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Penso, logo duvido.

Eleições Presidenciais: Mudança ou Continuidade? – José Arlindo Soares

Jos? Arlindo Soares*

Fila de eleitores na ?ndia.

Fila de eleitores na ?ndia.

Uma an?lise do comportamento do eleitorado nas elei??es presidenciais no Brasil ap?s a redemocratiza??o sugere uma oscila??o no perfil da maioria do eleitorado entre a perspectiva de mudan?a ou a de continuidade, variando apenas a intensidade dessas duas categorias dominantes a cada pleito. Em um eleitorado onde a identifica??o partid?ria fica em torno de 1/3 do universo total de votantes, tem-se uma margem bem grande para que o discurso seja facilmente alimentado por temas que mexem como o humor da maioria a cada conjuntura. A princ?pio, pode-se argumentar que essa dicotomia ? comum em qualquer sistema democr?tico, ou seja, sempre a maioria est? votando ou para manter o governo ou para substitu?-lo por um grupo de oposi??o. Pode-se concluir que essa ? uma lei geral da democracia. O que procuro explicar nesse artigo ? como vem se configurando essas duas tend?ncias gerais a cada pleito presidencial no Brasil.

Trata-se de perceber as caracter?sticas distintas que marcaram cada disputa para o cargo maior da rep?blica e em que medida se coloca os condicionamentos e motiva??es mais comuns no comportamento do nosso eleitor.

Considerando o atual experimento democr?tico no Brasil, com as seis elei??es presidenciais realizadas entre 1989/2010, verifica-se a configura??o pendular mencionada anteriormente. As primeiras elei??es diretas foram marcadas por um forte sentimento de mudan?a, em raz?o da profunda decep??o da maioria da popula??o com os rumos tomados pelos partidos da Nova Republica que conduziram a transi??o democr?tica. O b?nus da Assembleia Constituinte n?o foi suficiente para justificar os m?todos tradicionais que os partidos da Nova Rep?blica continuaram empregando, sem falar na falta de pulso na condu??o da pol?tica econ?mica. Sem nenhuma iniciativa inovadora, partidos da Nova Rep?blica ficaram paralisados diante da expectativa geral da popula??o que esperava a realiza??o de expressivas mudan?as em curto prazo. O sentimento de decep??o, principalmente das classes populares, possibilitou a emerg?ncia de um pol?tico desconhecido, que, mesmo de tradi??o olig?rquica, vestia uma roupa mudancista e apresentava um discurso contundente, embora sem conte?do, galvanizando a aten??o dos mais pobres e passando a ser respaldado por importantes segmentos das classes propriet?rias da cidade e do campo.

No outro polo, tamb?m com um discurso mudancista, despontava o Candidato do PT que contava com o apoio entusiasmado da nova classe m?dia universit?ria e segmentos de uma nova classe oper?ria urbana. O que tinha de comum nesses dois candidatos, al?m do discurso oposicionista, era a aus?ncia de apoio no aparato institucional vigente, ou seja, tempo de televis?o e alian?as com os grandes partidos ou com governadores e prefeitos. Somados os tempos de radio e televis?o na propaganda eleitoral gratuita de Collor e Lula, n?o chegavam a ser um ter?o do que tinham os candidatos dos partidos tradicionais como PMDB, PSDB E PFL.

A decep??o com a experi?ncia aventureira de Collor arrefeceu a perspectiva mudancista e apontou para uma polariza??o mais moderada, embora o discurso ideologizado continuasse. O pleito seguinte foi marcado pelo apego ? continuidade, em raz?o dos ganhos do Plano Real. O eleitorado apontou claramente que buscava preservar conquistas, distante do aventureirismo. O importante a reter desse cen?rio ? que se define a? um padr?o de comportamento eleitoral no Brasil, uma sociedade rec?m-urbanizada que vai ficar sempre dividida entra a impaci?ncia das necessidades e a seguran?a da estabilidade, ou, em outro enfoque, entre emo??o e raz?o.

Nessa segunda elei??o direta da nova democracia brasileira, a preocupa??o do eleitorado foi manter as conquistas do per?odo Itamar, principalmente a estabilidade do Plano Cruzado. Ao contr?rio da primeira elei??o, agora o b?nus eleitoral maior ? o apoio do presidente em exerc?cio e das demais estruturas de poder. O PT embarcou na cr?tica f?cil de apostar em cen?rios catastr?ficos que n?o batiam com a realidade e da? nem foi ao segundo turno. Na mesma dire??o, Fernando Henrique Cardoso se reelegeu f?cil, baseado ainda nos ganhos da estabilidade (53% no primeiro turno) e no discurso da garantia dos fundamentos da pol?tica macroecon?mica.

Depois de oito anos no poder, o tucanato perdeu a batalha do discurso em fun??o do contraponto estabelecido pelo sindicalismo estatal dominado pelo PT, fazendo renascer no eleitorado o ide?rio mudancista. As medidas relacionadas com a reforma do Estado foram tomadas como contr?rias aos interesses da maioria, n?o importando se as cr?ticas resistiam a uma an?lise mais consistente. Isso tamb?m foi poss?vel porque no segundo governo de FHC a economia come?ava a d? sinais de arrefecimento.

Ganhou corpo, ent?o, o ide?rio mudancista encabe?ado por um imigrante nordestino, ex-oper?rio com f?cil verbaliza??o distributiva que rapidamente conquistou o imagin?rio de segmentos das classes m?dias que foram ?s ruas escoimar velhos preconceitos que ainda existiam, mesmo entre as classes populares. O resultado foi a vit?ria da proposta de mudan?a, carregada de emo??o, com Lula sendo eleito com um tempo m?nimo de propaganda no R?dio/TV e sem apoio das estruturas tradicionais. Tanto que o PT elege apenas dois governadores em estados de baixa densidade eleitoral (Acre e Mato Grosso do Sul). No pleito seguinte, a reelei??o de Lula seguiu a l?gica da continuidade e s? foi para o segundo turno em raz?o dos esc?ndalos de corrup??o muito perto do governo. Eleito, Lula trabalhou na dire??o do mercado interno, ampliou a escala dos programas compensat?rios de distribui??o de renda e manteve os compromissos com o chamado mercado, al?m se ter sido amplamente favorecido por uma conjuntura internacional favor?vel.

A popula??o tende a optar por preservar conquistas, a n?o ser que sinta um descontrole muito grande por parte do governante que pleiteia a reelei??o. Por isso, o segundo mandato ? um ativo bem palat?vel para o eleitorado.

Superando a fadiga de material de oitos anos, Dilma ? eleita com o discurso de defesa da continuidade das conquistas sociais da era Lula, cabendo registrar a especificidade do carisma do ent?o presidente que resistiu a todos os embara?os pol?ticos e ?ticos nas duas gest?es. Com um posicionamento ideol?gico respeit?vel, mas tida como pouca apta para o jogo pol?tico, pode-se afirmar que Dilma foi engolida pela promiscuidade do presidencialismo de coaliz?o e pelos problemas da macroeconomia, muito embora tenha a seu favor um bom desempenho do n?vel de emprego e alguns programas de expressiva densidade e de alta visibilidade.

Agora, nessa s?tima elei??o presidencial, o processo eleitoral teria tudo para virar rotina, com uma parte do eleitorado sendo mais exigente em rela??o ?s tradicionais op??es que o quadro pol?tico apresenta. No entanto, at? a trag?dia que tirou a vida de Eduardo Campos, a terceira via era uma alternativa pouco vi?vel. At? ent?o o cen?rio n?o apontava para onde ia se dirigir o sentimento da maioria. Ou seja, n?o se sabia se o sentimento dominante se inclinava, de forma mais incisiva, para a mudan?a ou para a continuidade. Na verdade nem o ?discurso da mudan?a havia empolgado nem o apelo ? continuidade se mostrava convincente.? (Marisa Gibson DP-05/08).

Nessa elei??o, o cr?dito que o eleitor costuma dar ao governante para um segundo mandato vem sendo embaralhado pela pr?pria propaganda situacionista, que pede que o eleitor julgue doze anos de poder, o que pode ter um efeito bumerangue em um pa?s mal humorado pelas condi??es adversas de boa parte das pol?ticas p?blicas. Isso n?o significa que a continuidade pode ser de toda descartada. N?o se pode, em hip?tese alguma, descartar o f?lego do situacionismo que ainda mant?m trunfos de bom quilate.

Por outro lado, mesmo mantendo a dianteira nas pesquisas, a Presidente n?o consegue massificar as conquista do seu governo. Do lado da oposi??o cl?ssica, representado pelo PSDB, as propostas parecem t?midas. O estilo n?o ? de mudan?as, mas de corre??o de rumos e parece tamb?m n?o convencer. ? bem verdade que, somente agora o jogo come?a a galvanizar a aten??o dos expectadores.

Desta vez, a trag?dia parece que venceu a indiferen?a. Em lugar da supera??o program?tica pela raz?o, uma boa parte do eleitorado volta a prestar a aten??o no processo eleitoral. Por isso, ensaia se apegar ao carisma de quem passe a ideia de pureza de princ?pios e que parece navegar na contram?o da pol?tica tradicional. Um processo que ainda tem larga margem de indefini??o, mas que j? embaralhou as pe?as do tabuleiro e que exige um reposicionamento de todos os contendores, na tentativa de descobrir para onde o p?ndulo do sentimento da maioria vai se inclinar no momento decisivo do voto.

*Soci?logo – Pesquisador do Centro Josu? de Castro

2 Comments

  1. democracia onde ? todos farinha do mesmo saco ! pesquisa pura manipulação de voto.

  2. Marina Silva – Analistas mais afoitos já dão como certa a eleição dela.
    Particularmente acho que esse cenário tem grande probabilidade de acontecer e cabe ser analisado.
    O acidente que vitimou o Eduardo Campos junto com a eleição de Marina Silva, oferece ao Brasil uma nova oportunidade histórica à semelhança da que foi dada com o impeachment de Collor. Trata-se da possibilidade real da formação de um governo de coalizão, com a participação das forças políticas mais responsáveis do País.
    Marina e sua Rede, o PSB e o PPS, formam um tripé que vem mostrando organização, modernidade, e coesão, amplamente demonstrados nesse momento difícil. Todo processo vivido pela coligação, tanto na postura em relação à morte de seu líder maior, como na sua substituição, tem sido coerente e competente.
    A família Campos deu o tom através de declarações sensatas do irmão e da esposa de Eduardo, que poderiam aproveitar o clima emocional e oportunisticamente, postular o lugar dele, ou mesmo de vice.
    Outro ponto forte deles é a proposição de uma “Nova Política” para o Brasil, conteúdo das falas de Eduardo Campos e Marina Silva, e que é o anseio maior da população brasileira, amplamente demonstrado nas manifestações de junho de 2013.
    O momento e as circunstâncias são propícios a um governo de coalizão e esse talvez venha a ser o principal legado construído e deixado por Eduardo Campos com a formação da terceira via. Mas Marina terá que entender e tratar cuidadosamente disso ao longo de toda a campanha eleitoral, pois pequenos deslizes podem azedar o clima e por tudo a perder.
    Não vai ser tarefa fácil administrar tudo isso, o PT mesmo vai tratorá-la tão logo se confirme seu crescimento, mas o PSDB talvez não o faça, pelo menos foi isso que FHC sugeriu. Vamos acompanhar os acontecimentos.

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