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Penso, logo duvido.

Para além dos Vinte Centavos

Jos? Arlindo Soares >

 Manifesta??o urbana em Recife, dia 20 de junho de 2013.

Manifesta??o urbana em Recife, dia 20 de junho de 2013.

No final da semana passada postei no Facebook uma pequena nota sobre a onda de manifesta??es que se delineava nas maiores cidades do Pa?s, afirmando que essas n?o poderiam ser explicadas pela simples repulsa ao aumento das passagens dos transportes coletivos ou pela a??o de pequenos grupos radicais. Essa postagem resultou em uma indaga??o do Jornalista Gilberto Prazeres, da Folha de Pernambuco, a respeito de causas para al?m do 0,20 centavos, que poderiam estar alimentando o sentimento de indigna??o de uma parcela da juventude das grandes cidades brasileiras. A princ?pio, argumentei que seria poss?vel buscar v?rias explica??es interligadas. Porem, para efeito did?tico, eu uso dois vieses que se completam. O primeiro ? o ac?mulo das tens?es urbanas na vida das pessoas. O segundo s?o expectativas frustradas, apesar de melhorias substantivas no poder de consumo da m?dia da popula??o. ?A ascens?o de uma nova classe m?dia, apenas pelo consumo, come?a a cobrar uma fatura que n?o est? prevista nas leis do mercado.

Lembrei, ent?o, dos jovens de Istambul que, sem estarem no epicentro dos rigores da crise europeia, p?em o pa?s de cabe?a para baixo, aparentemente porque n?o aceitam que o progresso destrua uma pra?a s?mbolo da boa conviv?ncia humana na cidade O governo de l? tamb?m ? leg?timo, sendo apoiado por uma ampla maioria, o que n?o lhe d? o direito de desconhecer os sentimentos n?o pautados pelo lucro, de parte da juventude.? Tendo que refletir sobre a natureza mais profunda das manifesta??es atuais, procurei o caminho do ac?mulo das tens?es urbanas como um fen?meno de uma ruptura que acontece nos ciclos de acomoda??o/rejei??o que se formam ao longo de um determinado tempo social e vai redefinindo o perfil de cada gera??o.

Repassando os diferentes ciclos das manifesta??es de jovens que ocorreram no Brasil nos ?ltimos quarenta anos, torna-se claro as diferen?as de cada ciclo. Da tens?o da ditadura, nos anos 60, surgiu a explos?o do grito de liberdade que se expressou fortemente nas ruas entre 1966/1968. Vinte anos depois, volta o clamor das ruas atrav?s do movimento estudantil, primeiro, pelas ?Diretas? e depois pelo impeachment de Collor. S?o momentos raros em que a voz das ruas coincide coma a articula??o de diversas institui??es formais como partidos, Igreja cat?lica e parte do parlamento; institui??es que tamb?m procuravam superar o ciclo autorit?rio de 64, e, no segundo momento, impedir a continuidade do desequilibro moral do primeiro presidente eleito.

Duas d?cadas depois, parece que se assiste o nascimento de uma nova gera??o, sem propostas pol?ticas nos moldes das que o s?culo XX acostumou-se a ver. Uma gera??o que nasce das tens?es cotidianas que provocam o esgar?amento do tecido social, de um lado, e, de outro, certo esvaziamento da legitimidade das institui??es do Estado e das representa??es pol?ticas.

Na segunda feira 17 de junho, o movimento ganhou o car?ter de massa, com mais de 500 mil pessoas na soma de todas as manifesta??es. As consignas foram ampliadas para verbas para educa??o, contra o desperd?cio do dinheiro da copa e contra corrup??o. Tudo j? estava presente na virtualidade das redes. De verdade, as manifesta??es sa?ram das redes para ganharem as ruas e mostraram que os liames sociais n?o mais s?o comandados por sujeitos hist?ricos como partidos ou ideologias, mas respondem ?s tens?es do cotidiano e da busca por uma cidadania na vida real. ?Depois de ler os diversos artigos nos jornais do fim de semana, tirei da estante o cl?ssico ?Cr?tica da modernidade? de Alan Tourraine onde, j? nos finais dos anos 80, o velho soci?logo franc?s mostrava a crise dos chamados ?sujeitos hist?ricos, socialmente determinados, que dominaram a cena at? as ?ltimas d?cadas do s?culo XX.

3 Comments

  1. José Arlindo, é um prazer ler um artigo seu, embora hoje seja 21 de junho, após a fala da presidente (sem o ¨a¨ final, que é uma aberração autoritaria) na TV, e você escreveu o artigo acima no início da semana. Quero apenas destacar a diferença no seu artigo em relação a muitos que tenho visto: a) é um artigo de um cientista social que já foi militante político – conhece a dinamica dos movimentos sociais, ja participou deles, conhece o modus operandi de suas lideranças; b) sabe diferenciar o que depende de nós, das lideranças, e o que não depende de nós, tem vida própria; c) foi governo e militante de governo democrático, fez e aconteceu (veja-se o Orçamento Participativo).
    Aguardo seus comentários mais completos, com a evolução destas manifestações.
    Um forte abraço
    Afranio

  2. Velhos atores do nada, tipicamentes farsantes e super comprometidos com tudo que aí está estabelecido, nada têm a dizer de util e positivo, no momento, pois quando tiveram suas oportunidades de atuar positivamente não o fizeram! melhor é ficarem nas suas insignificâncias. Pois o mundo atual há muito passou de ser facilmente feito de bobo!

  3. José Arthur padilha, desculpe, mas, sinceramente, não dá para entender o seu comentário agressivo e sem conteúdo, a não ser por raiva pessoal que você nutra por José Arlindo. A análise feita no artigo caminha numa direção semelhante à que vem fazendo grande parte de pensadores de esquerda, não vinculados ao PT ou a outros paridos que hoje comandam o país e participam das alianças de poder e usufruem das benesses distribuídas por fidelidade. Não há como negar o estresse provocado pelo cotidiano urbano, a difícil capacidade de locomoção dos moradores, a insegurança e o medo da violência e a baixa qualidade dos serviços sociais básicos, e também, existe um sentimento reprimido e bastante explosivo provocado pela frustração de sonhos acumulados de uma sociedade melhor. Onde errou Arlindo? Numa sociedade democrática, ideias se discutem. as agressões caem bem na falta de argumentos.

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