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Penso, logo duvido.

O dia em que virei dona de Maracatu – Teresa Sales

Teresa Sales

Maracatu Nação Aurora Africana - Carnaval de 2015 em Recife.

Maracatu Nação Aurora Africana – Carnaval de 2015 em Recife.

Terça Feira Gorda. Com minha hóspede paulistana apaixonada por Maracatu, vamos ao carnaval no Polo Brasília Teimosa. Contávamos com um atraso que, mesmo com a chuva, não aconteceu e perdemos o Desfile das Agremiações. Tudo bem, fizemos o passo ao som da Orquestra Frevo Brasil. Não foi a mesma maravilha da Abertura do carnaval no Marco Zero, com Naná Vasconcelos comandando os Maracatus e o Maestro Spock se superando no palco com sua maravilhosa orquestra e os convidados que, com ele, só tocaram ou cantaram frevo.

Já estávamos de volta para casa pelo calçadão do Pina, quando nos deparamos com um pessoal se vestindo de Maracatu. O responsável pelo Polo Brasília Teimosa havia nos informado que, dos três grupos previstos, só dois haviam se apresentado. Pois era aquele que estava lá, o Maracatu Oxum Mirim, de Afogados. Junto a dois ônibus estacionados, ainda retiravam roupas, adereços e tambores dos ônibus.

A responsável pelo grupo não era pessoa de muita decisão e estava desapontada porque o ano passado já não teriam se apresentado no Parque Dona Lindu por não terem encontrado o local. Como eu vira a programaçao antes de sair de casa, não havia dúvida: era para lá que deveriam ir. Estavam atrasados, mas, pensei eu acertadamente, não deixariam de se apresentar por um simples atraso de carnaval.

Para minha amiga (a bem dizer, para nós duas), foi uma noite mágica. Conversamos com rei, rainha, passista com sua boneca. As fantasias estavam lindíssimas, pares em lilás, encarnado, rosa, cor de laranja, amarelo. Forte amarelo cor de Oxum. Muitas crianças. Umas fantasiadas para dançar e outras vestidas com a roupa da orquestra para tocar nas alfaias, pois afinal é um Maracatu Oxum Mirim.

“E onde fica o Polo Brasília Teimosa?” “Fique tranquila, eu sei onde é e vou com vocês”. A programação de palco já havia tomado muito mais animação e público do que quando a deixamos. E no caminho de ida deu pra observar um fato interssante: os carros que estavam na frente de casas ou bares com a mala aberta tocando aquelas músicas horrorosas, já haviam fechado as malas. Certamente se incorporado ao frevo que tomara conta da rua.

Por sorte, encontro o mesmo responsável e falo com ele, que me pergunta: “a senhora é a dona do Maracatu?” Ele estava apressado e eu não avistava a responsável de fato. Aí não tive dúvida: “sim sou eu”. Era só aguardar uma apresentação de palco que estava terminando e o Maracatu entraria antes de retomar o frevo. Não demorou a começar a batucada dos tambores. Um casal vestido de amarelo brilhante, certamente alguém do bairro mesmo, incorpora-se ao grupo. Minha amiga faz um vídeo. Eu danço emocionada ao som do batuque de meu orixá.

Grande idéia da prefeitura em espalhar o carnaval do Recife, com toda a riqueza de sua cultura, pelos bairros da cidade.

3 Comments

  1. À “dona do maracatu”

    O relato escrito me emocionou pela segunda vez. No próximo ano quero brincar com as duas no carnaval periférico. Pura emoção!

  2. Pouca coisa define seu artigo. Simples, pequeno e de uma substancia emocionante.
    Trovabraço.

  3. Teresa,

    Cheguei na manhã de hoje da Alemanha e República Tcheca. Fui direto para o escritório, revigorado depois de oito noites no mundo. Na volta, dei uma passada no suepermercado e, por fim, cheguei em casa. Na alameda Lorena, já havia muita gente de cachecol; os mais velhos vestiam malhas encorpadas. Depois da canícula do primeiro trimestre, isso é muito bom, sinal de renovação. Perto de onde moro, os primeiros velhos de chapéu. O clima está fresquinho, as noites prometem esfriar mais e mais. Te invejo em 70% do ano. Morar no Recife é uma das coisas que você faz com arte e que espero um dia também poder reviver. Já são 33 anos morando aqui. Sei o quanto o olhar estrangeiro ajuda a usufruir do melhor da terra: praia, caminhadas, amigos, boa prosa, história e descompressão. Especialmente para quem não vive siderado por ambições ocas. Mas sei também o que é estar longe de São Paulo na magia das transições. Hoje, 7 de abril, eu não queria estar no Recife. Queria estar aqui mesmo e pensei em você. O outono tem dessas coisas – abrir as pastas dos textos aleatórios e ver o que houve de bonito na estação passada. Calhou de ser sobre o último verão, aquele em que você foi dona do próprio maracatu. Isso, reconheço, é para poucos; já a meia-estação vem para muitos. Mas também funciona.

    Beijo,

    Fernando

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