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Penso, logo duvido.

Luzes na ribalta – Clemente Rosas

Clemente Rosas

Juiz Federal Sérgio Moro, responsável pela execução da prisão de poderosos donos de construtoras envolvidas na Operação Lava Jato.

Juiz Federal Sérgio Moro, responsável pela execução da prisão de poderosos donos de construtoras envolvidas na Operação Lava Jato.

Sou um otimista incorrigível. Ou um “realista esperançoso”, como preferia Mestre Ariano Suassuna. Afinal, por que antecipar o sofrimento com uma expectativa do pior?

Nessa estação de sombras por que passa a vida político-administrativa brasileira, alegrei-me com o lampejo da negritude do Ministro Joaquim Barbosa, que inaugurou uma nova era na nossa Suprema Corte, mandando gente rica e branca para a cadeia. Se mais não fez, foi pela pusilanimidade de alguns dos seus pares, que preferiram proteger-se com o escudo do formalismo jurídico a realizar o supremo valor da Justiça. Mas – dizem que por medo à morte – o nosso herói omitiu-se, calou-se, em momento posterior, quando a sua voz, tão aguardada, teria ecoado pelos rincões da pátria, consolidando esperanças em nossos corações.

Temos, no entanto, uma nova luz na ribalta, brilhando, na expressão de Elbert Hubbard, como o planeta Marte no seu periélio. No Paraná, o juiz Sérgio Moro, ao julgar escândalo ainda maior que o popular “mensalão”, de forma serena e destemida, está levando à prisão, indistintamente, grandes figuras dos meios empresariais, altos executivos de empresas estatais e privadas, corruptos e corruptores. O palco está, pois, iluminado para um novo espetáculo, a merecer nossa atenção e nosso aplauso.

Louvemos, portanto, a bravura desse compatriota que nos ensina, com seu exemplo, que o cidadão brasileiro é nobre. Como ressalva o poema de Luís Cernuda, pouco importa que tão poucos o sejam. Um, apenas, pode ser o bastante, como testemunho dessa desacreditada nobreza. E seu nome nos evoca a tragédia do Primeiro Ministro Aldo Moro, sacrificado pelo fanatismo das “brigadas vermelhas”, e, por tabela, o comparável destemor do presidente italiano, ante o risco de destino semelhante, ao declarar de público: “Se me sequestrarem, não quero negociações. Deixem-me só, com eles”.

Mas há, ainda, outra lição valiosa a ser extraída desse quadro: a prova da solidez estrutural da democracia brasileira. Justiça Federal, Ministério Público da União e Polícia Federal são, na essência, instituições independentes e honradas, não por graça de nenhum integrante dos Poderes da República, mas a partir do ”status” que a Constituição de 1988 lhes concedeu. E sua ação demonstra que nenhuma instância governamental, nenhum agente público, nenhum magnata privado pode considerar-se acima da Lei.

É lição, sobretudo, a ser tomada pelos inconsequentes que, de forma primária, ingênua ou maliciosa, vêm pregando a intervenção militar para “pôr o país em ordem”. Se tal acontecesse, regrediríamos como nação democrática, e nossas instituições republicanas estariam sob risco, como vem acontecendo em nosso entorno.

Que sosseguem, pois, as “vivandeiras alvoroçadas” de que falava o General Castelo Branco. Os “granadeiros” aprenderam a lição: estão quietos, conscientes, eles também, da nobreza do seu papel, na forma como vem sendo cumprido agora.

 

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* Clemente Rosas, procurador federal aposentado, é consultor de empresas

3 Comments

  1. Ao mensalão, um Joaquim Barbosa. A um petrolão, um Sérgio Moro. E, assim, segue a vida, Clemente. Ainda bem. Ainda que, com apenas um, como diz você. A esta altura, com cabelos de prata, me declaro um sonhador desconfiado. Sem perder a semeadura da delicadeza deste sábado.

  2. Belo texto clemente. Complementa e reforça o editorial da semana com uma abordagem mais profunda. Me ocorre agora outra coincidencia do juiz Moro: o Brasil deu asilo politico a Battisti que foi militante das Brigadas Vermelhas e, segundo consta, foi condenado pela justiça italiana por vários atentados com morte. La ele foi condenado e aqui liberado como heroi apesar de ter praticado violencia armada, puro terror, num país democrático.

  3. Coragem! Coragem! Só a possui de verdade, os “homens de bem”, os homens honrados, que merecem o aplauso de quem os gerou, pois, a Coragem, é para homens que honram suas Mães, coragem é igual a Decência! Viva os homens de Coragem! Que eles se multipliquem a tal ponto, de superar os covarde e fracos!!! Viva a Decência!!!è o mais importante atributo Humano.

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