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Penso, logo duvido.

O despertar do gigante – Teresa Sales

Teresa Sales

Demonstra??o de rua ? Junho de 2013 no Brasil.

Demonstra??o de rua ? Junho de 2013 no Brasil.

15 de maio de 2014

Estava escrevendo um artigo sob o impacto das recentes not?cias, quando recebi pela internet (para discuss?o entre n?s, editores da ?Revista Ser???) a Opini?o da semana, escrita pelo editor mais constante nessa coluna, S?rgio Buarque. Sem combina??o pr?via, terminamos fazendo contraponto em torno de um mesmo sentimento de incerteza, que nesse momento inquieta tantos brasileiros.

Que seja ent?o esse artigo apenas um coment?rio ? Opini?o.

A indigna??o, a incerteza e a revolta s?o a cara do Brasil atual. Desde quando? Se formos pensar ao curto prazo, do in?cio do s?culo XXI para c?, digamos, tais sentimentos t?m um marco. Come?aram e v?m se agravando no governo Dilma Rousseff. Produto de seu desgoverno, como afirmam alguns? N?o s?.

N?o que antes inexistissem insatisfa??o e indigna??o com os governos de Fernando Collor de Mello, de Fernando Henrique Cardoso, de Luiz In?cio Lula da Silva, s? para citar os ?ltimos presidentes eleitos pelo voto direto no per?odo de redemocratiza??o ap?s a ditadura militar. S?o novos, por?m, os ingredientes de viol?ncia social bem expressos na Opini?o dessa semana. No t?tulo, o texto toma de empr?stimo um adjetivo usado por Clemente Rosas para caracterizar o Abril de 1964, quando a trucul?ncia das for?as militares se voltaram com armas contra uma manifesta??o estudantil, matando dois estudantes. Sei que a inten??o do escritor da Opini?o n?o foi essa, de igualar os dois momentos. Mas a compara??o aqui pode ser esclarecedora.

Abril despeda?ado. Brasil despeda?ado?

J? se vai meio s?culo de hist?ria. O divisor de ?guas ? grande. Enorme, se considerarmos a mudan?a dos atores sociais. Naquele momento, a sociedade brasileira estava organizada em v?rios segmentos das classes sociais: camponeses, oper?rios, parcelas da classe m?dia, estudantes. ?Amparados?, ? certo, por governos progressistas (marca de nascimento de nossa democracia: a promiscuidade do p?blico com o privado). Essas eram as for?as sociais despeda?adas pela ditadura.

E hoje? Qual ? o Brasil despeda?ado?

A viol?ncia agora, rompendo o Estado de Direito instaurado pela Democracia, est? no seio da sociedade, numa massa ainda disforme. E mais: existe hoje um poder privado paralelo que funciona nas favelas e nas ?reas pobres de quase todo espa?o urbano de nosso pa?s, em contraposi??o ao poder p?blico legitimamente constitu?do.

Seria essa viol?ncia do lado da sociedade que se manifesta nas ruas apenas uma decorr?ncia da trucul?ncia do estado, como querem crer alguns? Uma coisa ? certa: o estado atual, atrav?s de suas institui??es encarregadas da ordem p?blica, n?o ? o mesmo estado repressor da ditadura militar. Existem agora prerrogativas da sociedade civil, direitos, institui??es democr?ticas, sem solu??o de continuidade com o Estado de exce??o ditatorial, mesmo que dele preservando alguns v?cios (desde a era Vargas).

E da?? A sociedade est? se despeda?ando. O dicion?rio Aur?lio cita um bom exemplo para o verbo do qual se origina o adjetivo. ?Quando este mar embravece, vergalh?es como montanhas despeda?am-se com f?ria nas fal?sias maci?as (Raul Brand?o: As Ilhas desconhecidas).

A f?ria desses vergalh?es nas fal?sias maci?as vem de onde agora? Justamente quando se conquistou, com a democracia, direitos que estavam represados por duas d?cadas sob governos ditatoriais? Justamente. Essa dial?tica faz parte das conquistas sociais na democracia. Na ordem privada, que predominou por tantas d?cadas em nossa res p?blica, o gigante estava adormecido. As conquistas sociais, os direitos outorgados, s?o condi??es necess?rias, embora n?o suficientes, para que a sociedade se mobilize em busca de mais e melhor.

O governo Lula, cooptando sindicatos e movimentos sociais com benesses e carisma, manteve a sociedade em r?dea curta. As classes empresariais, sobretudo do setor banc?rio, dormiam em ber?o espl?ndido. Fosse eleito governo (Dilma Rousseff) ou oposi??o (Jos? Serra) para presidente da rep?blica em 2010, era esper?vel uma explos?o da sociedade. Abriram-se as comportas das represas e as condi??es tornaram-se suficientes para a ?gua transbordar.

O hiato entre ?o diabo solto no meio do redemoinho?, no dizer de Guimar?es Rosa, e a campanha eleitoral que j? corre solta, ? gritante. Como se fossem duas linguagens que n?o se entendem por falarem diferentes idiomas. Em ano eleitoral, em ano de Copa (dois espelhos, um para dentro e outro para fora do pa?s), a sociedade vai sem d?vida agitar-se mais do que no junho de 2013. Despeda?ando-se, sim, por?m em sentido muito diverso daquele abril de 1964.

Parecido com o tempo sombrio da ditadura, apenas a incerteza. Porque agora tamb?m n?o sabemos os pr?ximos passos. Sabemos apenas que o gigante acordou, carregando as mazelas antigas de nossas profundas desigualdades e iniquidades. Uma raiva explodindo sem viol?ncia, com viol?ncia, mas fora das inst?ncias representativas da democracia.

8 Comments

  1. Não discordo mas sim complemento. Nossos problemas começaram quando “fomos descobertos” e para cá vieram os degradados. Mas não é só isso, nos espoliaram para que um Rei fraco fugisse de Napoleão Bonaparte, removendo os donos de seus imóveis. A primeira dívida externa, com os Ingleses, veio com as caravelas portuguesas do Rei fujão. A dívida externa cresceu com a criação de uma capital sem sentido. Mas não para por aí. Veio uma revolução, não de militares mas sim de donas de casa e de empresários, para que o Brasil não virasse uma Ditadura Maxista (tipo a que constrói um super porto em um País que em nada contribuiu para o Brasil, esquecendo de aplicá-lo aqui mesmo). Passado isso e a tão decantada democracia volta, só que não sabemos para onde, o País passa a ser governado por um cidadão acima de qualquer suspeita, que exerce influência sobre os dois Estados Brasileiros mais pobres (Amapá e Maranhão). Daí em diante a memória de todos é preservada. Toleraram-se os anões do orçamento, lembram? Alguém devolveu alguma coisa ao Erário? O que dizer do Presidente da Câmara de Deputados utilizar o dinheiro da SUDENE para perfurar poços artesianos em suas fazendas? A questão para por aí? Certamente que não. A banalização da tolerância nos faz fracos. Nossa luta, sem sentido, nossos valores, escondidos para que não conflitem com os novos valores sociais, tipo o funk da ostentação. Realmente levaríamos anos para descobrir a origem do “câncer social” que estraçalha nosso Maravilhoso BRASIL Varonil. Remédios para isso há, bastando apenas varrermos para fora os verdadeiros “sem pátria” e passarmos a adotar Leis que atinjam a todos, tratando desigualmente os desiguais. Isso sim, é que é democracia. O resto, balela.

  2. Teresa:Você tem razão ao assinalar distinções significativas entre dois tempos do Brasil “despedaçado”. No entanto, acho que sua apreciação é otimista demais ao traduzir as explosões sociais agora correntes com o despertar do gigante. Sem dúvida, ele está despertando em muitos sentidos. Mas o trote da carruagem, a julgar pelos fatos cotidianos, tende mais para a reação desordenada, para explosões sociais que, na falta de melhor expressão, designaria como movimentos pré-políticos. Um dos aspectos inquietantes dessas manifestações, como aliás ressalta o Editorial desta semana, é a violência, é a depredação anárquica do nosso frágil tecido social. Noto na revista uma concepção um tanto difusa de democracia que tende, salvo erro de avaliação minha, a confundir democracia com funcionamento das instituições políticas. Ora, isso é muito pouco para definir a estabilidade democrática de um país como o Brasil. Sustento a opinião de que a maioria, apesar do bolsa família e outras mudanças positivas, continua vivendo à margem de um Estado efetivamente democrático.
    Enquanto não tivermos democracia social para valer, e estamos ainda muito longe disso, as forças de instabilidade, potencialmente anárquicas, são sempre uma ameaça possível. Minha perspectiva, como frisei discutindo com Sérgio Buarque, é a da longue durée, até porque não tenho competência como alguns da revista, para opinar com segurança sobre os processos vivos e conjunturais da política e da economia. Por observar o Brasil do ângulo acima acentuado, não consigo ser otimista. Uma análise mais adequada teria que incorporar as mudanças profundas do capitalismo global e o modo como ele funciona num país periférico como o Brasil, que nunca foi capaz de ajustar suas contas com a modernidade. Tentei sugerir algo disso no comentário que postei sob o título Consumo vs. Civilização. Desculpem o comentário demasiado longo, que ainda assim diz muito pouco do que precisaria argumentar.

  3. Nao acho que podemos falar de despertar do gigante. Mais parece que o gigante esta se agitando, inquieto e desesperado, no meio de um pesadelo no qual nenhuma parte do corpo, do consciente ou do inconsciente coletivo se entende, mistura de movimentos sociais organizados, explosão descontrolada e dispersa de violencia que reflete uma frustração e uma desesperança pela total, com atuação do crime organizado. Falta muito para o gigante despertar deste pesadelo.

  4. Não acredito em qualquer despertar “do gigante”, pois o Brasil será sempre um país anão no contexto da integração e globalização mundial. Um país que no século XXI ainda não investe o suficiente na educação e na saúde e se coloca entre os países mais pobres do mundo nesse contexto, como pode querer ser considerado um país emergente? Melhor seria ser considerado um país submergente, graças aos nossos iníquos e corruptos governantes que se locupletam às custas do erário e legislam em causa própria dando uma verdadeira banana à população que os elegeram que, de forma absolutamente néscia continuam a elegê-los a cada legislatura. É de dar dó! Ô povo incauto!!!! Deus do céu!!!!

  5. Num pais em que nenhuma parte do corpo social se entende, poderia ser de outro jeito o seu despertar? Longe de casa e com esse tablet sem teclado e sem pontuacao, deixo pra dialogar com tao ricas observacoes ao meu artigo quando voltar pra casa na sexta proxima. Precisamos muito desse dialogo, pois nao tenho duvida que estamos vivendo um momento especial de mudanca social no Brasil.

  6. Voltemos ao diálogo, agora que tenho um teclado decente para escrever. Vamos por partes:
    1. O despertar do gigante. É um despertar tão esfacelado, ou despedaçado, quanto o é a sociedade brasileira. Não apenas pelas seculares desigualdade e iniquidade, mas principalmente pela opressão. Nós, da classe média ilustrada, sentimos na pele tal opressão por parte do estado ditatorial e lutamos, junto a outros estratos da sociedade, pela volta da democracia. O chamado povão beneficiou-se das conquistas sociais que lhe foi outorgada pelos governos democráticos que se seguiram a 1985, tais como o fim da inflação, a valorização do salário mínimo, os programas compensatórios às situações de pobreza.
    2. Porém, a opressão que secularmente recai sobre as classes desfavorecidas é profundamente arraigada na nossa cultura política. Não apenas dos poderosos através das instituições encarregadas da segurança pública. Mas de qualquer indivíduo ou grupo social sobre outros que lhe estão abaixo. Assim tem sido. Para citar alguns exemplos: o poder privado que concorre com o estado nas favelas e áreas pobres de todo o tecido urbano brasileiro; a violência de quem está motorizado sobre o pedestre. Os exemplos seriam infindáveis. A cultura política brasileira é violenta em seu cotidiano.
    3. Como esperar alguma reação da sociedade, a não ser de forma violenta? Desordenada sim, nesse momento, o que nos traz muita insegurança pela impossibilidade de vislumbrar para onde vamos. Fernando, na sua crítica, nomeia de movimentos pre-políticos, aos que estamos assistindo. E são. Não porque nos falta democracia, pois temos eleições diretas, temos as instituições democráticas em pleno funcionamento. O que estamos assistindo é a uma manifestação da sociedade querendo mais e melhor pelo que já lhe foi outorgado pelo estado. E, no bojo dessa manifestação, uma revolta difusa, revolta do oprimido contra qualquer alvo que se lhe apresente como opressor.

  7. Amiga Teresa,
    Mesmo com as suas explicações, eu me situo na linha da crítica de Sérgio. A imagem do despertar do gigante não me parece feliz. Ele não despertou, na medida em que qualquer despertar implica a retomada da consciência. E não me parecem conscientes – no sentido de orientadas para algum objetivo político – as ações a que estamos assistindo.
    Diria antes que ele – o gigante – está como que tomado por um ataque de epilepsia, com espasmos e convulsões, mordendo a própria língua. Pois não é comparável a isso a atitude de destruir os próprios instrumentos de trabalho com que alimentam os filhos (os ônibus, pelos motoristas), de danificar os equipamentos de serviços públicos de que eles, os “manifestantes”, são os principais usuários, de apedrejar os carros da imprensa, cuja cobertura muitas vezes lhes favorece?
    E por que essas convulsões ocorrem AGORA? A alegação da baixa educação do povo e da desigualdade, mais velha que a sé de Braga, e da qual ninguém discorda, bem como a compulsão consumista, não são satisfatórias. Afinal, de alguma forma, as duas primeiras têm até melhorado, nos últimos anos, e a última não é de hoje. A única motivação, também lembrada, dessas agitações frenéticas, que PIOROU é o mau exemplo de corrupção, leniência e mesmo deboche dos poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário. E isso me aproxima do brevíssimo comentário do meu amigo W.J. Solha (onde está ele, foi suprimido?): este é de responsablidade da cúpula da atual administração pública federal brasileira.
    E como enfrentar tal estado de coisas? A curto prazo – e no longo, como disse Keynes, poderemos estar todos mortos – com a repressão. Legal, sem excessos, como for, mas repressão. Nada mais desmoralizante da autoridade de qualquer poder legitimamente constituído do quer ver policiais militares postos em fuga por delinquentes.
    Melhor alguma ordem, mesmo imperfeita, do que a completa desordem. Hoje encampo esse pensamento, que durante muito tempo me cheirou a fascismo. Meu irmão Nelson Rosas, perseguido político, emigrado, hoje professor emérito da UFPB, e que ainda tem Marx como sua principal referência intelectual e política, pelo que observou na África, nas temporadas em que lá esteve como consultor da ONU,também pensa assim.

  8. Retifico e complemento meu comentário: a observação de W.J. Solha está nos comentários ao editorial “Brasil Despedaçado”.

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