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Penso, logo duvido.

Dilma Rousseff, a rainha, e o seu mensageiro – Helga Hoffmann

Presidente Dilma Rousseff em polêmica entrevista com Jô Soares

Presidente Dilma Rousseff em polêmica entrevista com Jô Soares

Helga Hoffmann

Cena: um idoso um tanto desgastado e uma senhora bem maquiada, com iluminação dirigida de modo favorável, sentados à frente de uma parede de livros parecida com aquelas que certos decoradores compram a metro quadrado. Considerando a carreira do entrevistador (e da entrevistada), o clima é de algum suspense, já que, mesmo para um programa depois de meia noite, alguns haviam convocado panelaço. Convocação a noctívagos, suponho.

O entrevistador dá início, dizendo à Presidente que ele havia sido acusado de petista fanático porque fora contra o “Fora Dilma”. Até aí, normal, era uma oportunidade para declarar-se contra o impeachment prematuro; e deixou a presidente relaxada, feliz consigo mesma. Mas Jô Soares, o homem de teatro, errou no tom.  E logo de cara irritou mais um grupo, aqueles que continuam apontando razões nada triviais para um impedimento da Presidente.  Jô havia colocado a questão como se fosse simplesmente de respeito ou desrespeito ao voto.

Já o início foi surreal: Jô pediu para recordar uma história de Bíblia na prisão, e também disse e repetiu que Dilma era leitora voraz, até bula ela lia. Será que não havia ali um fiapo de ironia? Voraz leitora de bulas de remédio (como disse duas ou três vezes). Aí a Presidente contou que, na prisão, fez desenhos de totens coloridos com lápis de cera de origem controversa, o guarda viu, gostou, e pediu, porque queria dar de presente p’ra noiva. E depois que ela deu o desenho, o guarda levava a Bíblia (sem capa, conforme outra longa explicação da Presidente) de uma cela para outra. A Presidente explicou a Jô o quanto é “fantástica” a Bíblia, “tem muita metáfora”, e “nada melhor que imagem p’ra fazer a gente entender”.

Detalhe: o guarda era loiro de olho azul, era um menino, de uns 18 anos… os guardas todos eram assim,  os “catarinas”. Guardas catarinenses? Me lembrei do  meu pai, me ensinando alemão, e contando que alemão de Santa Catarina dizia “Fechíer die janelle, es chúvart” (Feche a janela, está chovendo), ou seja, não sabia nem alemão nem português. Mas guardas de prisão catarinenses durante a ditadura? Continuava surreal. Mas deve ter sido a maneira “light” de lembrar a ditadura e sugerir, mais uma vez, agora de modo subliminar, a tese hoje um tanto abalada de que quem foi preso naquela época está mais qualificado que qualquer outro para ser Presidente do Brasil: “na prisão eu aprendi”, “tenho imensa capacidade de resistir”.

Se o que entrevistador queria era deixar à vontade a Presidente, desarmar a defesa, deu resultado. A Presidente foi ficando cada vez mais solta, eufórica, mesmo delirante. Se algum forasteiro, vindo de longe, sem ter jamais lido ou ouvido qualquer coisa sobre o Brasil, chegasse ali naquele momento e ficasse a ouvir, concluiria estar em um país exuberante com todos os seus problemas resolvidos (salvo um momentâneo aumento no preço dos alimentos).

Não fossem as perguntas do entrevistador, feitas com gentileza reverencial, nem saberíamos que existem críticas. O malfadado jornalista foi quem colocou algumas questões: promessas não cumpridas (e a questão do ajuste fiscal), diretoria da Petrobrás, excesso de ministérios (“você consegue lembrar o nome de todos os ministros?”), radicalismo de críticos (como a crítica dentro do PT), oposição até mesmo na própria base (“você está olhando para Renan e Eduardo Cunha, então sabemos que você não tem medo de cara feia” ; “você, com os aliados que tem, não precisa de oposição”). A bem da verdade, a Presidente defendeu com convicção o direito de qualquer um criticar seu governo.

Estelionato eleitoral? Não está cumprindo o que prometeu?  Dilma Rousseff acha que não pode ser acusada disso porque só tem cinco meses de governo, e tem quatro anos para cumprir as promessas. Ora, a leitora voraz ignora que tudo o que está acontecendo hoje foi previsto por analistas da oposição no próprio momento em que estavam sendo adotadas as políticas da “Nova Matriz Econômica”?

A Presidente parecia plenamente convencida do que dizia, que “estamos no sétimo ano da crise”, que esgotamos tudo o que pudemos com a crise (desoneramos bens de capital, a cesta básica, demos isenções, tudo do Tesouro), mas está durando mais que o previsto: por isso é necessário o ajuste. Além de que o ajuste se dá por causa da seca (no Sudeste) e do dólar (“eu não controlo a seca” e “dólar subiu no mundo inteiro”). “Esse ajuste da seca e do dólar é passado aos preços”, “não fomos nós que provocamos”. Se a explicação fosse essa, não haveria realmente mais nada a fazer além de aguardar nosso destino de subdesenvolvimento. A Presidente simplesmente omitiu tudo o que nos trouxe até à recessão com inflação alta, e contas externas deterioradas. Justificou o gasto público descontrolado: “Usamos tudo o que podíamos”. Segundo o TCU, usaram também o que não podiam.

Petrobrás?  Pré-sal? Trocou a diretoria em 2012 porque queria ter pessoas da confiança dela. O pré-sal dará lucro mesmo com preço do petróleo mais baixo, a Petrobrás ganhou o Oscar do petróleo e gás este ano, publicou balanço, virou a página, será empresa das mais lucrativas do mundo, conseguiu captar recursos no exterior com bônus. Mas a Presidente esqueceu que a Petrobrás é a empresa de petróleo mais endividada do mundo e a venda de bônus aumenta a dívida mais ainda. E esqueceu o quanto ela continua fragilizada pelas dúvidas quanto à possibilidade de gestão sem os danos da ingerência política. A operação Lava Jato, durante a sua nona etapa, reviveu a canção imortalizada por Sinatra, My Way (considerada “muito Dilma” por uma analista).  Caso a Lava Jato chegue algum dia à responsável de última instância pela débâcle de gestão na Petrobrás, poderá reviver a Piaff em Non, je ne regrette rien  (que também pode ser considerada “muito Dilma” ).

A Presidente também defendeu os muitos ministérios, com argumentação inédita: “e alguém vai querer tirar o das mulheres, o de igualdade racial, o de direitos humanos?” E pesca? – intervém o entrevistador. A Presidente fez uma longa palestra sobre a costa, rios e lagos e o imenso potencial pesqueiro do Brasil. Ou seja, a Presidente acha mesmo que qualquer questão relevante merece algum ministério, considera dispensável mostrar de que maneira algum ministério irrelevante ajuda na abordagem de dada questão. Aliás, fez longa preleção sobre meio ambiente, saúde e educação, sem referência a ministérios.

Falou do programa de investimentos em infraestrutura lançado na semana anterior, que iria ajudar a recuperação da economia brasileira. Talvez. Vai depender de se construir a confiança na estabilidade das regras do jogo. Evidentemente a Presidente continua sem reconhecer uma experiência básica de política econômica: quando o déficit público é alto e a confiança é baixa, um aumento nos gastos públicos reduz o ritmo da atividade econômica. Acabamos de ver esse filme.

Jô provocou com a comparação caricatural entre Mantega e Levy (quando Mantega era Ministro, ela mandava nele, e agora que Levy é Ministro,   ele manda nela), mas ela desviou. Perguntou como ela recebeu a recomendação de The Economist para demitir Mantega, e de novo levanta a bola para a Presidente: meio colonialista, não é? Ela desviou de novo: Ah não! explicou que lê The Economist, encontra ali muita informação, mas acha distorcida não só em relação ao Brasil mas também à Europa. A leitora voraz não indagou de Jô se os americanos não achariam The Economist colonialista, já que a revista critica governos vários, inclusive os EUA, toda semana.

Ao final, a Presidente discursou poeticamente e com grande entusiasmo sobre a maravilha que é o Brasil, seus recursos, seu potencial, e o seu povo, mistura de etnias. Só tem uma ressalva: quer que o povo brasileiro tenha mais autoestima. Pois Dilma Rousseff, olhando outros países concluiu: “nós somos mais críticos conosco do que merecemos”. Será?  De fato, não se pode esperar que Dilma Rousseff acredite que seu governo merece críticas.

Creio que antes mesmo de terminada a entrevista já corriam os ataques pela Internet. Não às afirmações falsas, absurdas, completamente fora da realidade que Dona Dilma acabara de fazer. Não apareceu de imediato uma desconstrução das suas fantasias. Não se tratou de mostrar que suas promessas são, de novo, impossíveis de cumprir, os analistas estão mostrando isso todo dia nos jornais e revistas. O ataque que se espalhou imediatamente e mais rapidamente foi ao entrevistador. Quando perguntei se isso era justo, uma combatente anti-Jô respondeu: criticamos a Dilma o mês inteiro, agora queremos criticar o Jô.

Levei um susto quando vi um atestado de óbito do Jô sábado, no Facebook. Mas era só parte da campanha. Isso é bem mais suave que o resto que se espalhou: traidor, jornalista chapa branca, vendido que recebeu dinheiro público para peças de teatro dirigidas por ele (como Troilo e Cressida). Ah! e acusação-mor: isso não é jornalismo. No máximo jornalismo açucarado.

O cartaz mais grosseiro deve ter começado a circular somente depois que a entrevista terminou. Mostra Dilma e Jô como dois gordíssimos pornográficos pelados na cama, com aquele balão das histórias em quadrinhos indicando as falas. Ela: “Foi o melhor programa que já fiz”. Ele: “Eu não queria quebrar o clima mas, e aquela verbinha…”  As figuras eram dessas que a gente não deve deixar as crianças ver. Confesso que fiquei chocada, usei aquela opção do Facebook “Não quero ver isso.”

Pudera! Jô, no final do seu programa, agradeceu à Presidente a entrevista, “p’ra mim um momento histórico nos meus 54 anos de profissão”, “agradeço demais o seu tempo” e, finalmente, ipsis litteris: “espero que tenha sido bom p’ra você também, porque afinal hoje é dia dos namorados e temos que sair daqui satisfeitos”. Inacreditável que o homem de teatro ali não percebesse a piada pronta.  Será que, no fundo, não estava tentando voltar à comédia?

Não sei até que ponto a virulência dos ataques ao entrevistador surpreendeu. Em todo caso, parecia que havia se transmitido à oposição a doença do PT. É o PT o partido que mais comumente ataca a imprensa e jornalistas ao ver matéria que não é do seu agrado. Por que tanta raiva do Jô? Em parte, “atirar no mensageiro” era a maneira cômoda de unir oposições. Porque, dependendo do tópico tratado pela Presidente, uns oposicionistas estariam em desacordo com outros.  A crítica teria que incluir dados sobre a recuperação da economia mundial, em particular nos Estados Unidos. Por exemplo, a produção industrial no mundo subiu ao longo de 2014, enquanto a do Brasil caiu.  Teria que mostrar que a desvalorização “mundial” do dólar não foi a mesma no mundo inteiro, foi maior no Brasil, porque o governo anterior da Presidente havia segurado artificialmente, porque o endividamento público aumentou, porque a intervenção anterior do BC  e uma política de comércio exterior errada contribuíram para a piora das contas externas e do risco Brasil. O déficit no balanço de pagamentos também gera posições diversas entre oposicionistas: há os que reagem pedindo mais proteção ainda, há os que pedem abertura e mais negociações comerciais.  E ainda seria preciso discutir as políticas setoriais que a Presidente abordou (petróleo, meio ambiente, saúde, educação), onde tampouco há posição oposicionista coordenada.

Bem ou mal, a Presidente fez a defesa do ajuste. Uma defesa perigosa, porque falou em ajuste momentâneo (não falou de responsabilidade fiscal como necessidade permanente, e nem achou desmesurada a prática anterior de lançar dinheiro do Tesouro a todos os problemas ou de se endividar legal e ilegalmente ). Segundo ela, o Brasil “não está doente estruturalmente, apenas momentaneamente”, estará melhor até o fim do ano. E quando o fim do ano chegar? Hoje o mais otimista dos analistas econômicos duvida de recuperação do crescimento antes de 2016. Mas mesmo a Presidente advertiu na entrevista que não pode garantir melhora até o fim do ano. Em todo caso, essa questão do ajuste igualmente divide a oposição, pois uma parte dela está atacando agora o ajuste fiscal (que defendeu em outubro de 2014) com o argumento de que não quer ter o ônus político de consertar algo que avisou que estava quebrado antes da eleição. Então uma parte da oposição vota no Congresso a favor das medidas de contenção de gastos e aumento de impostos, enquanto outra parte vota contra o governo tout court. De novo, é mais cômodo atacar Jô Soares por haver entrevistado a Presidente.

Quem sabe bateu um desânimo, um cansaço, certa sensação de impotência das oposições, incapazes, em seus diversos agrupamentos, de enfrentar com eficácia a última peça de marketing da Presidente, ainda que seu índice de aprovação esteja abaixo de 10%. Como peça de marketing a entrevista tem a possibilidade de influenciar um público que se disponha a dar um crédito de confiança à presidente, dispor-se a aguentar o ajuste fiscal por uns meses, pois a Presidente afirmou que é importante fazer logo o ajuste, para sair mais rapidamente da crise. Prometeu “fazer o possível e o impossível para manter a inflação estável dentro da meta”. Funcionaria, portanto, um mecanismo de defesa natural, de ignorar o conteúdo das respostas da Presidente, passar por cima dessas respostas, para chegar ao entrevistador. Ou o jornalista.  O mecanismo é bastante conhecido por uma expressão corriqueira, “atire no mensageiro”.

Freud tratou também dos mecanismos de defesa contra notícias que nos são desagradáveis: “Entre a repressão e o que chamamos defesa normal ante o que é penoso e insuportável, através do reconhecimento, reflexão, julgamento e ação apropriada, há toda uma série de condutas do Eu, de caráter mais ou menos claramente patológico. Permita-me lembrar um caso limite desse tipo de defesa. O senhor conhece o famoso lamento dos mouros espanhóis, Ay de mi Alhama, que conta como rei Boadbill recebe a notícia da queda de sua cidade, Alhama. Mas, não querendo reconhecer a verdade disso, resolve tratar a notícia como “non arrivée“. A estrofe diz:

Cartas le fueron venidas

de que Alhama era ganada.

Las cartas echó en el fuego

y al mensajero matara.

Nota-se facilmente que participa dessa conduta do rei a necessidade de contestar sua sensação de impotência. Ao queimar as cartas e ordenar que matem o mensageiro, ele busca mostrar que ainda tem o poder.” (Freud, Carta a Romain Rolland, 1936 in: Sigmund Freud, Obras Completas vol. 18. Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras, S.Paulo, 2010, pp. 446-447.)[1]

Incapazes de refutar de imediato a Presidente, oposicionistas ficaram doentes de desgosto, não quiseram saber o que disse a Presidente, preferiram atirar impropérios ao mensageiro.
[1] Agradeço ao psicanalista Waldo Hoffmann ter desencavado esse texto de Freud.

13 Comments

  1. Helga:
    E se o mensageiro não só esconde as noticias negativas como elogia a Rainha e se antecipa na preparação das suas respostas? Fiquei com o sentimento que foi isso que aconteceu na entrevista de Dilma pra Jo. Nao concordo com as agressões a um grande jornalista e entrevistador mas me pareceu uma entrevista encomendada e ensaiada. Sistematicamente, Jo colocava a bola na marca do penalti para Dilma chutar. Diga-se de passagem, chutou muito bem. Foi a melhor entrevista da Presidente mas desconfio que foi tambem a pior entrevista ja feita por Jo Soares, a mais sisuda de um humorista sempre com tiradas brilhamtes. Ele parecia constrangido, olhando as fichas antes das perguntas. Todas as vezes em que apresentava uma situação negativa, o Gordo perguntava se a presidente se afligia ou indignava, como se ela não tivesse nenhuma responsabilidade ou capacidade de enfrentar os problemas. Jô repetiu mais de uma vez que ele mesmo se incomodava com as críticas feitas à presidente, reclamando a desinformação dos brasileiros. Na pergunta formulada sobre o pré-sal, o quase sempre irreverente Jô Soares começou dizendo que se sentia incomodado porque os brasileiros pensam que o petróleo do pré-sal não está sendo explorado. Ainda sobre a Petrobrás, a pergunta de Jo Soares foi quase uma afirmação: “quando você mudou o comando da Petrobrás em 2012 era porque já pressentia que tinha algo de pobre na estatal”? Assim, em uma única pergunta o humorista entrevistador isentou completamente a presidente dos escândalos de corrupção e ainda insinuou que ela tinha tentado se antecipar e conter os desmandos na empresa. Eu sei que Jo Soares é um jornalista sério (humorista) que nao se venderia para armar um entrevista. Mas será que não o fez por simpatia? E desta forma, participou da montagem do espetáculo. Claro que tenho dúvidas. Mas foi a minha sensação: uma entrevistada solta e leve diante de um entrevistador constrangido.

  2. Sergio, acho que os seus comentários têm fundamento. Mesmo assim considero que o ataque ao Jô foi totalmente desproporcional. (Continua sendo, aliás, porque hoje haviam pichado a calçada na frente do prédio dele.) Uma oposição assim desmoraliza quem a faz. Além de que todas as entrevistas do Jô têm um componente humorístico, dificil de incluir em entrevista à Presidente da República. Mas que ele até tentou. Certas perguntas/afirmações dele podiam ser tomadas como piada. Mas o clima político inteiro está muito ruim, desanimador – pelo menos é o que eu sinto. É como se todos, de um lado e de outro, estivessem abdicando da razão. Acho que foi por isso é que acabei introduzindo Freud nessa história.

  3. Quem assistiu a entrevista, dará plena razão ao ilustre comentarista,(nesse caso), Sérgio C. Buarque. Toda impressão que fica é de uma entrevista encomendada pois, por mais inteligente que seja(?) a presidente, não haveria tempo para raciocínio tão rápido e respostas tão escapatórias. No mais, desculpe ilustre escritor Sergio C.Buarque; se temos pessoas com validade vencida no meio artístico, o entrevistador é uma delas.

    • Mesmo que isso estivesse claro, o que tem que ser enfrentado são as respostas da Presidente, e não as perguntas do entrevistador. E certamente não com toda a violência que me parece indicar doença do corpo político do Brasil. Verdade que quem começou com a violência, mandando “partir p’ra cima”, foi o ex-presidente Lula…

  4. o nome correto e ( impedimento) não temos que usar dialeto tribal

    • Ignorar a estrutura gramatical, ignorar a diferença entre advérbio e adjetivo, a necessidade de concordância entre sujeito e verbo, etc. são problemas mais espalhados entre os que escrevem qualquer coisa neste país do que o uso de palavras estrangeiras. Ao contrário do que pensa Aldo Rebelo, igualmente contra tecnologia e contra palavras estrangeiras. Estou me referindo àquilo que os partidários usam como designação, espalhada na internet e na imprensa escrita, isto é, impeachment. Eu sou tanto contra impeachment quanto contra impedimento, ao menos considerando todas as provas disponíveis legalmente até hoje.

  5. Helga,

    Ótimo texto. Permita-me fazer umas considerações numa tentativa de colocar as coisas em perspectiva. Justo estas que me causaram aborrecimento noturno – os mais perigosos. Até uma aspirina tomei com medo de ter um troço na boca da madrugada tamanha foi minha indignação com o convescote de comadres cujo tom farsesco reduziu os protagonistas a clones de si próprios – ele em seu pior momento e ela frívola e previsível -, em afronta notória a quem ficou acordado até mais tarde e esperava ver alguma coisa à altura de programas similares de nível. Nivel? Que nivel?

    Desculpe, Helga, mas não sei comentar sem contextualizar. Desde os anos 60, acompanho o Jô. Adorava Gordon, o mordomo da Família Trapo, e, nas fases subsequentes, me deliciei com dezenas de tipos que ele encarnou, sempre com graça e picardia, personagens caros à alma pândega brasileira: Norminha, a comunicóloga da PUC. O corno manso. Gardelón, o argentino sempre a perigo. Zé da Galera, o torcedor da Seleção. O capitão Gay. Sebá, o último exilado. O dentista tarado. O professor Miranda, o das perguntas constrangedoras. O lojista preguiçoso e o anãozinho tirano. Poderia enumerar outros tantos, mas chega, não? Longe de ser um Chico Anysio, tem posição honrada entre os humoristas.

    Isso dito, por trás de tudo havia o menino gordinho que nascera em berço de ouro, morou ao lado do Copacabana Palace, fazia estripulias na piscina – para pânico dos turistas -, e que, mais tarde, empobreceu num átimo, quando o pai, próspero corretor de café, foi à bancarrota, Não obstante o infortúnio, guardou o que de melhor a educação no Liceu Jaccard, em Lausanne, Suíça, lhe poderia ter propiciado: um bom francês e inglês – ponto de partida mais do que diferenciado para a época. Leitor voraz, desistiu da odontologia e da diplomacia para subir nos palcos para sempre. Ganhou o Brasil um artista único, em detrimento de ser ele mais um dentre milhares de dentistas e centenas de embaixadores.

    Nos anos 70, o vi se apresentar no Teatro da Praia, no Rio. Tempos depois, no Procópio Ferreira, de São Paulo, onde improvisava quase metade do “Viva o gordo, abaixo o regime” e o teatro vinha abaixo de tanto rir. Mais adiante, começamos a cruzar caminhos aos sábados, na Tabacaria Ranieri, na alameda Lorena, onde fumávamos um charuto em torno de uma prosa neutra. Beto Ranieri por mais de uma vez fechou as portas para uma animada tarde de autógrafos para os clientes da casa, quando ele levava pilhas de seus livrinhos. Entretenimento fácil e indolor, volta e meia ele chega com um livro bem promovido em que junta ficção desbotada com boa pesquisa histórica. Se isso lhe faz bem….

    A essa altura, depois de uma experiência no SBT onde provou que poderia tocar um programa nos moldes do que vivenciara com Silveira Martins, laçou Max Nunes – amigo da vida – e ei-los de novo juntos arranchados na Globo. Se nem sempre é fácil encontrar 15 entrevistados interessantes por semana ao fio de anos, a rapidez de raciocínio dele salvava horrores. Em igual medida, infelizmente, outras tantas boas conversas foram pelo ralo, diante da obsessão narcisista que o compele a reluzir mais do que o convidado. Os anos a mais magnificaram os defeitos de base e empalideceram as virtudes. Mas assim é a vida de todos nós e o Jô-menino ofusca o homem de enorme repertório..

    Pois bem, sempre adorei “talk shows”. Testemunho dos tempos de Johnny Carson, depois Jay Leno, não há dúvida de que nenhum deles foi comparável a David Letterman, recentemente aposentado. Nem mesmo o longevo Larry King que dava uma feição radiofônica a seu programa foi tão longe. Jô, a seu turno, tanto quanto possível, trilhou caminho próprio. Ano passado, depois de alguns meses doente e da perda do filho especial que sempre mantivera longe do olho público, tive a sensação de que ele se reinventava, apesar dos cortes do programa. Mas duas coisas se revelam aberrantes: ele virou um entrevistador fraco e os convidados continuaram uma aberração (Alice Braga foi a exceção que lhe salvou o ano até agora).

    Foi nesse contexto que apareceu Dilma – antes de tudo uma pessoa desisnteressante. Numa praxe esquisita, de feitio hondurenho ou norte-coreano, lá se foi ele para Brasília. Até Obama se deslocava para o teatro onde David Letterman gravava. Apesar de termos uma presidente sitiada, é feio nosso entrevistador-jornalista-“entertainer” ir até a capital. Ali, ele é a opinião pública e, de cara, já a deixou em maus lençóis e subserviente. Por que ir até ela? Dilma, aliás, vem muito a São Paulo e não tem os problemas de Stephen Hawkings. Mas sejamos indulgentes. Admitamos que uma mudança de ares compusesse um cenário diferente. O exame da parte substantiva foi, contudo, um desastre.

    Contrariamente ao que faria Roberto D´Ávila, Mario Sérgio Conti, William Waak, Fernando Mitre ou qualquer jornalista fino porém sério, Zé Eugênio Soares resolveu fazer “escada”. O mesmo recurso de que se valem humoristas consagrados para realçar o perfil de maçantes comediantes “stand up”. Aliás, em nome da solidariedade de classe, ele até que faz muito isso com uma meninada anódina que recebe no programa. Pois, aos primeiros minutos de entrevista presidencial, o desastre eclodiu. Sem achar o tom, nosso emissário se apequenou, se perdeu, se explicou, claudicou, suou, arfou e soltou perguntas átonas, previsíveis e num registro totalmente reverente, quase servil.

    Pelo tanto que é culto e rodado, Jô fracassou feiamente e sua biografia poderia ficar sem esse episódio que o igualou ao nível mais baixo de seus agora pares que fazem colunismo social televisivo, cobertura de inauguração de revendas de carro ou festas de aniversário de debutantes. Faça como Letterman, Jô, aproveite a deixa, prepare um discípulo. Divida a mesa com ele durante 2016, lime o ego e desmame de vez da TV de 2017 em diante. Fosse você venal, não haveria o que perdoar. Mas tendo feito o que você já fez pelo Brasil, francamente, pegue o boné, amigo velho. É mais justo você lançar um daqueles seus livros do que apunhalar os que ficavam acordados até tarde para vê-lo.

    Quer uma ideia? Valha-se de seus enormes recursos materiais e imateriais e escreva um livro sobre a história da televisão e do teatro brasileiro nos últimos 60 anos. Conte dramas, glórias e misérias de bastidores e estruture-as à altura de quem sabe muito mais do que pensa, e que pensa que é falando que foge da morte, e do que já acha que esqueceu. Daí Dilma – o símbolo da fuga para frente, o abraço de náufragos. Como será inevitável, fale de você e as motos. você e os cachorros; você e sua amada Nova York e reserve verbetes para perfis de duzentos grandes nomes do show-business brasileiro e mundial. Só um favor derradeiro: não levante dinheiro do governo para fazer isso. Pegará mal para você e o livro vai encalhar. Faça-o na raça, Zé Eugênio, como nos tempos românticos, e tuas calçadas amanhecerão atapetadas de flores.

    Como diria o interlocutor de Gardelón: te digo isso porque sou teu amigo. Muy amigo. É isso aí, Helga e obrigado.

    Fernando Dourado

  6. Fernando Dourado, quem não conheço pessoalmente, escreveu esse texto belíssimo, não tenho o que dizer, quase me vêm as lágrimas com a tristeza e melancolia da trajetória descrita. Esse texto tem que ser publicado com destaque, não como um simples comentário. Quase digo que valeu a pena ter escrito meu artiguinho só por ter provocado um comentário assim. Só não digo isso p’ra valer porque sou mesmo militante, em cada minuto (como me rotulou um grande amigo querido que já morreu), e, então, só escrevi insistindo tanto que quem deve ser criticado é a Dilma e não o Jô porque, para tirar o petismo em 2018 quem precisa cair é a Dilma, e não o Jô.

  7. O melhor texto político e cultural que li nos últimos meses, incluindo os comentários.
    É esse tipo de discussão que deveria estar em voga nas universidades, na hora do almoço das empresas, na saída da missa aos domingos, no intervalo do jogo da seleção brasileira de futebol.
    Foram apenas elogios, quase um Jô Soares “way of comment”, pois não há mais o que acrescentar !

    • Como é elogio, só resta dizer obrigada. Mas concordo que o artigo e os comentários precisam ser lidos juntos, pois completam melhor o quadro.

  8. Helga,

    Concordo com você que portador não merece pancada e que não devemos desviar o foco da Dilma e crucificar o Jô. Refletindo sobre o que eu próprio escrevi, gostaria de te dizer que não é de minha natureza ser cruel – embora às vezes seja um pouco mordaz. Especialmente para com um cara que, como Jô, pertence à história da televisão e do teatro brasileiro.

    Na verdade, todos nós estamos sujeitos a dias ruins ( e como!) e ele foi bastante infeliz. Tenho certeza de que em outros tempos, ele teria calibrado o refinamento de homem lhano e gentil com as credenciais do jornalista perspicaz que se considera. O fato é que todos perdemos.

    Quanto a meu tom um pouco desabusado, ele só se deve a um fato: durante décadas eu achei que Jô captava com muito pouco o momento do país. Lembra do professor Sardinha em que ele imitava Delfim? Era ótimo. Hoje ele se vale de imensa parafernália para fazer colunismo social. Para borrifar água de rosas em latrina.

    Vê-lo datado é também me ver com prazo de vencimento. No fundo, é isso. Queremos que nossos ídolos sejam à prova do tempo, mas eles são só humanos.

    Abraço,

    Fernando

    • Nem sei se seu comentário sobre a trajetória do Jô foi cruel. Eu só achei tristíssimo. É que eu não sabia nada da história dele. Nunca fui de ver TV. Conhecia Letterman e Larry King, das suas comparações, porque morei 14 anos em Nova York então vez ou outra via o show deles. Pois é, depois olhar a cara tão envelhecida do Jo e pensar na “pálida sombra do que já foi”. Vai ver achei tão triste pelo mesmo motivo, o do “prazo de validade”…

  9. Participo da decepção de todos com Jô Soares, e com mais uma razão pessoal: Jô tem raízes paraibanas: é sobrinho-neto de Órris Soares, o intelectual que “descobriu”, biografou e promoveu Augusto dos Anjos, o maior poeta da minha terra, e um dos maiores do Brasil.

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