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Penso, logo duvido.

O Ponto de Inflexão entre Direita e Esquerda – Elimar Pinheiro do Nascimento

Elimar Pinheiro do Nascimento (*)

Crianças vendo o mundo com o mesmo binóculo.

Crianças vendo o mundo com o mesmo binóculo.

Meu aluno, que resolveu estudar política para não repetir slogans que mal entende, procurou-me novamente. No seu ponto de vista, as mudanças teóricas que ocorrem nas vertentes de Esquerda e Direita não podem ser compreendidas se as isolarmos dos processos empíricos em que ocorrem. Afinal, as ideias têm ninho. Enfatiza também que a acepção dos termos Esquerda e Direita muda não apenas ao longo do tempo, mas também em espaços diferenciados. E que agora se misturam para darem lugar a outras inflexões.

Argumentou que a divisão Esquerda-Direita até o início da segunda metade do século XX, era a ênfase que a primeira dava a igualdade social, distintamente da segunda, que enfatizava a liberdade. Aliás, conforme defendeu Bobbio em livro amplamente consultado e citado. A tese de Marx, no século XIX, de que o regime democrático que surgia na Europa era uma simples forma de mascarar a dominação da burguesia tornou-se tradição no século seguinte. Assim, a vertente marxista passou a defender que a única forma de obter a igualdade era por meio da tomada do poder e instalação de uma ditadura do proletariado. Em sendo hegemônica, marcou o significado da Esquerda no mundo.

Inspirado nesses princípios, na América Latina, as forças de Esquerda tentaram tomar o poder pelas armas, com exceção da Venezuela e do Chile. E foram derrotadas. Derrota que se seguiu a queda do muro de Berlim, o desfazimento da URSS, a revelação do Goulag e, aos poucos, o fim do socialismo real no mundo inteiro.

No início do século passado Esquerda e Direita se aproximaram na defesa da democracia. Ficaram em seus extremos as correntes não democratas, de um lado os fascistas e de outro os stalinistas. No fim do século passado estas forças retornam, claro que todos com novas linguagens, mas juntos na defesa da violência e do autoritarismo. Suas teses não são as mesmas das forças políticas dos anos 1930, mas os fundamentos não se modificaram: a negação da democracia, a intolerância em relação à diversidade, o uso da violência para impor seus pontos de vista.

Claro que as concepções de democracia não são as mesmas. Enquanto a Direita enfatiza a importância da representação parlamentar, a alternância de poder e a obediência às regras, a Esquerda, sem desprezar estas instituições, considera que elas são insuficientes e precisam ser complementadas pela participação política e social. O “conselhismo” e formas de autogestão encontram-se em seu linguajar, mas não frequentam a de seu opositor.

De forma similar, a defesa da importância da redução da desigualdade social aproximou as antigas Esquerda e Direita. Uma e outra concordam que é inadmissível a existência de bolsões de pobreza ou de escalas desiguais excessivas. Os motivos são distintos, uns porque é custoso para o Estado a existência de grandes bolsões de pobreza e que a desigualdade social excessiva compromete o espaço da política, enquanto a Esquerda enfatiza o substrato dos direitos humanos e a injustiça social existentes em face de desigualdades colossais. Separa-os, sobretudo, as formas que lhes parecem mais eficazes de superar uma e outra mazela. O assistencialismo é renegado pela Direita, o empreendedorismo individual é visto com desconfiança pela Esquerda.

Em grande parte essa divisão está ancorada em outra, o valor e o papel do Estado e do mercado. A Esquerda anteriormente abominava o mercado, tido como um verdadeiro satanás a ser destruído. Hoje considera que não se pode viver fora da economia de mercado, mas é preciso ter um Estado forte que controle as forças de desigualdade que o mercado cria em seu próprio funcionamento, de maneira quase que natural. A Direita, por sua vez, nunca viu com bons olhos o poder estatal, tido como ameaçador e inibidor do desenvolvimento econômico que tem suas entranhas na economia de mercado. Porém, com as sucessivas crises, tanto no século XX, quanto agora, reconhecem que o Estado é um instrumento importante para regularizar e superar as disfuncionalidades do mercado. Não há economia de mercado sem Estado, reconhece a Direita, hoje mais do que antes.

De forma similar, ocorre com as diferenças que desenham a humanidade. Diferenças de gênero, de etnia, de vida sexual, de religião, de estilos de vida, de idade. A humanidade é, sobretudo, diversa. E este fato não apenas não é abominável, salvo para os fundamentalistas, mas enriquecedor. Ao inverso do que proclamava Sartre, o outro não é o inferno, mas o paraíso. Porque é na sua diferença que construo minha identidade. Sem as mulheres não sabemos o que são os homens; sem os negros não sabemos o que são os brancos; sem os velhos não sabemos o que são os jovens. A diversidade não nos esmaga, mas nos constitui. Esquerda e Direita aceitam estas premissas, e apenas os fundamentalistas, laicos ou religiosos, a recusam. Racista não é necessariamente de Direita, machista não é apanágio dos que se tem como de Direita. São noções e comportamentos transversais, perpassam todas as correntes políticas.

Assim, a economia de mercado, a democracia, o combate a pobreza e a desigualdade e o respeito a diversidade mais reúnem que separam esquerda e direita. Mas, não foram apenas as percepções da esquerda e da direita que mudaram. Mudou o mundo. E assim novas questões foram colocadas.

Portanto, a inflexão política mais importante hoje é a defesa ou o ataque à liberdade. E ela reúne Direita e Esquerda, modernas, de um lado e, de outro, os fundamentalistas, reacionários e autoritários, ou seja, os antidemocratas. Estes provindos, tanto da Esquerda quanto da Direita.

Com isso, diz meu entusiasmado estudante, o mais importante hoje não é ser de Esquerda ou de Direita. Mas, ser democrata ou autoritário. Aceitar ou recusar a horizontalidade. Aceitar ou recusar a diversidade. Aceitar ou recusar a responsabilidade no trato da coisa pública. Aceitar ou recusar a liberdade de expressão E ver como positiva as divergências de ideias e posições.

Os autoritários são arrogantes, se julgam donos da verdade, e a ela todos devem estar submetidos. Defendem a diversidade, mas apenas formalmente, porque querem todos iguais em pensamento e ação, em conformidade com o seu padrão, quando somos distintos. Todos que pensam diferente não prestam, estão com o erro e a vergonha. São fanáticos, incapazes de escutar qualquer ideia distinta da sua.

Os democratas sabem que não são proprietários da verdade, e que esta se cria no justo debate, na exposição livre e respeitosa dos diferentes pontos de vista, em que a escuta do outro é fundamental. Por isso, os distintos são um valor. E devem ser respeitados em sua especificidade, em suas diferenças e divergências.

Meu aluno concluiu sua exposição, que aqui expus resumidamente, cansado e feliz. Como aquele que descobre uma nova ideia, como um guerreiro que descansa do bom combate. Claro que não lhe posso dizer que muitas das ideias que ele expôs encontram-se nos livros, nos artigos e debates nas redes sociais. Que não são grandes novidades e, mesmo, que se revestem de uma certa superficialidade. Mas, é a sua descoberta. E só por isso tem um grande valor. Um tanto ingênua, é verdade. Mas, este é o menor dos defeitos humanos. Alguns amigos, inclusive, defendem que uma pitada de ingenuidade é fundamental para o bom viver. E sempre precisamos de ter uma crença.

É interessante observar como a velha distinção proposta por Bobbio, pertinentemente na época, perde sentido hoje. Afinal, é no espaço da liberdade que as chances de combater a desigualdade estão mais presentes, como diria Amartya Sen.

Não sei se lhe digo que se esqueça dessas velhas categorias de Esquerda e Direita, pois sem elas seu raciocínio tende a ficar mais claro. Afinal, na linha de demarcação por ele proposta de quem está a favor ou contra a economia de mercado e o regime democrático, da liberdade enfim, como o divisor de água das forças políticas atualmente existentes, misturam as antigas categorias de Esquerda e Direita. Pois, há componentes das duas, tanto do lado da democracia, quanto do lado contrário. Por isso mesmo o PT escolheu a narrativa do golpe, para jogar todos os seus adversários do outro lado, como não democratas. E, assim, sobreviver.

(*) Sociólogo, professor e pesquisador na Universidade de Brasília.

 

2 Comments

  1. Que lucidez, Elimar!!! Vou divulgar. beijo.

  2. Elimar,

    Parabéns pela concisão e o resto epifânico. Mesmo sem ser ser o seu imaginário aluno, vou continuar ingênuo.

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