
Variações sobre a obra de Richard Lindner “Marcel Proust” by J. Rego
Joaquim Nabuco, no volume 1 dos seus “Diários” (Bem-te-vi; Massangana, 2005), deixou-nos esta confissão: “A única coisa de que verdadeiramente eu nunca duvido é do belo”. Proust assinaria embaixo. É que, antes do escritor e do pensador, era-lhe conatural ser um esteta. Não um sistemático teórico da estética, mas um esteta por temperamento, irremediável e instintivo. Aliás, a Beleza estava no ar do tempo e se deixava tomar por autores tão distintos como Oscar Wilde, Baudelaire, John Ruskin, Rainer Maria Rilke ou Rimbaud.
“A vida não é cronológica”, disse Proust, e não o é pelo menos no sentido em que a memória, segundo ele, manifesta-se mais por uma descontinuidade do que por uma continuidade, como lemos em “Proust par lui même” (“Proust por ele mesmo”), do escritor francês Pierre Assouline. Todavia, se nos dedicássemos, por uma hipótese meramente didática, a uma simplificada sequência intelectual da vida de nosso autor, poderíamos enxergar a seguinte ordem: em primeiro lugar, o esteta como acima comentado; em segundo lugar, o sofrido advento do escritor e, por fim, o pensador. Por óbvio, essas fases, que não deixam de ter sua simultaneidade, faz-se presente em vários escritores.
O “sofrido advento do escritor” só terminaria com a conquista do “Prêmio Goncourt”, em 1919, vencido por “À sombra das moças em flor”. Explica-se. O primeiro livro, aos 23 anos, “Os prazeres e dos dias”, embora com um prefácio de Anatole France, não logrou qualquer êxito, e o autor depois o renegaria. Posteriormente, ainda na carreira dos 20, o jovem escritor deixou inacabado o romance “Jean Santeuil”. Finalmente, fora de um pequeno círculo de amigos, “No caminho de Swann” (o primeiro dos sete volumes de “Em busca do tempo perdido”), publicado em 1913, não teve maior repercussão, malgrado ser uma obra-prima… Mas quem poderia imaginar que o outrora delicado frequentador de salões criaria uma robusta obra literária? Por essa, Paris não esperava.
Nessa atropelada trajetória, na qual não faltou a “Swann” a conhecida recusa da Gallimard, ainda sobreviria a “Grande Guerra” (1914-1918), uma descida aos infernos, de onde, longe de se consumir nas chamas, Proust emergiria com o prestigioso prêmio francês (não sem polêmica; veja-se o livro “Proust, Prix Goncourt” (“Proust, Prêmio Goncourt”), de Thierry Laget. Como sabe o povo, há males que vêm para bem. Durante a guerra, o submerso escritor ampliou a sua obra. Estava agora noutra faixa etária: a dos 40, ao fim da qual viria a consagração e, logo após, aos 51 anos, o precoce falecimento. Como ele mesmo escreveu: “Tão raras são as vitórias fáceis quanto as derrotas definitivas”.
Seguindo o didatismo a que nos propusemos, chegamos ao “pensador”. Este é uma espécie de continuidade do ótimo aluno de Filosofia que foi o jovem Marcel no Liceu Condorcet, onde estudou com um mestre notoriamente carismático: Alphonse Darlu, em quem o escritor reconheceria uma duradoura influência existencial.
Não obstante o pensador dispersar-se em sua volumosa correspondência, como testemunhamos no citado livro de Pierre Assouline, será em sua obra-prima que ele, por assim dizer, consolida-se. Por isso, aos leitores de primeira viagem de “Em busca do tempo perdido”, temos um aviso do crítico francês Jean Pouillon: “[…] na obra proustiana não se encontra apenas um tempo da narrativa, mas também um tempo de reflexão. O papel dessa reflexão, evidentemente, é fazer-nos conhecedores das concepções do autor […]” (“O tempo no romance”). É essa voz meditativa que se intercala às inesquecíveis cenas e aos lentos movimentos do enredo, este é como se estivesse mergulhado ou dissolvido nas águas lustrais do pensamento e da sensibilidade. Trata-se de um enredo que não tem pressa de ser enredo!
“Proust é prolixo e minucioso […]. Mas minúcia e prolixidade, longe de serem faltas, tornam-se duas potentes fontes de inspiração”, nos ensina Ortega y Gasset (Cf. “Proust-Monde: quand les écrivains étrangers lisent Proust” (“Proust-Mundo: quando os escritores estrangeiros leem Proust”), organizado por Etienne Sauthier e outros. Essa prolixidade de se cortar de faca, mas nunca ilegível, é a maior barreira ao apressado leitor contemporâneo. De resto, sempre ensejou ironias e piadas. Eis aqui dois divertidos exemplos. Um personagem do romancista mexicano Juan Pablo Villalobos, no livro “Te vendo um cachorro”, usa os pesados volumes do autor francês para… matar baratas! Na Inglaterra, o programa de TV “‘Resuma Proust’, do Monte Python, apresenta competidores que têm dois minutos para resumir o romance de três mil páginas! Naturalmente nenhum bom escritor merece ser resumido, muito menos Proust, que riria dessas brincadeiras e que levou o cômico para diversos trechos do seu livro.
Sem de fato ter sido um filósofo, Proust foi inegavelmente um pensador. A amplitude de sua reflexão abrange grandes temas da condição humana, como o amor, o ciúme, as relações psicológicas e sociais, a memória, o sexo e a exaltação da arte, em síntese: é toda uma antropologia filosófica que se desenvolve ao longo do texto. “Em busca do tempo perdido” é um daqueles livros, como apontou o crítico americano Harold Bloom, onde se pode encontrar a sabedoria.
A inimitável “catedral” proustiana, a exemplo de tantas outras, demorou para ficar de pé e ser inteiramente conhecida (só em 1927, cinco anos após a morte do escritor, a obra seria integralmente publicada). Entre seus caprichos, arcos e volutas, na exuberante forma com que nos dilata a sensibilidade e a percepção, transmuta-se, em mármore literário, o próprio fluxo da vida. Como sabido, dentre seus anjos tutelares, estão um Balzac, um John Ruskin, um Baudelaire, um Saint-Simon, um Schopenhauer, sem falar no lapidar cortejo dos “moralistas franceses”…
Neste 10 de julho, Proust completaria 155 anos. “Ninguém menos morto do que ele”, como disse, e hoje também diria com mais razão ainda, o excêntrico e liberalíssimo Abade Mugnié, amigo e confidente do agnóstico escritor e de vários artistas da Paris da Bela Época.
Muito obrigado por uma excelente reflexão aonde a obra de Proust. Foi um prazer lê-la.
Excelente texto.