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Penso, logo duvido.

Quem não é Charlie? Ou, A culpa é da vítima – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

Sala de Tortura da Santa Inquisição, onde os padres do Santo Ofício exerciam o “sagrado dever” de torturar o outro até a morte pelo bem da salvação da alma do torturado. Interrogation in Jail - MAGNASCO, Alessandro (b. 1667, Genova, d. 1749, Genova).

Sala de Tortura da Santa Inquisição, onde os padres do Santo Ofício exerciam o “sagrado dever” de torturar o outro até a morte pelo bem da salvação da alma do torturado. Interrogation in Jail – MAGNASCO, Alessandro (b. 1667, Genova, d. 1749, Genova).

Nesta semana, circulou na rede social da internet um texto do Padre Antonio Piber, divulgado pelo teólogo Leonardo Boff, com o título “Eu não sou Charlie”, no qual analisa o atentado ao semanário Charlie Hebdo. Na contramão da solidariedade com o semanário e da condenação do atentado, o artigo levanta argumentos e conceitos bastante duvidosos. Na apresentação o teólogo diz que o atentado foi uma “resposta a algo que ofendia milhares de fiéis muçulmanos”. Mesmo rejeitando o terrorismo (esta resposta à ofensa), o Padre parece dizer que o culpado do atentado foi o semanário por “criar as condições psicológicas e políticas que levem alguns radicais a lançarem mão de meios reprováveis sobre todos os aspectos”. Em outras palavras, a culpa é da vítima. Parece o discurso dos mais reacionários machistas que acusam as mulheres pelo estupro na medida expõem a sensualidade e partes do corpo, provocando assim a tara masculina. Os homens, coitados, explodindo de testosterona, não têm culpa de atacarem e estuprarem as “provocadoras”.

 

De acordo com o Padre, as “charges polêmicas do Charlie Hebdo (…) são perigosas, criminosas até” e acrescenta que “com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas”. Curiosamente o artigo cita o poeta Jean de Santeul que diz: “os costumes são corrigidos rindo-se deles”, o que, no fundo é uma defesa do humor como uma ferramenta para a mudança social. O texto contém uma contradição com a sua tese central – “piadas são sempre preconceituosas, ela transmite e alimenta o preconceito” – quando compara o Charlie Hebdo com o nosso Pasquim que utilizou a irreverência, o humor e a caricatura para atacar a ditadura militar e criticar com ironia a política, a sociedade e os costumes brasileiros. Por que o Pasquim podia e o Charlie não? E por que podem ainda hoje os humoristas e cartunistas no Brasil ironizar com autoridades, instituições e pessoas? Será que o Padre nunca leu a coluna do Macaco Simão, cheia de ironia e, muitas vezes, com claras grosserias? E se leu, acha que a coluna deveria ser proibida e entenderia que alguém “ofendido” com a ironia matasse o humorista?

 

O que mais surpreende no artigo do Padre Piber é a acusação de intolerância por parte do semanário porque teria desrespeitado um princípio caro ao islamismo, ou seja, que o profeta Maomé não pode ser retratado. Como assim? A intolerância não foi de um grupo de fanáticos que pretende obrigar a todos os cidadãos e jornalistas a seguirem seus princípios? E que matam os que não se submetem aos seus preceitos, mesmo que tenham outra religião ou mesmo nenhuma? Ninguém é obrigado a se submeter aos princípios doutrinários de nenhuma religião, cada uma com suas normas e rituais, principalmente em um Estado laico e numa sociedade múltipla. O artigo diz ainda que “a maneira como semanário retratava os mulçumanos era sempre ofensiva”. Trata-se de humor, padre, ironia que sempre incomoda aos que são ironizados e ridicularizados. Lembra de Stanislaw Ponte Preta com as crônicas arrasadoras da ditadura militar no chamado FBAPA – Festival de Besteira que Assola o País?

 

A conclusão da análise do Padre é a defesa de alguma forma de censura, embora afirme que “não estou defendendo a censura prévia”. No entanto, o artigo fala que já existe censura na medida em que “você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa”. Dois esclarecimentos: a piada e o humor não são calunias embora possam até ter um efeito negativo sobre a imagem das pessoas. Não confundir uma charge mostrando o Profeta Maomé de alguma forma ridícula com um texto acusando-o de ser ladrão, vigarista, pedófilo ou coisa pelo estilo, aí sim uma calúnia. Segundo, o cuidado para evitar difamação não é uma forma de censura prévia mas apenas uma advertência para os riscos de mentiras e calúnias contra alguém ou alguma instituição. Todos os países civilizados, inclusive o Brasil, têm uma legislação que pune a calúnia e a agressão a instituições e pessoas através do julgamento da Justiça. Mas parece que o Padre Piber não acredita na justiça, nem a brasileira nem a francesa, quando afirma que os tribunais franceses seriam “famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerância”, lembrando o Caso Dreyfus, julgamento do final do século XIX. Como se o direito, a justiça e mesmo a sociedade que a legitima continuassem as mesmas ao longo dos séculos. Essa referência a comportamentos passados para caracterizar as instituições atuais poderia nos levar, no limite, a dizer que a Igreja Católica, da qual o articulista é um legítimo representante, ainda carrega a marca da violência e do obscurantismo da Inquisição e das Cruzadas que atacaram e massacraram os infiéis e ímpios muçulmanos. Se a justiça não merece crédito, por ser xenófoba e intolerante, quem pode julgar os conflitos entre os humoristas e os que se sentem ofendidos? As igrejas, com seus dogmas obscurantistas? Ou as imperfeitas instituições criadas pelo Iluminismo?

 

“Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista”, afirma o Padre no referido artigo, simplificando a linha editorial do semanário que não poupa ninguém, nenhuma religião, nenhuma ideologia, atacava a própria cultura (ocidental e francesa), sendo seus cartunistas muito mais anarquistas e herdeiros da revolução de 1968 da França contra toda forma de tirania e autoridade. Claro que a autoridade e os dogmas religiosos constam da pauta deste semanário na critica aos costumes de todas as categorias. Finalmente, o que alimenta e incentiva a islamofobia não são as piadas e ironias de um jornal com uma tiragem de apenas 60 mil exemplares, mas sim a ação terrorista de fanáticos que, sem representar a esmagadora maiorias dos muçulmanos, assume o atentado como uma reação em defesa do Profeta. Excetuando a direita radical, que pretende aproveitar esta irresponsabilidade fanática para alimentar a xenofobia, a esmagadora maioria dos franceses mostrou discernimento e tolerância nas manifestações e declarações separando com clareza a comunidade islâmica dos terroristas.

3 Comments

  1. Caro Sérgio: Seu artigo expõe muito do que eu teria a dizer. Portanto, faço apenas algumas adições ligeiras. O que me parece mais absurdo nesses que direta ou indiretamente justificam os atos de terror recentemente ocorridos em Paris é a desproporção aberrante entre estes atos de terror indefensável e as analogias que propõem. Muitos desses padres, que são antes de tudo diretores de consciência, têm saudade dos tempos em que a fé era assunto de Estado e assim servia como instrumento e justificação de horrores como a Inquisição, destacada no seu artigo, e o genocídio que varreu milhões em nome da fé. O processo de secularização promovido pela modernidade de inspiração iluminista, projeto que endosso e por isso lamento que entre nós seja ainda tão incompleto, assegurou, depois de muito conflito e sangue derramado, conquistas como os Direitos Humanos e outras que asseguram a liberdade de credo e opinião. Nada disso ocorreu no mundo islâmico. Este é um dos nós da questão. Há muitos outros, já que a realidade é bem mais complexa do que sonham nossas vãs ideologias. Ressaltei alguns deles num artigo que a Será? acaba de postar. Portanto, fico por aqui.

  2. Concordo totalmente com Sérgio C. Buarque. Essa forma do Padre Piber de atribuir responsabilidades é totalmente absurda, errada. Mas é válido buscar responsabilidades ou causas. Está bem difícil combater o terrorismo ao redor do mundo. Nos meus 17 anos de ONU é claro que tive contato com muitos muçulmanos. Digamos que aqueles que encontrei não eram propriamente “muçulmanos comuns” (mainstream muslims), pois eram mais cultos, mais educados, e funcionários internacionais ou diplomatas. Eram tão democratas e tão tolerantes quanto qualquer de nós. E no entanto alguns desses mesmos muçulmanos se preocupam com a forma do culto de algumas mesquitas e alguns imames, que não pregam terrorismo, mas frisam a “união contra os infiéis” como se fossem uma religião perseguida. Em suma, esse assunto é difícil. Mas estou com Sérgio C. Buarque de que é inadmissível reagir com uma caça a muçulmanos, responder à barbárie com volta à barbárie.

  3. Eu sou Charlie, mesmo sendo contrário ao que Charlie publica. Acho suas charges religiosas de mal gosto e blasfemas, mas eles têm o direito de pública-las. E eu que não compre o jornal e diga que eles irão para o inferno por serem pecadores. Se começamos a proibir charges de santos e profetas, depois vamos descobrir sacralidade nos presidentes e depois em todo político.
    Por isso, o artigo Sérgio é muito apropriado. Nos lembra que todo censor é contra censura aquilo em que acredita.
    Cristovam

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