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Penso, logo duvido.

Cultura do ruído – Teresa Sales

Teresa Sales

Foto Paolo Pellegrin USA. NYC. Fashion Week

Foto Paolo Pellegrin USA. NYC. Fashion Week

Hoje no hospital como acompanhante, h? dois anos como paciente. A mesma cena: ou voc? liga a televis?o em alto volume para ficar com seu som privado, ou ? obrigado a ouvir a conversa alheia. Enfermeiras, faxineiras, pacientes, acompanhantes, como se o lugar fosse uma feira. Ser? que sempre foi assim? Nos hospitais de antigamente, os corredores eram brancos, as portas azuis e, por toda a parte, um quadro pendurado na parede: a figura de uma mulher (freira ou enfermeira?) com o dedo na boca dando ordem de sil?ncio.

Outro dia, na Livraria Cultura. Ia comprar o jornal Valor Econ?mico, mas estava com tempo para um passeio pelos livros. Com meia d?zia deles, sentei-me para folhear. Nesse agrad?vel mergulho nas letras, eis que se planta na minha frente uma mo?a para resolver quest?es de seu trabalho ao telefone celular. Aquilo me deu imensa revolta e me senti impotente, at? descobrir, tal como se descobrem na humanidade solu??es frente ?s dificuldades, at? descobrir como fazer para n?o ser atrapalhada. Comecei a ler alto, numa altura maior do que a fala dela ao telefone. Essa passou a ser minha arma.

A nossa transforma??o de pa?s rural para urbano veio acompanhada de ru?dos. Fazem parte de nossa cultura tropical. Na Garanhuns de minha inf?ncia e adolesc?ncia, ?ramos obrigados a ouvir os alto-falantes colocados em pontos estrat?gicos da cidade, com m?sicas e propagandas. Um deles ficava em frente ? minha casa e eu costumava ir ler no fundo quintal, onde o sil?ncio se misturava ao vento, cachorro, galinhas, passarinhos.

Na sexta feira da paix?o n?o tinha propaganda e tocava m?sica cl?ssica. Como o dono das m?sicas em Garanhuns s? possu?a o disco ?Lago dos Cisnes?, ?ramos obrigados a ouvi-la de manh? ? noite. Dr. M?rio Matos, meu professor de biologia, contava de sua terra, Serra Talhada. Quando foi lan?ada a m?sica Cintura Fina cantada por Luiz Gonzaga, o p?roco achou-a indecente e proibiu. Um tempo depois, o padre foi substitu?do por outro mais mo?o. Consultado sobre a pr?via proibi??o, disse n?o ver problema com a m?sica. Naquele dia, Cintura Fina tocou o dia inteiro.

Um ingrediente novo no ru?do urbano, captado no filme de Kleber Mendon?a Filho, n?o anula os anteriores, mas a eles se acresce: a tecnologia. O barulho do mar foi capturado h? muito pelo som da m?sica, que na verdade n?o passa de um ru?do de mau gosto nas praias urbanas do Brasil, sobretudo do Nordeste, mais tropical, mais barulhento. Corremos para as praias silvestres com alguma esperan?a, at? que chegam uns boys, abrem o porta-malas do carro e disparam o ru?do.

A televis?o ? o maior vil?o. N?o existe mais sala de espera de qualquer reparti??o, consult?rio m?dico, laborat?rio, sem a TV ligada e as pessoas hipnotizadas em frente ? telinha. Ou conversando ainda mais alto para serem ouvidas. Uma cena na hist?rica Olinda: as pessoas com cadeiras na cal?ada, ? brisa do mar que chega ali em todas as ruas. Outrora, a conversa do fim do dia, uma confraterniza??o de familiares e vizinhos. Desde a universaliza??o da televis?o, a conversa fragmentada, apenas nas propagandas do intervalo.

N?o ? somente o hipnotismo da tela colorida. ? o dom?nio da Rede Globo. Isso ? preocupante. O mundo dos interesses privados invadindo quase todos os lares brasileiros.

A palavra de Deus, no medievo t?o silenciosa e bonita nos Cantos Gregorianos, virou gritaria, com alto-falantes voltados para quem quer e quem n?o quer ouvir. E n?s vamos, assustadoramente, virando minoria. ?Os incomodados que se retirem?, parece nos dizer a maioria barulhenta. Para onde vamos?

 

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