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Penso, logo duvido.

Fetiche da Igualdade Social

Teresa Sales

Oper?rio (1933) Tarsila do Amaral

Oper?rio (1933) Tarsila do Amaral

A cr?tica rec?m publicada de Fernando da Mota Lima nessa revista sobre o livro Ra?zes do Brasil de S?rgio Buarque de Holanda, bem como o debate que se lhe seguiu, com destaque para as considera??es de Homero Fonseca, motivaram-me a escrever este ensaio, que ? na verdade a revis?o de um artigo publicado na revista da Anpocs (n?mero 25, junho de 1994). O fetiche da igualdade social, para a defini??o do qual me vali dos conceitos “democracia racial” de Gilberto Freyre e “homem cordial” de Sergio Buarque de Holanda, s?o os fatores mediadores de nossas rela??es de classe, que t?m ajudado a dar uma apar?ncia de encurtamento das dist?ncias sociais, contribuindo dessa forma para que situa??es de conflito frequentemente n?o resultem em conflito de fato, mas em concilia??o.

Para chegar ao conceito de fetiche da igualdade, comecei por tentar entender as ra?zes da desigualdade social, n?o enquanto desigualdade de renda, mas na cultura pol?tica brasileira. A cultura pol?tica entendida como uma esp?cie de cimento das rela??es de mando e subservi?ncia. Se eu tivesse de definir em poucas e curtas palavras o significado das ra?zes da desigualdade social na cultura pol?tica brasileira, diria que no nosso pa?s ou bem se manda ou bem se pede. Est? no simples conte?do desses dois verbos o significado mais profundo de nossa cultura pol?tica do mando e da subservi?ncia.

O tema do mando na ci?ncia pol?tica est? mais comumente associado ao seu complemento natural, expresso na obedi?ncia. Assim, define Weber o poder como “a probabilidade de impor a pr?pria vontade dentro de uma rela??o social, mesmo contra resist?ncias, seja qual for o fundamento dessa probabilidade”. Mais preciso, por?m, do que o conceito de poder para esse autor, ? o de domina??o, por ele definida como “a probabilidade de encontrar obedi?ncia a uma ordem de determinado conte?do, entre determinadas pessoas indic?veis” (Weber, 1991:33). Quando me refiro a subservi?ncia e n?o obedi?ncia, estou na verdade redefinindo o outro p?lo da alteridade em termos do pedir, para al?m do obedecer.

O pedir, para al?m do obedecer, implica num provedor forte, que no Brasil foi o dom?nio territorial. Seja ele expresso como sesmaria, como latif?ndio escravocrata ou como grande propriedade, o aspecto que aqui quero resgatar ? o de dom?nio rural ou dom?nio territorial, ou seja, o que implica a contrapartida do favor, da d?diva, do mando e subservi?ncia.

Nenhuma descri??o poder? dar uma imagem t?o aproximada da for?a do mando decorrente do dom?nio territorial, quanto a figura do senhor de engenho do alto de seu alpendre ou de sua montaria, quando dirigindo a palavra aos outros. Na minha primeira pesquisa de campo, a que originou a disserta??o de mestrado (Suarez, 1977), fiz uma pesquisa amostral e, para meu infort?nio, caiu na amostra estratificada da ?rea rural uma usina de a??car das mais antigas na localidade, a Usina Estreliana. Contava-se de seu propriet?rio, que havia atirado ? queima roupa em seis camponeses, antes mesmo de ouvir qual a reivindica??o que os trazia ? sua presen?a. Isso aconteceu no imediato p?s-64, quando aqueles camponeses ainda se julgavam na “?poca dos direitos” que vigorou a partir do ?Acordo do Campo?, assinado em 1963 pelo governador Miguel Arraes.

J? est?vamos em 1973, mas o temor que esse Homem ainda inspirava ultrapassava as fronteiras de seus dom?nios. Ao ponto que s? algum tempo depois percebi que era esse o motivo pelo qual at? o motorista da Universidade Federal de Pernambuco, que nos acompanhou naquela fase da pesquisa, o qual morava, portanto, no Recife e ia a Ribeir?o (era esse o munic?pio) apenas a trabalho, postergou o quanto p?de a ida ? Estreliana, inclusive tentando arranjar um bom motivo para que n?o f?ssemos at? l? entrevistar o Homem. O usineiro, Jos? Lopes, nos recebeu do alto do seu alpendre, duas pesquisadoras desamparadas ao p? da escadaria da casa-grande. O motorista, esse do carro n?o saiu. E se avultou ali na nossa presen?a aquela imagem do mando absoluto.

Na entrevista de Ivan Rodrigues rec?m publicada em nossa revista, ele conta que esse mesmo Jos? Lopes dava ordens de comando aos militares que prenderam os que estavam em Pal?cio no dia primeiro de abril de 1964, ele inclusive.

Mas ser? que persistem esses tra?os outrora t?o fortes de mando e subservi?ncia em nossa cultura pol?tica? A urbaniza??o, a democracia e a ascens?o econ?mica das classes baixas n?o mudaram essa cultura?

Para melhor responder a essas quest?es, remeto-me a dois autores, dos mais importantes para o pensamento brasileiro sobre a identidade nacional, ou, nos termos deste ensaio, sobre a cultura pol?tica brasileira. Esses dois autores s?o Gilberto Freyre, de Casa-grande & senzala, e Sergio Buarque de Holanda, de Ra?zes do Brasil. Ressalvo desde logo que n?o ser?o aqui discutidas as obras desses autores, mesmo em se tratando apenas dos livros mencionados. Elas ser?o utilizadas como referencial para pensar o fetiche da igualdade social.

O aspecto do qual me aproprio de Casagrande & senzala, que permeia a reflex?o de Gilberto Freyre em todo o livro, diz respeito ? miscigena??o.

O que a monocultura latifundi?ria e escravocrata realizou no sentido de aristocratiza??o, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre ensanduichada entre os extremos antag?nicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigena??o. [Freyre, 1973:LX]

Miscigena??o do portugu?s com a ?ndia, do portugu?s com a negra, resgatadas pelo autor no que significaram enquanto necessidade daqueles primeiros colonizadores de aqui constitu?rem fam?lia. Foi, portanto, no interior da casa-grande que essas rela??es, as mesmas que naturalmente carregavam uma marca sadomasoquista, foram como que “ado?adas” pelo entorno canavieiro. Era essa a base social de nossa democracia: a democracia racial. Por um lado essa provoca??o foi forte a ponto de instigar a realiza??o de alguns dos melhores estudos da chamada Escola Uspiana (refiro-me aqui a Fernandes, 1978; Ianni, 1972, e Cardoso, 1977), onde se destaca uma ?tica radicalmente oposta na considera??o da quest?o negra, com a tese da escravid?o como uma institui??o total.[1] Por outro lado, por?m, foi uma obra que em muito ultrapassou a simples an?lise acad?mica, tornando o livro um encontro quase irresist?vel do brasileiro leitor com sua mais ?ntima brasilidade. “? um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, n?o apenas um esfor?o de pesquisa pelos arquivos” (Freyre, 1973:LXXV). Em que o negro aparece

Na ternura, na m?mica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na m?sica, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que ? express?o sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influ?ncia negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela pr?pria amolengando na m?o o bol?o de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras hist?rias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-p? de uma coceira t?o boa. Da que nos iniciou no amor f?sico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensa??o completa de homem. Do moleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo. [Freyre, 1973:283]

Democracia racial n?o a temos. A desigualdade na distribui??o de renda ? a marca social brasileira com a qual temos nos apresentado ao mundo, depois que o brilho ef?mero dos milagres se arrefeceu com a d?cada perdida. Programas de governo como o funrural e o bolsa fam?lia minoraram a distribui??o de renda, por?m ainda levar? tempo para que os que ascenderam em renda possam ter, no m?nimo, saneamento b?sico e escola de qualidade para crian?as e jovens.

Mas isso que Gilberto Freyre chama de democracia racial, conseq??ncia de nossa especificidade de ser um povo origin?rio da miscigena??o de ra?as, ? precisamente isso um dos fatores que torna t?o nebulosas as nossas diferen?as sociais. A democracia racial, enquanto essa gostosa mistura que passa pelos sentidos, ? um importante fator mediador das nossas rela??es de classe.

Sergio Buarque de Holanda apresenta a media??o de classes sob uma outra ?ptica, embora as ra?zes de ambos, Sergio e Gilberto, estejam apontando para elementos que encobrem as desigualdades sociais por uma esp?cie de fetiche. A ?tica do autor de Ra?zes do Brasil ? a do “homem cordial”, aquele cuja caracter?stica ? o horror ?s dist?ncias, que tem suas ra?zes na esfera do ?ntimo, do familiar e do privado, cujas origens, por sua vez, est?o relacionadas antes com a especificidade de nossa casa-grande que com tra?os patrimoniais herdados da cultura portuguesa. Esse homem cordial se expressa na nossa religiosidade caseira, da intimidade com os santos a que igualmente Gilberto Freyre aludira no seu ensaio aqui considerado, assim como em aspectos de nossa linguagem, como o diminutivo acrescentado aos nomes ou o uso do primeiro nome em lugar da polidez e da dist?ncia do sobrenome. Gilberto Freyre aludiria ? influ?ncia negra para a constitui??o desse homem cordial de Sergio Buarque de Holanda, pois n?o foi o negro (ou a negra, melhor dizendo) quem ado?ou nosso vocabul?rio, quem amolengou nossas rela??es tirando-lhes a formalidade?

Esse homem cordial aponta para um s?rio dilema brasileiro. Por um lado,

a contribui??o brasileira para a civiliza??o ser? de cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes t?o gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um tra?o definido do car?ter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influ?ncia ancestral dos padr?es de conv?vio humano, informados no meio rural e patriarcal. [Holanda, 1984:106-7]

Por outro lado, esse mesmo homem cordial representa a nossa impossibilidade de atingir uma ordena??o impessoal que permita a ruptura com os padr?es privatistas e particularistas dominantes no sistema e na fam?lia patriarcal. Esse dilema n?o foi, a meu ju?zo, resolvido teoricamente pelo pr?prio autor do ensaio, que de certo modo se propunha faz?-lo nos dois cap?tulos seguintes.

A apar?ncia do encurtamento das dist?ncias sociais por meio de nossa informalidade no conv?vio tem um fundo emotivo que permeia mesmo aquelas rela??es que seriam mais caracteristicamente impessoais. O autor exemplifica esse “desconhecimento de qualquer forma de conv?vio que n?o seja ditada por uma ?tica de fundo emotivo” (Holanda, 1984:109) com o depoimento de um negociante da Filad?lfia que estranhou o fato de necessitar fazer amizade para poder conquistar fregueses para seu neg?cio. Mas qualquer um de n?s ? capaz de arrolar v?rias situa??es de nosso cotidiano em que esse tra?o de informalidade no conv?vio em contextos caracteristicamente impessoais pode ser observada. Assim,

a amizade, desde que abandona o ?mbito circunscrito pelos sentimentos privados ou ?ntimos, passa a ser, quando muito, benevol?ncia, posto que a imprecis?o vocabular admita maior extens?o do conceito. Assim como a inimizade, sendo p?blica ou pol?tica, n?o cordial, se chamar? mais precisamente hostilidade. [Holanda, 1984:107,- nota 157]

Esse encurtamento das dist?ncias sociais, expressa-o bem o tipo de considera??o encontrado comumente nas falas de pessoas pobres da nossa regi?o quando afirmam: “Tal pessoa n?o tem bondade”. O “n?o ter bondade” dessa express?o n?o tem conte?do valorativo negativo, como poderia parecer ? primeira vista ao interlocutor desavisado. N?o ter bondade nesse caso refere-se ? aus?ncia de formalismo e convencionalismo sociais, que s?o elementos definidores da cordialidade. Nesse sentido, a pessoa que n?o tem bondade ? aquela que n?o se considera melhor ou “mais boa” que as outras e, portanto, n?o cria obst?culos ? proximidade por meio de formalismos e etiquetas. A pessoa que n?o tem bondade ? a pessoa pr?xima, que foi capaz de encurtar as dist?ncias sociais, de fato existentes, pelo seu atributo de “n?o ter bondade”.

O fetiche da igualdade ? um mediador nas rela??es de classe que em muito contribui para que situa??es conflitivas freq?entemente n?o resultem em conflitos de fato; mas em concilia??o. E onde as dist?ncias sociais s?o mais pronunciadas, quase gritantes ?s vezes, ? onde vamos encontrar mais presente esse fetiche da igualdade, com as exce??es necess?rias para confirmar a regra. Tome-se, por exemplo, um meio de transporte terrestre e fa?a-se a aventura de viajar do Sul do pa?s em dire??o ao Norte, e possivelmente vai se observar que o sentido da cordialidade vai se aprofundando ? medida que a viagem progride.

 

Refer?ncias

CARDOSO, Fernando Henrique. (1977), Capitalismo e escravid?o no Brasil Meridional. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

FERNANDES, Florestan. (1978), A integra??o do negro na sociedade de classes. 38a. ed., S?o Paulo, ?tica.

FREYRE, Gilberto. (1973), Casa-grande& senzala. 16a.? ed., Rio de Janeiro, Jos? Olympio.

HOLANDA, Sergio Buarque de. (1984), Ra?zes do Brasil, 18a. ed., Rio de Janeiro, Jos? Olympio.

IANNI, Octavio. (1972), Ra?as e classes sociais no Brasil. 2a. ed., Rio de Janeiro, Civiliza??o Brasileira.

SUAREZ, Maria Teresa S. Melo. (1977), Cassacos e corumbas. S?o Paulo, ?tica.

WEBER, Max. (1991), Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Bras?lia, Editora da UnB.

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[1] Em uma de minhas pesquisas de campo ocorreu-me um di?logo que nunca foi apropriado em escritos anteriores, pelo simples fato de nada ter a ver com os assuntos que eu pesquisava ? ?poca. Entrevistava uma mulher sertaneja, daquelas cujo passado n?o conheceu a escravid?o como forma de trabalho ou como mistura ?tnica. Era uma mulher branca de olhos azuis, que tinha ent?o a minha idade, 33 anos, mas que aparentava dez anos a mais pelos estragos que o intenso trabalho debaixo do t?rrido sol nordestino causara a sua pele. Sua vivacidade ficava por conta daqueles bonitos olhos aos quais n?o passava despercebido o mundo em volta e o mundo de fora trazido pelos seus familiares que retornavam de S?o Paulo. Por mais de uma vez ela se referiu a “n?s, negros”, ao que eu quis saber por que, se ela era branca. “Brancos s?o voc?s, os ricos”, respondeu-me. “N?s aqui somos todos negros.”

 

 

One Comment

  1. Teresa:
    Seu ensaio me fez lembrar uma declaração de Antonio Callado, que cobriu como repórter zonas de altíssimo risco, como o Vietnam. Salvo erro de memória, foi o primeiro jornalista a chegar ao Vietnam do Norte no auge da guerra. Pois ele afirma que nunca se sentiu tão intimidado quanto quando foi recebido pelos usineiros pernambucanos na instituição que representava os interesses deste grupo. Acho que o episódio está registrado em Tempos de Arraes, livro no qual reúne o conjunto de reportagens que escreveu para o Jornal do Brasil pouco antes do golpe de 1964.
    Desculpe derivar para essas associações. É que foram provocadas involuntariamente pela leitura do seu ensaio que aprovo integralmente. Daí, faltando-me pontos substanciais de debate, derivo para associações desse tipo. Você combina com muita propriedade a memória crítica com sua experiência no âmbito da sociologia empírica, matéria na qual sou quase nulo.

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