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Plisetskaya e o stalinismo – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

A bailarina russa Maya Plisetskaya, considerada uma das maiores dançarinas do século 20.

A bailarina russa Maya Plisetskaya, considerada uma das maiores dançarinas do século 20.

Maya Plisetskaya, uma das maiores bailarinas do século XX, morreu na semana passada em Munique com quase 90 anos. Maya Plisetskaya foi a primeira bailarina do Ballet Bolshoi com formação no ballet clássico russo, mas ousou interpretar peças contemporâneas, entre elas a inesquecível interpretação do “Bolero” de Ravel com coreografia de Maurice Bejart. Com 48 anos, praticamente sozinha no palco, ela apresentou um espetáculo emocionante com a conhecida música de um único movimento e melodia uniforme e reptitiva. Suas mãos dançam e seu corpo flutua acompanhando o andamento crescente da orquestra.

Com nove anos, Plisetskaya foi admitida na escola do Ballet Bolshoi e com onze anos já participava de importantes papeis no repertório da escola. Em 1937, com 12 anos e já surgindo como uma promissora bailarina, seu pai, Mijaíl Pliesteski, engenheiro judeu e comunista, foi preso e executado pelo regime de Josef Stalin. E sua mãe, uma atriz de cinema que fez parte do famoso grupo de teatro russo-judaico, foi presa no ano seguinte e enviada para um campo de prisioneiros e trabalho forçado no Casaquistão, morrendo pouco antes da segunda guerra mundial. A jovem bailarina, orfã de pai e mãe, foi viver com seus tios, Salomé Messerer, também bailarina do Bolshoi e Asaf Messerer, bailarino e professor de ballet.

Plisetskaya viveu um período negro da história da União Soviética e um dos mais violentos da historia contemporânea da humanidade, comparável aos crimes do nazismo alemão. As grandes lideranças políticas do governo e do Partido foram executadas com base na farsa dos chamados Processos de Moscou, de 1936 a 1938, torturando, humilhando e executando todo o Comité Central do Partido Bolchevique, velhos e históricos comunistas (Trotsky só não foi preso por ter sido antes expulso do país, mas terminou assassinado em 1940 no México por agente de Stalin). A partir de 1936, Stalin fundou o Estado policial e implantou o terror na União Soviética com perseguição de milhares de opositores e lideres no partido e fora dele que pudessem constituir obstáculo à ditadura stalinista.

Mesmo neste ambiente de repressão, o ballet continuava sendo uma das grandes expressões artisticas e com enorme prestígio na população. Mas Plisetskaya foi morar com seus tios Sverdlovsk a 1.400 quilômemtros a leste de Moscou, isolada do mundo artístico e político. Durante a guerra, com 18 anos, Plisetskaya voltou Moscou e foi reintegrada ao corpo de ballet do Bolshoi. Naquele ano, a União Soviética conseguiu romper o cerco de Stalingrado (hoje Volgogrado) pelos alemães numa das batalhas mais sangrentas da segunda guerra mundial a cerca de 900 quilômetros ao sul de Moscou.

Não há informação sobre a postura de Plisetskaya em relação ao regime stalinista, mas, ao que parece, os dirigentes comunistas a viam com desconfiança, provavelmente pela história política dos seus pais. Apenas em 1959, já na era Kruchev, com 34 anos e já mundialmente conhecida, ela conseguiu autorização do governo soviético para viajar ao exterior em apresentações com o Ballet Bolshoi nos Estados Unidos, na França, Reino Unido e Itália. Vale lembrar que, seis anos antes, Nikita Krushev tinha assumido o poder na União Soviética, surpreendendo o mundo, em 1956, com as denúncias dos crimes de Stalin no XX Congresso do Partido Comunista.

Desde então, Maya Plisetskaya tornou-se uma grande estrela internacional. Morou no exterior, na Espanha, onde foi diretora da Companhia Nacional de Dança, na Itálida, tendo sido diretora de Ballet de Ópera de Roma, e ultimamente em Munique, Alemanha, onde faleceu. Mas continou sendo a grande bailarina russa.

2 Comments

  1. Sergio C. Buarque, traz até nós, como uma bela aula, fatos que a grande maioria desconhece. Além dessa fase da história onde mostra como foi o regime naquela época, até se chegar as denúncias de Nikita Krushev, nos apresenta a bailarina Maya Plisetsakaya, que só em 1959, foi liberada para apresentações internacionais. Maravilha!

  2. A crueldade do regime stalinista não foi diferente do nazista, mas aqui no Brasil sempre foi escondido pelos comunistas de todos matizes. Ainda hoje, muitos comunistas defendem o regime stalinista, o ¨pai dos povos¨, e outros não percebem o caráter totalitário nas teses básicas do marxismo. Os ventos democráticos que varreram a Europa com a queda do Muro de Berlim (e antes, um pouco) não chegaram por aqui.
    O sofrimento desta bailarina que o Sergio Buarque relata é comovente, um retrato da vida de uma grande artista que só queria brilhar.

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