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Penso, logo duvido.

O Terra Café | Bar – João Rego

João Rego

Igor de Carvalho no Terra Café – Fevereiro de 2017.

RECIFE 22.02.2017

O ambiente é típico de uma nova geração de artistas que se sabe à frente de um movimento cultural de vanguarda. Sob um amplo cajueiro, que cobre todo o quintal da casa, está instalado o minúsculo palco e, ao seu redor, uma audiência sentada no chão. Mais atrás, cadeiras e pessoas em pé.

Imediatamente, a cena me remeteu ao show de Gilberto Gil, seu primeiro no Brasil, quando voltou do exílio em Londres. Foi lá no Teatro do Parque. Eu estava sentado no chão, ao pé do palco, ávido pelo novo que aquele negro, belo e com uma incrível batida de violão, trazia de Londres. O Regime Autoritário de 64, em pleno vigor, cerceava o pensamento político e a imprensa. Com sua Doutrina de Segurança Nacional, via ameaça comunista em toda expressão cultural que reunisse mais de quatro pessoas.

“O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping bag, nem sequer sonhou….”, “ Começou a circular o Expresso 2222…”

A emoção que senti era da mesma matéria prima daqueles que estavam sentados para ouvir, extasiados, Igor de Carvalho e seus convidados. Na abertura do show, o performático poeta nos surpreende com suas palavras gritadas sobre amor, medo e desemparo. Uma desenvoltura que desconcerta e arrebata nosso espírito, protegido em seu Eu com uma Heineken na mão.  Somos puxados para o centro do palco, num movimento que já antecipava o que iria acontecer: uma noite de total cumplicidade entre o público e o artista.

Igor de Carvalho é uma mistura de Gandhi com Bob Dylan. Magro, com sua hirsuta barba ruiva, voz mansa de quem está sempre em alfa, vai desfilando suas belas canções, com letras profundas e bem articuladas, anunciando o inconformismo de uma geração que está cansada de manipulações do poder, da mídia, como instrumento de dominação e controle, e de outras instâncias que, para acomodar o pensamento, podar a criatividade e nos tornar apenas mais uma peça dessa enorme e complexa engrenagem da sociedade estabelecida, atuam para sermos “normais”.

Silvério Pessoa sobe ao palco para somar com Igor, cantando suas músicas, fortemente influenciadas pelos clássicos Jacinto Silva e Jackson do Pandeiro. Finaliza, com seu sampler no colo, gravando em tempo real a percussão rapper, emocionando-nos com Último Regresso de Getúlio Cavalcanti, um raro momento de homenagem ao “velho”, naquele ambiente que exalava o novo por todo os poros, evidenciado pelo cálido abraço de dois homens barbudos na plateia. Fernando Anitelli, Teatro Mágico, dá seu recado com muita simpatia e competência, instigando os poetas escondidos a, com desenvoltura e paixão, irromperem suas emoções recalcadas, por meio da sua poesia gritada, emoldurando a música que fluía com o mesmo espírito contestador. Depois foi a vez de Tibério Azul, recifense e radicado no Rio de Janeiro, outro talento que você não vai encontrar nas gravadoras.  Tudo acontece nos estúdios caseiros e vai direto para as redes sociais, de lá se propagando e fazendo efeito transformador em quem ouve ou vê.

Senti também a mesma certeza ingênua do jovem que, incapaz de decifrar a realidade com suas nuances sutis— onde poder e dominação se infiltram em nossa consciência, aprisionando-nos na mesmice de um “cotidiano produtivo e eficaz”— vê o mundo de forma dicotômica. O “Fora Temer”, brandido como bandeira em defesa do PT, como se este partido fosse uma vestal de honestidade e coerência política, me remeteu à visão dicotômica do esquerda bom, direita ruim, dos anos da ditadura. Bastava estar no MDB para ser revestido da mais pura coerência ideológica, humanismo e radical compromisso com a transformação da realidade social e política. Fosse PDS, partido que apoiou os militares, ou tivesse um amigo ou parente a ele ligado, estava para sempre condenado, com a pecha de corrupto e insensível social, aliado das forças da repressão, lambe-botas de militar e vendido aos interesses do imperialismo americano. A redemocratização, mais tarde, iria desnudar uma realidade cujo olhar dicotômico se tornaria obsoleto, assim como a máquina de escrever Remington e a caneta tinteiro, incapaz de minimamente explicar os complexos processos que regem a estruturante relação dialética entre classe política e sociedade civil.

Bem, abro aqui o último parágrafo para falar de Flaira Ferro. Dançarina, compositora e cantora, foi a convidada para fechar o show. Carismática, emocionou com Me Curar de Mim, belo sucesso midiático nas redes sociais, quando, no ano passado, cantou no TED Recife. Igor de Carvalho, como o mestre da noite, convidou Silvério Pessoa, Fernando Anitelli e Tibério Azul, para juntos cantarem “Eu acho um absurdo ser normal”. Foi com esse refrão inquietante que saímos certos de que algo de qualidade e transformador estava sendo gestado ali. Apagadas as luzes, desmontado o palco, ficou o velho cajueiro, observador paciente e silencioso, que, junto com o Irmão Evento remanescente da dupla, validava com sua presença mais uma emergente revolução cultural.

***

P.S Recomendo, para quem nunca ouviu falar, clicar no link para saber quem foram os Irmãos Eventos.

 

One Comment

  1. Meu caro João;
    Meus cumprimentos pela crônica. Mas devo explicitar que não partilho do seu entusiasmo e de sua certeza de que “algo de qualidade e transformador estava sendo gestado” no espetáculo referido. Na verdade, racionalista convicto como sou, sinto arrepios ao ouvir lemas como “Eu acho um absurdo ser normal”. O que, então, deve ser entendido como normal? E qual a alternativa proposta?
    Não posso fazer fé nesses “rebeldes sem causa”. Os rebeldes da minha geração tinham uma causa. Utópica, é verdade, mas articulada. Sabia-se o que se desejava. A turma do “Faça amor, não faça a guerra”, que veio depois, também tinha a sua bandeira de pacifismo. Mas o que propõem estes de agora? A anormalidade? E em que consistiria ela, para que possamos fazer um juízo mínimo da proposta?
    Lembro a afirmação de Karl Popper: “A razão crítica é a única alternativa válida encontrada, até hoje, para a violência”. E lembro também o nosso Arnaldo Jabor, sempre brilhante em suas análises sobre os nossos tempos, quando alerta para o perigo representado pelos que rejeitam os “labirintos da vida reflexiva” e suas “complexidades entediantes”.
    A turma que elegeu Donald Trump formava nesse time.

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