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Penso, logo duvido.

Uma tarde no Pina – Teresa Sales

Teresa Sales?

Crian?as brincando na praia ? by eric villarosa md 2011.

Crian?as brincando na praia ? by eric villarosa md 2011.

?N?o est? sentindo o cheiro do mar, m?e?? Olho para a paisagem. O mar est? quase seco no quebrar das leves ondas brancas em cima do verde musgo dos sarga?os. A paisagem ? deslumbrante. Um quadro mutante nos v?rios tons de azul e verde, com a moldura fixa em cor pastel, da areia, e verde escuro, das pequenas ondula??es do terreno coberto de rala vegeta??o praieira. Da janela de onde escrevo vislumbro tamb?m p?s de castanheira e folhas farfalhantes de coqueiros. Um privil?gio do Pina, onde ? maior a dist?ncia entre a beira mar e a avenida.

De agora, tr?s horas da tarde, at? o sol se por, ? uma vis?o de para?so. Pena que os enormes e potentes postes, de tanta serventia para iluminar o cal?ad?o e a areia da praia, quebram um pouquinho o encanto da natureza viva.

O cheiro do mar, forte perfume trazido pelo vento, ? hoje o dos sarga?os. Lembro de uma amiga paulistana olhando pela mesma janela: ?O banho de mar n?o vai ser bom hoje porque a praia est? suja?. Fiquei procurando a sujeira e n?o vi. Descobri seu estranhamento e respondi: ?Isso ? somente restos dos cabelos cortados de Iemanj?. Seu dia de cabeleireiro. Como a deusa veio da ?frica, os sarga?os ficam assim parecendo cabelo pixaim cortado rente ? cabe?a?.

Cheiro de sarga?o, cheiro de coentro: avers?o vez por outra comum aos de fora. Meus filhos aprenderam comigo a gostar das coisas daqui, nas constantes f?rias baianas ou recifenses. Perderam o nojo dos sarga?os desde pequenos, vendo o prazer da m?e em pisar no tapete macio. Dentro do mar, brincar de jogar um no outro por??es deles grudadas no corpo. Uma coisa, por?m, permaneceu neles, de nossas f?rias no Guaruj?: a prefer?ncia pelo mar frio.

Os pr?dios j? derramam sua sombra na paisagem, chegando at? quase o mar. Um tecido de grandes listas claras e escuras, desconhecido ao tempo em que o Pina era praia de pescadores.

????????????????? E a alfazema do sarga?o,

????????????????? ?cida, desinfetante,

????????????????? Veio varrer nossas ruas

????????????????? Enviada do mar distante

????????????????? (Jo?o Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina)?

Mais do que o sentido da vis?o, os da audi??o e do olfato s?o os que mais conseguem nos transportar no tempo. O prazer de sentir hoje esse cheiro vegetal, junto com a presen?a benfazeja do filho distante, que um dia foi menino aprendiz desse cheiro dos mares de c?, levam-me ? praia de Pau Amarelo de nossas f?rias, a fam?lia que formamos seu pai, eu e nossos filhos. ?s f?rias da minha fam?lia ancestral, meus pais e irm?os, em S?o Jos? da Coroa Grande, em Rio Doce.

J? n?o sonho com praias desertas onde tomar banho de mar. Porque aqui na minha praia, antes dos arrecifes, longe dos tubar?es, o mar ? prazeroso, principalmente quando est? no meio de seu caminho entre a mar? cheia e a mar? baixa. Da minha janela, o cheiro do sarga?o me transporta aos mares de outrora. E se varo a madrugada lendo, escrevendo, d? para ouvir o barulho das ondas em sua adi??o infinita, no dizer do mesmo poeta, no mesmo poema.

One Comment

  1. Teresa, já te falei que tuas crônicas estão sempre me levando ao passado… Mas na de hoje o passado se fez presente: senti as algas sob meus pés e também o cheiro do mar!

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