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Penso, logo duvido.

Noites Recifenses V – o baile – Teresa Sales

Teresa Sales

Cena do filme  O Baile de Etore Escola.

Cena do filme O Baile de Etore Escola.

A ?Salla de Dan?ar no Clube da Aeron?utica ? um encontro dan?ante de grupos formados por entidades e organiza??es de pessoas da boa idade e turistas, onde buscamos entretenimentos e lazer no happy hour das quintas feiras com boa m?sica tocada pela banda ?Como Antigamente? e outras atra??es?. Assim diz o site onde consultei o endere?o.

H? tempos acalentava a ideia de ir a esse baile, freq?entado por colegas de gin?stica. Na minha rotina madrugadora, caminho at? o Segundo Jardim, onde me incorporo ? ?Academia da Cidade?. Grande id?ia, ao tempo do prefeito Jo?o Paulo. Um projeto em prol da sa?de e que se desdobra em lazer, pela natural sociabilidade que se estabelece entre os (sobretudo as) frequentadores.

Jacira ? uma l?der pela pr?pria natureza sua: expansiva, agregadora, alegre, comunicativa. Ela quem sempre insistia para eu ir ao baile. A princ?pio tentou me catequizar para participar da gin?stica coletiva. Expliquei-lhe da minha escoliose, da especificidade de meus exerc?cios e alongamentos. Mesmo assim, terminei sendo adotada pelos alunos e professores, nas comemora??es, na cumplicidade. Posso deixar t?nis, short, I-pod, bon?, para um mergulho, que certamente encontrarei tudo na volta. Entro no grupo nos per?odos pr?-carnaval e pr?-S?o Jo?o, quando a professora encerra a aula colocando m?sicas de frevo ou forr? para esquentar as baterias.

Os que malham nas academias outras, n?o sabem o que est?o perdendo. Em vez de uma TV e/ou um barulho ensurdecedor, a vista do mar ao nascente do sol ou ao poente, a brisa natural e n?o ar condicionado. A m?sica ? mais baixa. Tudo de gra?a, com direito ainda a um banho de mar. ?s ?guas frias do oceano de manhazinha ningu?m se atreve. S? eu.

Entrei no Clube da Aeron?utica com o mesmo esp?rito com que saio dos concertos de Brandenburg de minha caminhada para ouvir as escolhas musicais dos professores de gin?stica do Segundo Jardim (?s vezes tem m?sica boa…).Cheguei pelas 20 horas, depois de hora e meia aguardando taxi. Clarice Lispector me fez companhia. Afinal, n?o tinha pressa.

Pronta para o baile. Um vestido colorido, comprado em boa loja, de corte elegante, por?m um estampado tipo Sulanca. Salto alto, bem ajustado aos p?s, bom para dan?ar. Pensei: com essa roupa eu serei igual.

Como na quinta feira 07 de novembro tinha a atra??o especial de um cantor (desconhecido para mim), todos os sal?es estavam lotados, me explicaria Jacira. Fui caminhando por entre as mesas at? encontrar minhas colegas. N?o foi uma tarefa f?cil. Mas tamb?m ali n?o tinha pressa. A atitude de procura me permitia observar os freq?entadores.

O lugar das mo?as, embora atr?s, ficava no sal?o maior e melhor, com janelas abertas ? brisa do mar. Fui recebida com cerveja bem gelada, num misto de alegria e espanto de eu estar l?, mesmo tendo sido convidada. Como se n?o fosse o meu lugar. O prato de salgadinhos estava acabando. Os gar?ons servem bebida. Comida, s? no selfservice. Nova circulada pelos sal?es. Optei pelos queijos. Sem habilidades de gar?om, quase derrubo o prato passando por um casal que dan?ava entre as mesas.

Fotografei minhas companheiras da noite. A ?nica magra estava discreta em cal?as compridas e blusa pretas, com um colar colorido. Todas as demais, vestidas mais de acordo com a grande maioria das mo?as do lugar. Cal?as compridas, saias ou vestidos just?ssimos, blusas idem. Muito brilho. Numa mesa pr?xima uma mo?a fazia uma s?ntese exagerada da moda feminina: cal?a dourada; blusa preta com fios dourados; cinto dourado; sand?lia de saltos muito altos; bijuterias combinando com a roupa; pele morena, cabelos louros lisos e longos.

Em finais da d?cada de 1970 e come?os da seguinte, a esquerda intelectual vinda de 1964 e 1968 passou a freq?entar clubes populares. Aqui no Recife sei do Clube das P?s. Em S?o Paulo, predominavam as gafieiras (copiadas do Rio de Janeiro, tanto quanto as Escolas de Samba). Form?vamos como um enclave, perfeitamente confort?vel e ? vontade.

N?o foi assim no Clube da Aeron?utica. Ilus?o minha que ficaria igual. Lembro de minha av? Palmira. Em meados do s?culo passado, criticava a moda de ver?o, onde as mulheres de classe, pela vestimenta, se misturavam ?s sem classe. Engano dela. H? uma distin??o sutil que perpassa a linguagem, o modo de andar, de se portar, de se vestir. Muitos soci?logos j? se debru?aram sobre detalhes esses e outros, diversos da propriedade ou n?o dos meios de produ??o, a diferenciar as classes sociais.

A m?sica era razo?vel, tipo Roberto Carlos. Acompanhei a alegria das companheiras de mesa dan?ando sozinhas. Uma foi convidada ao sal?o, a mais farta em carnes. Vendo-me fora do padr?o, n?o alimentei esperan?a. Mas um neg?o alto, calado e bem apessoado me tirou para dan?ar. Quando me cansei, permaneci no sal?o. Luzes verdes e vermelhas vindas do palco cruzavam os casais. Celular na bolsinha, bati v?rias fotografias. Timidamente no come?o, at? perceber que os fotografados n?o se incomodavam e at? faziam pose. J? que diferente, poderia ser uma rep?rter. Essa foi a descoberta da noite. Assumido esse papel, tudo ficou mais f?cil.

Pois meu encantamento nesse baile se passou dentro de mim. Ver, olhar indiscretamente para o entorno, para os casais dan?ando. Palavras n?o t?m o poder de expressar o que para mim come?ou com um certo estranhamento e aos poucos se tornou quase arte. Como se estivesse num dos museus de Londres, onde vi pela primeira vez ao vivo e n?o nos livros, algumas pinturas de Lucien Freud. Ele teria ali modelos melhores do que no seu studio londrino.

A maioria das pessoas era da cor que o IBGE classifica como pardos, como s?o na praia do Pina em frente ao meu apartamento, aonde quase n?o chegam turistas. Uma das colegas de mesa quis saber se eu era japonesa ou nissei. ?Por que?? Quis saber. ?Voc? tem os olhos puxados?. Todos que me conhecem sabem que n?o tenho nenhum tra?o oriental. Seu modo de perceber a diferen?a.

Pelo sapato de uns (preto e branco, como dos dan?arinos de sal?es de baile tradicionais), pela diferen?a de idade entre jovens desembara?ados e velhinhas alegres, dava para reconhecer os novos tipos de casais que n?o existiam ao tempo em que os intelectuais invadiam as classes populares nos bailes de gafieira, numa tentativa v? de parecerem iguais.Ou simplesmente para uma divers?o melhor.

Passei a observar esses e outros casais. Os bailarinos sa?dos dos cursos de dan?a de sal?o para alugarem suas horas a mulheres que gostam e podem dan?ar acompanhadas ? uma grande inven??o que veio pari passo com os movimentos de liberta??o feminina. Mostrar as formas do corpo sem preocupa??o com gordurinhas a mais ? outra conquista. Essa ?, por?m, privil?gio das mo?as que freq?entam as praias do Pina, os bailes desse tipo de clube. E que hoje inauguram outro padr?o de beleza, valorizado pelos homens que com elas partilham a mesma sociabilidade.

 

6 Comments

  1. Teresa, espero não esquecer de tocar no ‘enviar” pois a cada “rememoração” que a leitura de sua crônica me provoca, as vezes escrevo algo que no entanto tende a se perder para sempre, ficando como os computadores portugueses daquela velha ( também), piada: uma vaga lembrança… Será que sempre esqueço do toque no enviar? ou é um boicote ao público daquilo que de meu, deixaria de ser privado? Como já lhe disse antes em conversa, quem sabe não seja a revista com sua postura de “forte abraço falocrático” provocadora dessa inibição? De qualquer forma Teresa, você é admirável no quesito sociologia aplicada: nem toda branca teve o prazer de desfrutar uma dança de salão com belo negrão!

  2. TERESA SALES , realmente relembrar os bons momentos da infancia e da adolescencia, nos proporciona bons momentos de felicidade e alegria.
    Na minha opiniao, as musicas dos anos 60, 70 e 80 sao agradaveis.
    Mais um avez , solicito que informe o nome do seu pai , voce deve ter orgulho dele e eu posso o ter conhecido.
    Nao entendi o porque nao me informou .
    Aguardarei.
    Deus nos proteja e nos de saude , paz , sucessos e sorte, sempre , amem.
    Abraco.

    ITO CAVALCANTI
    Rancho Cordova , California, U.S.A..

  3. Tereza, P^xa,, adorei. Isto não é artigo. Isto é “diário de campo”. Você evoluiu: de seguir de longe os exercícios da “Cademia da Cidade”, você incorporou-se a ela, indo parar num “baile da terceira idade”. Nem foi por curiosidade, nem como pesquisadora. Simplesmente atendeu a um convite… Claro que “conhecer o ambiente” não é previlégio de cientistas sociais, é humano. Gostei muiiiito, pois está na minha pauta frequentar estes lugares porque ADORO DANÇAR! Com negão, jovem, velho! Olhos puxados? Quero puxar os meus, sÔ!

  4. Teresa, Gostei muito da sua crônica. Principalmente porque você descreve a academia onde faz ginástica – Academia da Cidade do Primeiro Jardim de Boa Viagem – de uma maneira que me dá água na boca:
    “Os que malham nas academias outras, não sabem o que estão perdendo. Em vez de uma TV e/ou um barulho ensurdecedor, a vista do mar ao nascente do sol ou ao poente, a brisa natural e não ar condicionado. A música é mais baixa. Tudo de graça, com direito ainda a um banho de mar.”
    Realmente é uma academia e tanto!!! Além disso tudo os frequentadores também promovem bailes animados. Gostei também das dicas para evitar “chá de cadeira”.

    • Teresa, raramente conseguimos misturar as experiências pessoais com reflexões. Você conseguiu de maneira emocionante. Sem faltar humor. É deste tipo de textos que precisamos. Parabéns e obrigado.
      Cristovam

  5. O baile, na verdade, foi uma escolha proposital para dar sequência às crônicas “Noites recifenses”. Nas anteriores, como decorrência de uma programação intencional de lazer, a crônica surgiu depois. Nessa, ao contrário, fui ao baile com a intenção de escrever a crônica. E para mim, a descoberta da noite, afora uma certa sociologia do cotidiano que subjaz a todas as minhas crônicas, foi achar beleza numa estética de corpo e de vestir das mulheres (diversa da minha classe social), que me levou a um museu londrino.

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