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Penso, logo duvido.

TAXI DRIVER da Boa Vista: lição de sociologia urbana? – Sônia Marques

Sonia Marques

 Robert de Niro em Taxi Driver (1976) – filme de Martin Scorsese.

Robert de Niro em Taxi Driver (1976) – filme de Martin Scorsese.

O deslocamento de um vaso sanitário deu origem à obra de arte talvez mais polêmica do século XX: Fontaine, ready made do influente artista Marcel Duchamp. Quase um século depois, membros do Inferno Coral, torcida organizada do Santa Cruz, deslocaram vasos sanitários no estádio do Arruda, numa performance assassina. Como explicar tal conduta que é apenas episódio de uma cena urbana na qual a violência tornou-se banalidade?

Na perspectiva de Karl Marx (1818-1883), a essência das relações sociais residiria no conflito, na luta de classes. Já Émile Durkheim (1858-1917), preocupado com a coesão social, com o estado normal ou patológico de uma sociedade, desenvolveu o conceito de anomia. Assinalou também os riscos da divisão social do trabalho e da especialização excessivas decorrentes do avanço tecnológico que acarretariam o isolamento, o qual poderia prevalecer sobre a solidariedade e o compartilhamento provocando uma crise da coesão social. Distinguindo-se da visão positivista deste sociólogo francês, seu contemporâneo, Georg Simmel (1858-1918), desenvolveu o conceito de sociabilidade ou das formas de relações sociais através do conceito de sociabilidade. Para ele, a coexistência de indivíduos que desenvolvem relações recíprocas entre si engendraria, em cada um deles, algo que não poderia ser explicado apenas a partir de um. Seguidor de Simmel, Max Weber (1864-1920) assinalou, num de seus estudos mais conhecidos, a relação entre a ética protestante e o espirito do capitalismo. Nesta nova sociabilidade, distinta da tradição católica, a riqueza seria apenas eticamente condenável como tentação para um gozo da vida no ócio e no pecado ou quando obtida com o propósito de uma vida folgada e despreocupada. Resultando do desempenho do próprio dever na vocação, não só? a riqueza seria permissível moralmente, como realmente recomendada.

O que diria Weber sobre a ética dos neo-evangélicos e dos diversos tipos de fundamentalismo religioso florescente nos dias que correm? Como manter um mínimo de coesão social diante de conquistas ilegítimas de riqueza, desigualdades gritantes, de um lado e a impunidade de outro? Se atentarmos bem para o que nos disse Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) seguidor de Weber, este problema não se coloca em solo brasileiro. Aqui, a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou, a “cordialidade”[1], ou seja, a conduta pautada pelo coração, prevalece face à racionalidade. Relações afetivas, compadrio e amizade geram uma informalidade descompromissada com a ética, com a esfera pública e com o respeito pelo outro.

A abordagem de Holanda data de 1936. Passados quase oitenta anos, qual a sua capacidade explicativa para as posturas brasileiras contemporâneas? Será que teríamos de recorrer a noção de habitus de Pierre Bourdieu, (1930-2002) e deslocarmos nosso olhar para o modo pelo qual estas posturas são adquiridas? Seria a nossa violenta cordialidade um princípio gerador e unificador de práticas reprodutoras das estruturas sociais?

No sábado dia 17 de maio de 2014, dois dias após a quinta sem lei que se abateu sobre o Recife, ouvi de um motorista de taxi o relato que transcrevo abaixo. Deixo interpretação com os leitores.

Ele me disse:

0,76

Olhe, tem cada coisa que a gente vê por aqui. Se eu contar à senhora o que acaba de se passar aqui, a senhora não vai acreditar. A mulher chegou para o colega que estava ai na frente e disse a ele que queria ir… A senhora imagina para onde? Para o estacionamento do Shopping!! Dá para acreditar? Num tá nem chovendo…Indo pela rua, dá pouco mais de duzentos metros. Mas, se não quisesse ir andando pela rua, bastava ela atravessar, pegar a escada rolante, atravessar a passarela, nem sol levava. Meu colega fez uma cara feia. Claro, quem é que num faz, numa situação destas? Ela puxou a credencial e gritou… a senhora precisava ver como a mulher gritou, para a rua toda ouvir, para desmoralizar meu colega, para humilhar : Eu sou policial, o senhor pela lei … e recitou lá o numero e a lei todinha…tem obrigação de me levar onde eu quiser, senão vai preso. Ele fez a maior volta, de pista, com automóvel, o caminho é quatro vezes mais longo. Mas estava vazio, hoje, depois de tudo aquilo, quase não tem ninguém na rua. Sabe quanto deu a corrida, minha senhora? Afora os 4 reais da bandeirada: setenta e seis centavos !!

 

Compras

O povo anda doido demais. Peguei outro, com a mulher: duas televisões. Uma grande, telão, outra média, um micro ondas e dois tablets. Disse que a mulher num gosta de sair do quarto para ver o que está no feice. Seis mil e duzentos reais, me mostrou a nota. Para pagar em dez vezes. Entrou dizendo: Mulher é coisa danada, faz a gente gastar dinheiro. Veja o que a gente num faz para agradar. Perguntei para onde era. Zona Norte. Andamos lá pela Rosa e Silva e ele: pode seguir. Chegamos em Nova Descoberta. Pensei que fosse por um lugar todo arrumadinho que tem lá em Nova Descoberta. Que nada. Ele: pode seguir. Chegamos lá pelo Córrego do Curió, num beco e numa descida que eu disse “num boto o carro ai não, desculpe, eu lhe ajudo a tirar e levar as coisa, amigo, mas não dá para ir de carro não”. Ele viu que num dava mesmo, o carro ia virar e as coisas iam quebrar. Olhe, eu fiquei assim, tão espantado que num consegui deixar de perguntar: Meu senhor, qual é a sua profissão? Ajudante de pedreiro, ele disse.

 

Baliza

Olhe, era uma mulher jovem, mas dessas que num tem muita habilidade. Ela estava até botando direitinho, quando eles chegaram e começaram a buzinar. Dai, ela começou a ficar nervosa e ia para frente e dava ré e não conseguia fazer a baliza. Eles eram três. Desceram do carro e cercaram o carro da moça e começaram a gritar e a esculhambar: Sua rapariga, filha da puta. Ela ainda mais nervosa. Fui vendo aquilo e decidi ir lá, perguntei se ela queria ajuda, ela nervosa me deu a chave. Um deles gritou: Que é que é cara? Dando uma de bonzinho? Tás fazendo isso porque tu quer comer essa filha da puta! Olhe, eu parti para cima do cara e disse : Filho da puta deve ser tu, que num tivesse mãe para te educar. Nisso, foi passando a polícia e parou para saber o que estava se passando. Eu disse tudo o que havia ocorrido. O policial perguntou à moça; ela caiu no choro. Não conseguia dizer nada. Eles levaram os caras, para a delegacia, sei lá…

 

Buquê

Olhe, tem coisa que acontece que a gente fica assim, eu num sou bom de palavras, num sei dizer as coisas como devem ser. Eu ia dizendo assim: a gente fica surpreso. Mas, eu acho que é perplexo. Eu fiquei perplexo. Foi por aqui, pelo primeiro Jardim que eu peguei ele. Chamou pelo rádio. Estava todo bem vestido com uma moça e me perguntou se eu sabia onde tinha floricultura aberta aquela hora. Eu disse que sabia, a My Love que fica ali, um pouco mais longe, aberta a noite toda. Deixou a irmã na casa dela, a moça, era irmã dele. E a gente foi lá para ele comprar um buquê. A senhora precisava ver. Que coisa linda: duzentos reais!! Rosas. Ai a gente foi buscar a namorada. Quando ela apareceu, ele ofereceu o buquê. Eu estava impressionado. Ela me perguntou: Moço dá para guardar na mala do carro? A senhora acredita? A mulher receber um buquê daqueles e mandar guardar na mala do carro? Ai, fomos para o Goiamum Gigante, era a noite do amor. Quando chegou lá, ela disse que precisava ir num terminal pagar uma conta. Ele disse para eu levar e que ficava aguardando, tinha reservado mesa. Bastou ele saltar que ela disse: Mas tem muito homem tabacudo mesmo!! Gastar tanto dinheiro em flores!! Eu disse que não achava não, que eu achava que aquilo era bonito. Ela disse, do jeito mais natural do mundo, como se estivesse dizendo a coisa mais certa: O senhor é bunda mole que nem ele? Tome cuidado viu? Vai levar gaia!

 

Salão de festas

Lá no meu prédio tem um cidadão muito arrogante. O síndico é gente da melhor qualidade. A gente fez o levantamento e as datas de aniversário dos moradores não coincidem. Então decidimos: com festa ou não, o salão de festas é do aniversariante. Pois o cabra arrogante decidiu que ia comemorar o aniversário da filha dele no dia do meu. Ouvi falar, fiquei na minha. A gente se cruzava, eu, bom-dia, a mulher dele, bom dia. Ele nem olhava. O boato lá é que ele não gosta de motorista de taxi. Continuei na minha. O síndico veio perguntar se eu tinha a chave do salão de festas. Eu disse: vou olhar, pode ser porque amanhã é o meu dia. Ele disse que o outro queria a chave. Eu disse que não ia fazer festa, mas só por desaforo, ia para o salão de festa nem que fosse para tomar um copo d’água com meu filho. No outro dia, vou passando, sinto aquele dedo nas costas, para falar comigo. Eu continuei, nem liguei. Ele veio para cima de mim, com desaforo e arrogância que já tinha encomendado o bufê da festa da filha, que não era por causa de um merda de um motorista de taxi que ela não ia ter festa… Meti-lhe o bofete na cara. Fiquei com aquilo assim, pensando, mas, não é assim, tem hora que a gente não aguenta mais, perde a cabeça. Imagine a senhora o que é o mundo. Quando voltei para casa, estava a filha dele que, eu não sabia, é a melhor amiga da minha filha. Chorava, chorava que chorava. Que não ia mais ter festa de quinze anos porque o pai tinha contratado um bufê, mas era muito grosseiro, ai tinha brigado com outro morador que meteu um murro na cara do pai! E chorava e ai me pediu: Será que o senhor não podia ir falar com esse morador? Vai que ele ouve o senhor. Olhe, quando eu ouvi aquilo… Eu não posso nem falar direito, olhe, toda vez que eu me lembro, dá vontade de chorar…(olhos cheios de lágrimas). Meu arrependimento.. Eu disse a ela: Você vai ter sua festa. Telefonei para a mãe dela: Olhe fui eu quem deu o murro em seu marido. Sua filha vai ter a festa dela. A mãe? O senhor é o pai da melhor amiga da minha filha? Toda surpresa. Depois disso, fala sempre comigo, agradecida. O pai? Num quer me ver preto.

 

[1] Sobre as inúmeras interpretações equivocadas do termo remeto a escrito de Fernando Motta em número anterior desta revista e, em particular, ao comentário de Homero Fonseca.

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