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Penso, logo duvido.

Noites Recifenses II – Viva o Chorinho!

Teresa Sales?>

 

Vin?cius tocando viol?o com o pai (Nuca) e eles dois sendo observados pela m?e (Lane)

Vin?cius tocando viol?o com o pai (Nuca) e eles dois sendo observados pela m?e (Lane). Fotografia: Maria do Carmo Camaroti

?Voc? ouviu teu menino, Nuca?? Nuca Sarmento sorri com uma felicidade que se espelha por todo rosto. Nada diz, deixando-se apenas abra?ar fortemente pelo amigo. A mesa onde est?o todos da fam?lia, em solidariedade aos fumantes do grupo, ? na cal?ada do Bar Retalhos, onde acontece a confraterniza??o de final de ano dos gar?ons, donos, freq?entadores mais ass?duos e, naturalmente, os m?sicos dos finais de semana.

A mesa deles j? se juntou ? de S?lvio Batusanschi, para onde eu me dirijo logo que chego, depois de ter perdido a feijoada, por?m a tempo para o melhor da m?sica: o dueto totalmente de improviso (qual Jam Session das melhores que j? vi em Greenwich Village, New York) entre nada menos que Beto do Bandolim e Vin?cius Sarmento ao viol?o. Mal ou?o os primeiros acordes, abandono a mesa da cal?ada e entro na sala onde os m?sicos tocam, como de costume, de costas para as duas janelas da casa por onde entra a brisa da rua da Aurora.

As mesas de dentro, n?o mais que dez ou doze, ficam como podem nas duas pequenas salas da casa, adaptadas para as fun??es a que se destinam: comida a quilo no almo?o; bar com m?sica das melhores nas noites de sexta e s?bado. N?o conhe?o os que est?o na mesa onde tem dispon?vel uma cadeira em bom lugar. Mas aquele dia ? de confraterniza??o e com sorriso me acolhem. Como costumo fazer quando vou aos s?bados para assistir ao Choro Mi?do de Boz?, abstra? o barulho das conversas para me concentrar s? na m?sica.

Come?o a perceber uma corrente de energia que fosse como que fluindo da m?sica, da conversa daqueles dois instrumentos, para os animados e distra?dos conversadores das mesas. E a? acontece o milagre, nessa nossa cultura brasileira barulhenta: o reconhecimento do qu?o pouco podemos dizer que possa ser melhor do que a m?sica (somente na casa noturna de Seu Jorge, no Rosarinho, esse princ?pio ? seguido ? risca, pois ali n?o se conversa enquanto os m?sicos tocam). Com pouco, como acontece nos instantes m?gicos da m?sica, todas as mesas estavam em completo sil?ncio. Momento de ?xtase. Muito melhor quando compartilhado.

Demora um tempo para se sair do clima de exalta??o que sucede aos aplausos finais. Sim, porque, tal como numa Jam Session, houve muitos outros momentos de aplausos, ao improviso de um ou outro dos instrumentos, o que rebatia de volta com mais m?sica e mais improviso. Desfeito o dueto, Vin?cius vai se juntar aos seus que estavam na mesa do lado de fora. O primeiro abra?o vai para a av? materna. Matriarca da fam?lia, ?Bebel do C?co?, como ainda ? carinhosamente chamada, ? uma mulher cheia de vida e de alegria.

Nuca Sarmento, seu pai, ? m?sico (viol?o) e compositor. Boz?, seu tio, tamb?m m?sico (viol?o de sete cordas), ? maestro e professor do Conservat?rio. Boz? e seu time de alunos do Conservat?rio foi quem come?ou a tradi??o do chorinho nesse bar (ah, nossas ?tradi??es? brasileiras! a desse bar tem tr?s ou quatro anos?).

Vin?cius Sarmento completa 21 anos em 11 de janeiro desse ano de 2013. Eu converso com Nuca, dessas conversas boas de mesa de bar, e ainda d? pra saber que esse menino estava destinado para a m?sica: quando beb?, botava a cabecinha no buraco do viol?o procurando um som. Encontrou em casa e parece que est? indo mais longe. Reporto somente o que eu tive o privil?gio de assistir ao vivo. Quando Yamandu Costa veio fazer uma apresenta??o de sua m?sica no Teatro de Santa Isabel em 2012, foi a Vin?cius Sarmento que ele convidou para uma parte da apresenta??o com ele, dizendo-o o mais promissor violonista brasileiro. O reconhecimento veio outro dia novamente, na homenagem a Henrique Annes no teatro do Salesiano no s?bado 5 de janeiro desse ano de 2013, quando, dentre tantas estrelas de primeira grandeza da m?sica instrumental brasileira, l? estava Vin?cius, com a ousadia de tocar uma composi??o pr?pria sua: um chorinho.

Que viva o chorinho, o nosso mais genu?no g?nero da tradi??o musical brasileira. O chorinho vai se renovando n?o s? pelo viol?o de Vin?cius. Tamb?m pelo cavaquinho de Jo?o Paulo, pela flauta, clarinete e sax de Alexandre, pelo pandeiro de Jo?o Victor, os jovens alunos de Boz? que, com ele ao viol?o de sete cordas, comp?em o Choro Mi?do.

3 Comments

  1. Quero parabenizar a Revista e em especial a crônica de Teresa Sales, que retratou de forma real e ao mesmo tempo poética o que aconteceu no Retalhos. A sensibilidade de Teresa para captar o clima do que ali se passa agradou a todos que são frequentadores assíduos do Retalhos e que leram esta crônica.

  2. Tereza, uma delícia seu texto. Só faltou comentar que a predestinação de Vinícius vem desde o nome (uma homenagem do meu amigo Nuca ao grande poeta), passando pelo padrinho dele, ninguém menos do que o saudoso Raphael Rabello. Estou em débito com toda a família Sarmento por não ter ido ainda no Retalhos, mas irei sanar essa “falha” em breve.

  3. Cada vez melhor!! Se a primeira crônica sobre o retalho já foi supimpa, esta segunda crônica está ainda melhor. Mais completa, mais afetiva, mais emocionante. Bravo Teresa, fiquei com gosto de “quero mais”… Escreva muito!!!

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