Pages Navigation Menu

Penso, logo duvido.

Noites Recifenses VI – Baile do Menino Deus – Teresa Sales

Teresa Sales

GERMANY. Snow by the Rhein in Bonn 2013 by Olivia Arthur

GERMANY. Snow by the Rhein in Bonn 2013 by Olivia Arthur

23 de dezembro de 2013. Levando comigo uma melancolia natalina, vou sozinha ao Baile do Menino Deus. J? conhecia de outro natal. E sabia que esse ano as inova??es seriam especiais nas m?sicas, dan?as, coreografia. Comemorou-se trinta anos do Baile, dez no Marco Zero.

Com jeitinho, consigo a cadeira de uma menina que estava no colo da m?e. Foi com ela que dancei a valsa final do baile. Descrever a beleza do espet?culo, como s?ntese de tantos folguedos de nossa cultura popular, muitos j? o fizeram. At? o pr?prio Ronaldo de Brito, autor desse auto de natal, comentou no jornal.

C? comigo fico imaginando o criador, que tem o privil?gio de ver sua criatura colorida, alegre, multiplicando a emo??o, que um dia foi sua (ao escrever), para milhares de pessoas, fam?lias reunidas, cada uma com sua leitura e sentimento do que se passa no palco. Uma comemora??o de massa que tem o cond?o de reunir fam?lias ? natal ? fam?lia ? fora do lar.

A melancolia que carregava comigo ? caminho do Marco Zero se chama ?esp?rito de natal?. Confesso que quando bateu mais forte esse sentimento foi nos natais que passei longe de casa, estrangeira. Ali o natal come?a mais cedo, mais ?vido ? o centro do capitalismo de vender. Mal acaba o Dia de A??o de Gra?as, em novembro, j? ? natal. O brilho toma conta das lojas e das casas (menos nas ruas do que aqui nos tr?picos). Espera-se ansiosamente o an?ncio da primeira neve. Os pinheiros ser?o cobertos dos flocos brancos, que para n?s foi importado nos antigos cart?es de boas festas e em flocos de algod?o em iguais pinheiros, a ?rvore de natal.

Sei, pelas entrevistas, que foi a importa??o de s?mbolos natalinos que motivou Ronaldo de Brito a escrever o Baile do Menino Deus. Na ?poca, pensando nos seus filhos pequenos. Imaginava ele que seu auto de natal ganharia o palco em tamanhas propor??es?

Hoje, muito da tradi??o importada dos Estados Unidos virou nossa. Foi tirada a neve dos pinheiros. Menos mal E vamos resuscitando, ao menos para uma classe m?dia ilustrada, nossas origens ib?ricas, que aqui ficaram na cultura popular. Talvez nem em Portugal e Espanha se cultivem mais.

Volto ? minha melancolia. Morando em Boston, vivi intensamente o esp?rito de natal. Entreguei-me ? matriz. Preparei o apartamento onde morava com o filho mais velho, para esperar os que ficaram no Brasil, o marido e o filho ca?ula. Na pra?a onde sempre encontrava uma velhinha com quem conversava para treinar o ingl?s, eu ? caminho do metr?, cometi uma infra??o: arranquei um arbusto seco, que renasceria na primavera, para ser a ?rvore de natal. A lembran?a mais viva do meu sert?o brasileiro.

Esse ano tentei me livrar da melancolia adiando o mais que pude as comemora??es natalinas. Cumpri as obriga??es ? gorjetas para porteiros do pr?dio, lembran?as para um crescente setor de servi?os que me serve durante o ano ? sem pensar no natal. In?til. Em algum momento, caminhando por um shopping, a mais brega m?sica te captura para o esp?rito do natal.

Nessa cr?nica, quero compartilhar com meus leitores o que vem a ser esse tal esp?rito de natal que mora em algum canto escondido d?agente, junto com uma tristeza que aqui nomeio de melancolia. Porque n?o ? bem tristeza. ? uma esp?cie de saudade. De uma felicidade que s? existe na inf?ncia.

N?o sei o que os meninos de hoje guardar?o no canto escondido das suas lembran?as infantis. Certamente n?o ser? o carrossel, a onda e a barca das festas de rua, onde os meninos ficavam soltos com dinheiro para gastar. ?s vezes parco dinheiro, tendo de escolher. Nem a missa do galo.

Pelo meu pai, cat?lico praticante e nacionalista convicto, n?o existiria papai Noel. Felizmente minha m?e, mais flex?vel, inventou uma vers?o crist? para convenc?-lo (? o que imagino hoje). Lembro-me da cena: deitadas na cama de casal, eu e minha irm?, cada uma de um lado, a m?e nos dizendo que papai Noel era o empregado de papai do c?u, que mandava ele trazer os presentes. Das mentiras boas da vida.

Bezerros ainda guardou por muito tempo esse tempo. Caruaru de Bezerros, Gravat? de Bezerros, passaram ? sua frente no progresso, perdendo mais r?pido nas tradi??es.

Antes de Z? Hamilton me levar para conhecer a Gal?cia de seus antepassados, foi apresentado ao colorido ib?rico dos alfenins da Rua da Matriz, ? excel?ncia das ca?as vendidas aos matutos atr?s da Rua da Matriz. O apag?o da cidade inteira, de onde ressurgia, na torre da igreja, as luzes anunciando, junto aos fogos, o novo ano.

 

2 Comments

  1. Você sintetiza muito bem o sentimento que transmite o Baile do Menino Deus.. na verdade, Ronaldo consegue passar alegria à melancolia, que sempre permanece nesse período.

  2. comercio, mentira de um papai noel que so da briquedo para aquele que tem dinheiro, jesus queria bem a todos e o colocaram na cruz, e hoje ainda louvam a referida CRUZ.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *