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Penso, logo duvido.

Um encontro no bar Savoy¹- Teresa Sales

Teresa Sales

Pierre-Auguste Renoir, Le Moulin de la Galette (1876).

Pierre-Auguste Renoir, Le Moulin de la Galette (1876).

?Na Avenida Guararapes,

o Recife vai marchando.

O bairro de Santo Ant?nio,

tanto se foi transformando

que, agora, ?s cinco da tarde

mais se assemelha a um festim,

nas mesas do bar Savoy,

o refr?o tem sido assim:

S?o trinta copos de chope,

s?o trinta homens sentados,

trezentos desejos presos,

trinta mil sonhos frustrados.

(Carlos Pena Filho)

Eram seis horas da noite de uma ter?a feira de julho de 1956. A chuva fina e intermitente que molhava ruas e cal?adas marcava o final do expediente, com guarda- chuvas a se atrapalharem uns nos outros. Jo?o chegou antes e foi cumprimentado por v?rios que o convidaram para sentar ? mesa. Ele preferiu uma ainda n?o ocupada, para o t?o esperado encontro com Josu?.

Nas trocas de telegramas e dif?ceis telefonemas, conseguiram definir dia e local. Josu? de Castro era ent?o deputado federal por Pernambuco, pelo PTB, licenciado para assumir a presid?ncia da FAO em Roma. Jo?o Cabral de Melo Neto, poeta e diplomata, havia sido nomeado C?nsul Adjunto em Barcelona. Estava morando em Sevilha, para realizar uma pesquisa hist?rica no Arquivo das ?ndias.

Jo?o Cabral vestia um terno branco. Cabelo escuro e repartido de lado, com seu ar s?rio e compenetrado, por?m de sorriso aberto para os que o reconheceram. Josu? de Castro chegou logo em seguida, igualmente elegante em seu terno escuro. Aparentava mais formal, usando ?culos e cabelos penteados com rigor. N?o foi dif?cil reconhecer Jo?o Cabral, por?m seu p?riplo at? a mesa foi mais dif?cil, cumprimentando uns e outros. Cumprimentou o poeta diplomata apenas com um aperto de m?o. O abra?o dos dois aconteceu na despedida.

O que teriam conversado o m?dico-soci?logo e o poeta? Em outra cadeira da mesa, com chap?us e guardas-chuvas dos dois, um terceiro personagem, motivo do encontro: a cidade do Recife.

Jo?o Cabral de Melo Neto j? havia publicado a trilogia sobre o Rio Capibaribe (O C?o sem Plumas; O Rio; Morte e Vida Severina) e outros de seus poemas sobre o Recife. Josu? de Castro, antes dele e com menos repercuss?o, tamb?m escrevera sobre o Recife. Os primeiros escritos, entre 1935 e 1937, foram a semente para o ensaio Fatores de Localiza??o da cidade do Recife, publicado em 1948.

Mais velho, Josu? de Castro (quarenta e oito anos) vinha acompanhando a poesia de Jo?o Cabral desde O c?o sem plumas. Jo?o Cabral (trinta e seis anos), por?m, s? conhecia de Josu? de Castro seu livro mais famoso, Geografia da Fome. Ao acaso, na biblioteca da Faculdade de Direito do Recife, onde estava complementando a pesquisa hist?rica principiada no Arquivo das ?ndias em Sevilha, Jo?o Cabral acabara de ler os ensaios de Josu? de Castro sobre o Recife. Tinha urg?ncia no encontro. Como escrevera o tr?ptico do rio Capibaribe sem ter passado por Josu? de Castro? Este, por sua vez, n?o mediu esfor?os para que o di?logo acontecesse.

A conversa se prolongou at? o ?ltimo gar?om. Nunca tinham se encontrado pessoalmente. Sabiam um do outro apenas pelos escritos. Mesmo sendo Josu? um grande missivista, nem sequer chegaram a se corresponder.

Ningu?m soube o que conversaram. Nenhum dos dois publicou nada a respeito desse encontro.

Na mesa vizinha, por?m, um jovem de vinte e nove anos ouvia com muita aten??o a conversa. Joaquim Roberto Corr?a Freire, ou simplesmente Roberto Freire, m?dico formado pela Universidade do Brasil, a mesma onde se formara m?dico Josu? de Castro, trabalhara como bolsista do Brasil no exterior de 1948 a 1954. Sua trajet?ria de vida tinha algo de semelhante ? de Josu? de Castro: abandonara a carreira de m?dico, depois de publicar artigos sobre endocrinologia experimental em revistas especializadas brasileiras e francesas, para se dedicar a outras ?reas.

Naquele dia do hist?rico encontro entre Jo?o Cabral e Josu? de Castro, Roberto Freire estava no Recife por um par de dias para fazer a cobertura de um evento para o jornal onde trabalhava. O Recife de ent?o fervilhava na vida cultural e pol?tica. Roberto Freire n?o era ainda o psicanalista inovador, o dramaturgo, o escritor que ficaria conhecido em todo o Brasil. Disfar?ava a bisbilhotice ?lendo? o Di?rio de Pernambuco, que pousava com frequ?ncia na mesa para mais um gole de chope e para observar melhor a fisionomia dos dois. Fez anota??es ? margem do jornal e guardou, vislumbrando que um dia seriam ?teis.

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O grupo teatral da Pontif?cia Universidade Cat?lica de S?o Paulo, o TUCA, n?o encenaria Morte e Vida Severina sem ler, estudar e discutir o poema de Jo?o Cabral e parte da obra de Josu? de Castro. Fizeram eles o segundo encontro dos dois, em 1965, sob a lideran?a de Roberto Freire. T?o forte foi o di?logo Jo?o/Josu? propiciado pelo TUCA, que toda cobertura jornal?stica da pe?a no exterior reproduziu trechos de Josu? de Castro para explicar o poema de Jo?o Cabral.

[1]Parte da Introdu??o do meu livro Jo?o Cabral e Josu? de Castro conversam sobre o Recife, no prelo pela Cortez Editora, S?o Paulo.

 

7 Comments

  1. Teresa:
    Fascinante este registro que você narra em tom de crônica de um encontro tão importante e ignorado. Além de reunir duas personagens fundamentais da história cultural e política do Brasil em meados do século passado, acrescenta uma testemunha e participante da história daquele período. Refiro-me, claro, a Roberto Freire, autor do romance Cléo e Daniel e vários outros livros que fertilizaram minha imaginação existencial e a de muita gente da minha geração.

  2. Oi Fernando,

    O encontro é ficção. Deixo que responda ao teu comentário Renata Pimentel, que escreveu o prefácio do livro:

    “Estamos diante do encontro que parecia inevitável de tão afinados os olhares que aqui se põem na mesma mesa: se for rio de Recife, é sinal de poesia, mas também de todo um universo social e de entorno de uma cidade que se ergueu às margens de dois grandes rios (Capibaribe e Beberibe) e sobre imensas áreas de aterro de mangue, esse microuniverso tão particular.
    E mais, estamos diante do encontro entre a leitora-autora Teresa Sales e sua pessoal história da leitura, que põe outra ordem na história, inserindo um episódio que nela faltava: o encontro pessoal e amistoso, para uma boa prosa, entre o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto e o médico, geógrafo e político Josué de Castro, no famoso e infelizmente extinto Bar Savoy (na Av. Guararapes, centro do Recife: reduto de boemia e de encontros culturais e poéticos, palco dos versos de Carlos Pena Filho, outro grande poeta recifense), sob os atentos olhares e ouvidos de ‘voyeur’ do dramaturgo e diretor de teatro Roberto Freire.”

    • Teresa: o fato de você me persuadir de que a ficção era realidade é uma evidência do quanto é convincente sua reinvenção ficcional de um certo momento da vida cultural do Recife. Meu engano, portanto, ou minha ignorância, acaba sendo uma forma involuntária de elogio.

  3. Tão interessante que chega a ser fascinante.

  4. Teresa. Você não imagina como seu texto me emocionou. Lição, pois nada sabia desse encontro. O relato mexe com o coração, pois nos leva a pensar o que teria sido esse papo, humanamente e intelectualmente. Achei incrível você ter ilustrado seu texto com o Renoir. Não é que o Moulin de la Galette combinou com o Savoy?
    Beijo carinhoso
    Naza

  5. Viva a escritora que constroi essa ficção emocionante e convincente. Não houve mas poderia ter havido. Valeu!! Naza

  6. Então não foi verdade, amiga Teresa? Mas parecia tanto! Como v. foi convincente!
    Preciso ver o resto da história, leitor e admirador que fui e sou dos dois personagens principais, em seus campos de atividade, igualmente nobres.
    Não digo o mesmo do terceiro – o observador furtivo – que, pelo pouco que li dele, não coloco no mesmo plano dos dois notáveis pernambucanos.

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