Márcia Maria Guedes Alcoforado

Vem pra rua Curitiba - autor desconhecido.

Vem pra rua Curitiba – autor desconhecido.

Admiro muito a sua geração pelo cuidado e zelo com o “outro”, muito particularmente com aqueles que por algum motivo possam ser vistos e tratados de forma diferente, discriminatória ou preconceituosa. Na verdade, considero que de uma forma geral – mas não exclusivamente – as pessoas da sua idade e formação conseguem conviver de uma forma bem melhor com as diferenças entre as pessoas – todas vistas acima de tudo como seres humanos. Isso certamente vai numa linha de construção de uma civilização mais humanista, para onde acredito o mundo se encaminha e assim também o Brasil, mesmo que a passos mais lentos. Somos um país que avança, mas reluta em eliminar renitentes faces de atraso.

Entretanto, espanta-me – bastante – que muitos (não sei avaliar quantos…) de sua geração ainda se pareçam e mantenham discursos tão similares ao de lideranças estudantis pós-ciclo de 64 (década de 80). Nasci em 64, seu pai um pouco antes e fizemos nossa graduação em períodos parecidos, entre 80 (eu 82) e 86. (Lembro que a eleição indireta de Tancredo se deu em 84 e ele deveria assumir em 85).

É natural que nossa geração tenha valorizado tanto a classe política que conseguiu catalisar sentimentos da sociedade e contribuir para tirar o país do regime autoritário, estendido, diga-se de passagem, até o limite da paciência! (Às vezes me questiono porque nós brasileiros empurramos tanto os nossos problemas e possíveis soluções com a barriga!).

Valorizamos particularmente aqueles que se mostraram sempre politicamente combativos contra o regime autoritário (embora muitos deles hoje se mostrem transfigurados, fisiologistas e conservadores, algo que ocorre até mesmo com “novatos” contestadores dos anos noventa: os cara-pintadas). Os maiores líderes de então foram quase idolatrados; nesse rol incluem-se Arraes e Brizola (que, mesmo objeto de críticas, nem de longe podem ter seus erros comparados aos de várias de nossas lideranças atuais). Incidentalmente, no mesmo rol dos mais “à esquerda” está o então líder sindical Lula, ex-operário metalúrgico – hoje essa figura disforme, que responde a pesadas acusações de corrupção.

É curioso, mas o PT é uma herança que nossa geração legou a vocês! Talvez por isso vimos mais “coroas” na rua nas primeiras manifestações pró-impeachment da presidente Dilma. Tivemos um papel muito importante nisso tudo. Será por isso que inconscientemente corremos para consertar?

Os petistas (leia-se Rui Falcão) dizem que se preocupam com o fato de até os políticos da oposição terem sido hostilizados em manifestação recente e “muito preocupados com a democracia” entornam sobre quem os ouve o blá blá blá de “radicalização e fascismo”.

Fomos a todas as manifestações e lhe digo: você deveria ir a uma delas ao invés de ficar acompanhando as mesmas através de postagens de quem pensa numa cor só!

Dar uma volta no meio das pessoas e sentir pelo que a maioria clama! Não há concessões, nem com os políticos que se mostram simpatizantes à causa. Se eles têm contas a prestar à justiça que o façam! O que querem os que vão às ruas pelo impeachment? Querem que o Estado brasileiro não viva de costas para a sociedade e que – qualquer que seja o governo – a ela (sociedade) sirva! Os seus heróis, quem seriam? Bom, com certeza não são mais os políticos que tinham apenas discursos inflamados!!!. Exige-se coerência!!! Jarbas Vasconcelos aqui em Recife foi ovacionado, sabia? Sabe-se que são necessários os políticos, mas com certeza ficarão os melhores e os mais aptos a se reinventar.

Mas o grande idolatrado vem da tua área, um juiz federal de classe média e que é também professor da UFPR, ou seja, um legítimo representante do Estado brasileiro, qualificado e corajoso como há muito não víamos!!! Talvez, e tenho esperança nisso, ele seja só a ponta do iceberg. Quem sabe nossa geração e a seguinte tenham legado ao Brasil (além do PT) uma nova safra de funcionários públicos que façam jus ao nome, que representem a sociedade nesta luta secular, que deem vez de verdade aos desvalidos e aos menos favorecidos!!!

Quem são os que protestam nas ruas contra o desgoverno atual? São famílias inteiras, predominantemente de estratos sociais médios, pagadores de muitos impostos. Não são os que mais sofrem devido à presente crise econômica, mas recebem grande pressão da parte mais baixa da pirâmide social e conseguem visualizar melhor o porquê da situação escabrosa em que nos metemos.

Veja por exemplo os médicos, sobre os quais o governo inicialmente tentou imputar a culpa pelos primeiros sinais da falência na saúde pública – eles estão lá em peso e não à toa, pois apesar de não precisarem para si de atendimentos pelo SUS, sofrem diuturnamente com as mazelas alheias e a completa desumanidade do sistema. Limpam a ferida todo dia, mas ela não fecha e nem melhora. Pouco a pouco adoecem e já se registra um grande número de suicídios entre profissionais da saúde.

Expresso-me aqui filha, com maior detalhe e rigor sobre o que temos visto nas manifestações recentes a favor do impeachment, atendendo ao seu pedido de profundidade no debate e já que parece-me ter você uma ideia tão fechada e pré-concebida com respeito às mesmas.

Li recentemente uma das inúmeras manchetes da mídia internacional, que na tentativa de explicar aos seus estupefatos leitores a situação do Brasil, avaliava estar o país à beira do precipício ou às vésperas de uma ressurreição! Na verdade, acredito nas duas coisas: dançamos à beira do precipício sim, mas ao mesmo tempo temos uma oportunidade ímpar de refazer e a geração de vocês em especial, um poder e uma responsabilidade enormes de influenciar no traçado dessa reconstrução.

Um beijo,

Márcia

(*) Professora do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco.