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Penso, logo duvido.

Paralelas – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

José Hamilton, tinta acrílica, 33x46 cm. 2000. Esboço: Lápis grafite.

José Hamilton, tinta acrílica, 33×46 cm. 2000. Esboço: Lápis grafite.

Na medida em que o lápis corria sobre o papel branco, Ela se observava em formação, admirando o movimento mágico e criativo que lhe dava forma e vida. Concluído o movimento, Ela se olhou, linda e esguia, longilínea e elegante. Virou para a direita e se viu totalmente solitária naquele espaço vazio. Sentiu uma angústia! “Que estou fazendo aqui, sozinha?” Antes que a solidão dominasse, ouviu um chamado do outro lado. Estava longe, mas podia ver que tinha uma amiga e isso já dava sentido à sua vida. Ela percebeu pela conversa que a amiga era um pouco mais velha e importante, conhecia bem o ambiente e tinha uma filosofia sobre o mundo e a existência. “Veja, jovem”, disse a nova amiga, “nossa vida é meio monótona e, às vezes, mesmo triste, mas nós somos muito importantes para o nosso criador, damos forma às suas fantasias e aos seus projetos. Podemos até pensar que nossa vida é inútil, mas não é. Sem nós, ele faria o que?”

Ela não entendeu muito bem o que dizia a amiga da esquerda e enquanto tentava interpretar aquelas palavras sobre criador e razões da existência, notou o aparecimento de mais uma no outro lado. Era mais nova que ela e muito parecida, como se olhasse num espelho; estava um pouco mais perto, embora não pudesse tocá-la. Tentou se aproximar e estabelecer uma comunicação, porém não teve resposta. Pior, não conseguia se mover e sair do lugar, imobilizada no espaço. “Não podemos nos tocar?”, perguntou Ela à amiga mais madura da esquerda. “Claro que não, garota. Nós somos paralelas!” Ela, obviamente não entendeu. “Somos o que?” A amiga tentou encontrar uma forma menos dolorosa de explicar. “Escute! Nós estamos em duas trajetórias fixas e paralelas; isso tem uma grande vantagem: vamos estar sempre próximas; o preço disso, minha jovem, é que não podemos jamais nos tocar. Quer dizer, podemos nos encontrar apenas no infinito”.

Agora é que Ela não entendia nada mesmo. Tinha uma amiga na esquerda, uma nova e silenciosa, semelhante, à direita, e, no entanto, não podiam se encontrar, se abraçar, ou mesmo brigar. “Como pode ser?”, se perguntava, inquieta e revoltada com a situação. “O que ela quer dizer com ‘se encontrar no infinito’?” Enquanto pensava, tentava se inclinar para a esquerda buscando uma maior proximidade com a amiga. Em vão! Não conseguia reduzir a distância, e a amiga, percebendo o seu esforço sobre-humano, ria tanto que a fazia sentir-se humilhada. Houve um mal-estar entre as duas e um longo silêncio que parecia levar a um rompimento daquela frágil amizade proibida de um abraço ou um simples afago carinhoso.

A amiga retomou a conversa, quebrando o gelo transitório: “Minha jovem, a nossa vida é muito boa. Temos que deixar de lado as ambições e deixar o nosso criador desenhar o nosso futuro. Tenha paciência. Quem sabe, logo você ganhará um parceiro, pleno de curvas e elegantes movimentos cruzando seu corpo longilíneo. Minhas chances são menores, sou mais antiga e…. você sabe, como estou na extremidade, sou apenas o suporte para a organização do espaço que permite as fantasias e as estruturas lógicas do criador; assim, sou importante mas também não sou nada”.

Enquanto ouvia o discurso conformista da amiga, Ela pensava, melancólica, no seu destino. Não aceitava a submissão aos experimentos de ninguém, fosse lá quem fosse este criador que a amiga citava todo tempo. “Encontrar os outros só no infinito? Se é assim, quero ir para o infinito. Aqui, parada, distante, sem o contato físico? Não, não quero”, falou Ela interrompendo o discurso da amiga. Esta pensou um pouco e logo voltou ao seu proselitismo:

“Não se angustie, minha amiga. Você é a expressão dos planos do criador, que deve estar reservando algo mais para cruzar sua vida, tem chances de aventuras com curvas para cima e para baixo, numa interação e movimentos encantadores”. Como Ela insistia, reclamava, gritava que não queria ser instrumento do plano de ninguém, a amiga foi se irritando, tapava os ouvidos, pedia silêncio. Não adiantava, Ela tentava se mover, se curvar, ou correr na direção do infinito. No auge da tensão, a amiga gritou: “Cala a boca, ingrata. Se não ficar quieta e se resignar com o papel que a vida te oferece, sabe o que vai acontecer? O criador vai te apagar, passar a borracha e… pronto, será nada outra vez”.

Quando a amiga acabou seu discurso, Ela sentiu um movimento sinuoso sobre seu corpo, passando para um lado e voltando outra vez como se fosse abraça-la. Parecia que o criador a tinha escutado e oferecia companhias, silenciosas, mas envolventes e cheias de curvas, belas e sensuais. Ela começou a sentir uma enorme euforia percebendo que poderia sim ser parte de uma composição, mais do que apenas ser uma paralela no espaço, ser um pedaço de um todo. Olhou em volta e gostou, gostou muito. Não falou nada, mas percebeu que já não estava isolada, e que agora não era apenas uma linha perdida com a vã esperança de um encontro no infinito. Estava enlaçada com outras e este enlace formava um belo e elegante conjunto. “Eu sou uma obra de arte”, pensou emocionada. Olhou para a amiga paralela e gritou: “Vê, eu agora sou uma obra de arte, minha querida amiga”.

Houve um longo silêncio. Ela achou que a amiga tinha sido apagada. Virou para a esquerda e viu que ainda estava lá, solitária, nenhuma curva a tinha envolvido e parecia deslocada do conjunto de formas que agora tinha vida e movimento. Mas a amiga desdenhava do entusiasmo dela, e, com um sorriso melancólico e tolerante retrucou: “Desculpe desaponta-la, mas você não é nada, minha amiga, ninguém nota você neste mundo. O que importa é o conjunto, a composição, não uma mísera e feiosa linha perdida no espaço branco. Você é apenas uma parte, insignificante pedaço de uma obra de arte”.

De início, Ela não entendia porque a repreensão da amiga e resmungou baixinho: “Sem mim também não haveria nenhuma composição, ora bolas!”. Ela notou então que a fala da amiga foi perdendo brilho e seu olhar expressando uma enorme tristeza e dor, como numa despedida. “Vê, voltou a falar a amiga, agora que ele terminou a sua obra, estou sendo apagada, já não tenho nada a fazer nesta composição. Mas eu fui o traço inicial para o seu impulso criador. Sem mim não existiria você nem essas jovens curvilíneas enroscadas, não existiria esta bela composição”. A voz da amiga ia desaparecendo aos poucos, desolada, porém plena de resignação. Ela ainda tentou em vão manter o diálogo: “Espere! Espere! Vamos nos encontrar no infinito?”.

2 Comments

  1. Sérgio
    Fantástico o texto.
    Acho que deveria abandonar essa coisa enfadonha de planejamento e dedicar-se à literatura.

    • Grato pelo elogio e pelo conselho, meu caro Fausto. O problema é que ninguem me paga para escrever contos. Funciona como uma terapia. Como gostou, vou publicar o que for escrevendo embora apenas os mais curtos. Grande abraço, Sergio

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