que pede uma distribuição entre os países da UE. A CSU quer a imposição de limites à entrada de refugiados na Alemanha. Ameaça entrar na corte de justiça alemã com o argumento de alguns juristas, segundo o qual a Alemanha a rigor não pode aceitar nenhum refugiado que chegue por terra, pois a Constituição alemã tem uma emenda de 1993 que diz que não se dá proteção a pessoas provenientes de estados “seguros”. Todos os países que têm fronteira com a Alemanha são seguros.

Alguns países membros da União Europeia se recusam categoricamente a participar de um esforço comum da União Europeia. Esses países alegam que a Alemanha tomou uma decisão unilateral, ao abrir suas fronteiras sem levar em conta as regras de Schengen e do acordo de Dublin, e não levou em conta o enorme efeito que isso teria sobre seus vizinhos. A UE não tem mecanismo para punir a falta de cooperação daqueles que acham, como os húngaros, que a política de imigração deve ser deixada aos estados nacionais e que os cidadãos de um país-membro da UE precisam dar seu consentimento antes que o governo de tal país aceite uma entrada maciça de imigrantes. O embaixador da Hungria em Berlim chegou a declarar em programa de TV em 15 de fevereiro que era tudo um problema alemão, já que 99% dos refugiados queriam ir para a Alemanha, atraídos por cofres do Estado cheios e programas de construção de moradia. Nessa linha, o chamado grupo de Visegrad (Polônia, República Tcheca, Hungria e Eslováquia) não aceitam participar de uma realocação de refugiados na UE e usa expressões como “imperialismo moral”.

Já foram construídos muros em parte da fronteira sul da Macedônia, com a Grécia, e também entre a Bulgária e a Turquia. A Hungria planeja um muro em sua fronteira sul, com a Romênia, a Sérvia e a Croácia, e há outro planejado para a fronteira sul da Áustria, com a Eslovênia.  A França introduziu controles de fronteira, do mesmo modo a Suécia e a Dinamarca. Há pressão para reforçar a fronteira mais crítica, entre a Grécia e a Turquia, enviando funcionários da União Europeia para registrar os refugiados e devolver rapidamente aqueles cujo pedido de asilo seja considerado indevido. O esforço é para dificultar o uso da rota dos Balcans, usada pelos refugiados rumo norte.

Há algum tempo o governo austríaco já vinha defendendo muros e limites, e já em janeiro havia suspendido as regras de Schengen, quando os alemães começaram a devolver pessoas que entravam vindas da Áustria. A partir de hoje, 19 de fevereiro, a Áustria, está impondo limites para o número de imigrantes que permite entrar: registrará apenas 80 pedidos de asilo por dia, e só permite que 3200 por dia passem pelo seu território rumo a países vizinhos.

Acontece que parte da solução dos problemas na chegada depende do que se possa fazer nos pontos de partida. E aí vai depender do avanço de negociações de paz para a Siria, envolvendo a Rússia (que declara apoiar Damasco contra o EI) e os Estados Unidos (que havia dado apoio a alguns dos grupos rebeldes contra a ditadura de Assad), que agora considera que o principal objetivo estratégico é conter o EI; a Alemanha, que impõe sanções à Rússia pela invasão da Crimeia e busca prioritariamente uma cooperação com a Turquia e uma redistribuição de responsabilidades dentro da União Europeia que concilie diferentes visões do mundo a Leste e a Oeste, entre Norte e Sul; uma coalizão de países formada pela Arábia Saudita que seria contra o EI; o Irã, aliado na questão síria aos russos e ao governo Assad; os curdos do Iraque e suas forças Peshmerga que tiveram vitórias importantes contra o EI e que têm no mínimo a simpatia dos americanos; a Turquia, cuja fronteira os refugiados sírios vêm cruzando desde 2011, que não quer ver fortalecidos os curdos. E a lista está incompleta. Teria que incluir representantes da oposição a Assad que sejam contra o EI. Um quebra-cabeça.

Ou um paiol. Em novembro do ano passado, caças turcos abateram um bombardeiro russo que vinha da Síria e violou o espaço aéreo da Turquia em área perto da costa. Um piloto e um marinheiro russo enviado como parte de uma equipe de resgate foram mortos nesse encontro, que marca a primeira vez em 50 anos em que um país membro da OTAN abate um avião russo. Este mês, de novo, a Turquia acusou a Rússia de violação de seu espaço aéreo, enquanto 35 mil sírios se acumulam na fronteira com a Turquia. Mas o drama na ponta da partida fica para o próximo capítulo.

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5 Comments

  1. Excelente análise de uma situação muito complicada.

  2. Quando leio um artigo desse teor, independentemente de ter sido bem redigido e trazer uma mensagem através de entrevistas, vem à minha mente, quase que instantaneamente a imagem dos autores de toda essa tragédia. Para os que gostam de História do Mundo fica mais fácil. Reporto-me aos séculos entre 1400 a 1960. A Inglaterra invadiu, saqueou, matou e dividiu povos na África, nas Américas, no Oriente Médio e na Ásia. Os chineses, para conter o avanço do ópio trazido pelos ingleses chegaram ao ponto de entregar a ilha de Hong Kong como compensação. No Oriente Médio alteraram as fronteiras dos países existentes e soberanos, fazendo com que se tivesse o cenário atual. A Europa colhe hoje os resultados de ações praticadas contra outras nações séculos ou décadas antes. Não deixo a responsabilidade somente sobre as costas da Inglaterra. Até a Bélgica resolveu se apossar de um grande “naco” da África, muitas vezes maior do que o tamanho do país ao invadir o Congo Belga. Portugal fez o mesmo se apossando de Angola e Moçambique, a Inglaterra, com Egito,
    Sudão, África Oriental Britânica, Quênia, Uganda, Somália, Zimbabwe, Zâmbia, Botswana, Estado Livre de Orange, Serra Leoa, Nigéria, Camarões, Gana, Malawi. A Itália se apossou da Líbia, Eritreia e Somália, enfim, a lista é muito grande. Os povos invadidos, depois submetidos a guerras fraticidas entre as inúmeras famílias tribais, guardam, de certa forma, rancores contra os povos invasores. As guerras atuais não passam de uma remodelação dos espaços, onde se aproveita para se agregar valor, buscando-se regiões prósperas na mineração e petróleo. Afora isso, guerra é algo bastante lucrativo para algumas empresas que vendem desde as armas e munições até outros itens logísticos, como barracas, comida desidratada, utensílios diversos. O assunto é “explosivo” w põe sobre a mesa questões mal resolvidas desde há muito tempo. São feridas que não se cicatrizaram. Lógico é que desde o início dessas migrações uma parcela dos migrantes não estava necessariamente fugindo da guerra, mas sim aproveitando a ocasião para migrar para um país que oferecesse melhores oportunidades e condições de trabalho. Talvez o grande erro tenha sido a fácil acolhida em território europeu. Desta maneira o problema não foi atacado em sua causa mas sim em seus efeitos. Agora há uma grave questão a ser resolvida, que trata de seres humanos mantidos em condições sub-humanas. Talvez filhotes de animais tivessem melhor sorte, sendo rapidamente adotados. Esse problema ainda não acabou e os conflitos podem ser mais letais. Colhemos amanhã os frutos das sementes plantadas ontem..

    • O artigo “Crise de Refugiados (3) não contém nem se baseia em uma única entrevista. Imagino que na realidade o comentário foi feito sem ler o artigo. Pelas ideias aqui apresentadas pelo comentarista sobre a historia mundial, concluo que ele considera que a revolução industrial foi um erro, a revolução agrícola também, e as descobertas, então, nem se fale: era muito melhor mesmo que os ingleses nunca tivessem chegado à Índia, que os portugueses não tivessem descoberto o Brasil, que os indianos jamais tivessem chegado ao leste da África, que os franceses nunca tivessem chegado ao norte da África. E assim teríamos um mundo de paz e prosperidade.

  3. Pois é, Sergio Trindade, mais complicada ainda para Ban Ki-moon. No início de fevereiro, ao falar sobre as negociações para um cessar-fogo, disse que “foi extremamente difícil para Staffan de Mistura [o enviado especial da ONU para a Síria] continuar…”. Esteve à beira de dizer que Rússia e Síria com seus bombardeios desrespeitavam a Resolução 2254 do Conselho de Segurança da ONU. Eis aí o que é “understatement”. A gente que já foi da ONU fica pensando como esse italiano meio sueco consegue dormir, embora ele já esteja há tempos trabalhando com as zonas mais complicadas do mundo. Pelo menos ontem puderam chegar às cidades sitiadas na Síria os comboios de ajuda humanitária da ONU, que esperam alcançar 93 mil pessoas.
    PS – Sergio Trindade é ex-colega de ONU. No meu tempo de ONU ele era o Assistant Secretary General para o Centro para Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento. Sabe de complicação, já andou por 87 países, só na China esteve a trabalho 63 vezes em 29 anos.

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