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Penso, logo duvido.

Dois personagens, um país – Luiz Otavio Cavalcanti

Luiz Otavio Cavalcanti

Entrevista com Luis Inácio Lula da Silva.

Li a entrevista do ex presidente Lula. Olhando o ser humano, o político e o homem diante da grandeza da história.

Como ser humano, li o seguinte: “Vou sair daqui melhor do que entrei. Com menos raiva das pessoas. Eu vou sair um cidadão bom daqui”. Significa que Lula se reconhece melhorado. Que o período em que ele passa na prisão contribui para que ele se torne uma pessoa mais humana. Como ele próprio disse.

Como político, li o seguinte: “Pode ter havido corrupção. Agora, que se faça prova. Teve corrupção, a polícia investiga, faz acusação, prova, está condenado. Fomos nós do PT que criamos os melhores mecanismos para apurar a corrupção”.

Significa que o personagem Lula não mudou. O político Lula mantém a estratégia da negação. Da não autocrítica. Nem pessoal, nem partidária.

Este comportamento revela duas coisas: primeira, que Lula, pessoalmente, quer recriar a história. Quer produzir uma narrativa particular. Sobre si próprio e sobre o país. Segunda, que, partidariamente, o PT vai a reboque de Lula. Está aprisionado à prisão de Lula. O que é uma pena. Considerando a trajetória de um Partido que teve Florestan Fernandes e Paulo Freire como filiados.

Como homem diante da grandeza da história, li um Lula diminuído. Menor do que o Lula que firmou o discurso da política social no Brasil. O Lula da entrevista é um Lula que subtrai pedaço generoso de Lula. Da determinação de enfrentar quatro eleições. Da coragem de arriscar uma biografia em decisões improváveis.

Confesso que esperava uma resposta do entrevistado na dimensão da crise que o país atravessa. Não simplesmente afirmar que este é um governo de “maluco”. Ou seja, faltou altura ao pensar de Lula.

Confesso que esperava um gesto de criatividade política. Ele, que é tão criativo no exercício da atividade partidária. Gesto apropriado a um ex presidente com sua biografia. Não pobremente afirmar que sua obsessão é desmascarar Sérgio Moro.

Senti falta de um Lula maior. Com mais percepção do momento grave que a nação vive. Penso que ele terá perdido a chance de mostrar ao Brasil um Lula amadurecido nas lutas da vida e da política. Um Lula com mãos de oferta. E um coração com a serenidade dos cabelos de prata.

A história é um fio. Cuja continuidade se prolonga no tempo. Por isso, Bolsonaro tem a ver com Lula. Ambos estão colados nas ondas, que vão e voltam, do eleitorado que busca salvação no voto. Ambos estão ligados no discurso populista que dispensa mediação institucional. Com uma diferença: Lula assimilou rapidamente a manha política. E se fez raposa. Bolsonaro recusa a lição. E se mantém estranho à selva política.

Em qualquer hipótese, é necessário que Bolsonaro garanta, como seus antecessores, as conquistas dos direitos humanos e dos valores sociais. Tão entranhadamente vivos no espírito humanista da formação brasileira.

 

2 Comments

  1. Instigante o artigo de Luiz Otavio. Mas me pergunto seriamente se a maioria dos presidiários, dos faltosos, dos culpados, dos incriminados e daqueles a quem alguma dor aflige, não reage da mesma maneira. Não sou a pessoa mais autorizada a fazer esse diagnóstico, mas acredito que o auto-engano, a fabulação de uma narrativa pessoal benevolente para consigo mesmo deve ser condição impreterível para que o sujeito não enlouqueça. João Rego, lá de seu doce refúgio germânico, poderá dizer se me equivoco por completo ou apenas parcialmente. Mesmo porque Lula é eminentemente político (talvez desde sempre), e não candidato a santo.

    Um abraço,

    Fernando

  2. Caros Fernando e Luiz Otávio,
    Sobre a entrevista de Lula escrevi uma breve reflexão, mais curta daí não a publiquei na Será?,na qual utilizo algumas “ferramentas” da Psicanálise para elucidar um pouco o fenômeno Lula.
    Segue abaixo o link

    http://joaorego.com/2019/04/lula-e-o-discurso-histerico/

    Um forte abraço daqui de Heidelberg

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