Posteridade

Posteridade

“Não é certo que haja posteridade”, escreveu certa feita o poeta Carlos Drummond. Bem, antes de mais nada, convenhamos que a posteridade é praticamente um tema elitista, quase que circunscrito a artistas, filósofos, escritores, estadistas, cientistas e personalidades afins. Sentem eles, por diversas razões, que não é exatamente uma ficção  o “deixar o nome inscrito na História”. Dessa forma, mesmo céticos, pessimistas e niilistas olham por uma fresta em que vislumbram seus nomes e suas obras como algo que, como disse Camões, “se vai da lei da morte libertando”.

Sobre o tema, Terry Eagleton, embora tocando-o de passagem em seu livro “Sacrifício radical”, comenta com irônico realismo: “O fato de que alguém possa viver na memória pública, ou através da sua descendência ou das suas realizações, é uma compensação irrisória em comparação com essa perda [deixar de existir]. Como observou Woody Allen: ‘Não quero continuar vivo no coração dos meus conterrâneos. Quero continuar vivo no meu apartamento’”!

À parte, o gracejo de Woody Allen, notemos que desprezar a posteridade não combina com o habitual apego narcísico que se atribui às próprias obras (senão à vida em si mesma) e que é decerto o primeiro (mas não único) vetor para imaginá-las “imortais” e, portanto, reconhecidas pelos pósteros. Aqui, inspirados no Elias Canetti de “Massa e poder”, ocorre-nos dizer que a posteridade não deixa de ser, também, uma massa invisível de seres humanos e que originalmente se atrela à primitiva noção de descendência. Uma descendência que “tende a aumentar, primeiro lentamente, depois com uma aceleração cada vez maior”. Acertadamente, comenta Canetti: “O sentimento de descendência continua tão vivo como sempre esteve. Mas a ideia de massa se desligou da ideia de descendência e foi transferida à humanidade futura no seu conjunto total”. Eis aí decerto uma boa raiz bio-ontológica para o que chamamos de “posteridade”.

O grande poeta pernambucano Mauro Mota, que pertenceu à Academia Brasileira de Letras, possui, de par com seu telúrico amor pelo Recife, uma obsessão pela posteridade. É um dos motivos condutores de sua poética, à qual não faltam, como se sabe, timbres elegíacos. Mas não nos deteremos aqui, o que demandaria a amplitude de um ensaio, no fecundo diálogo da “posteridade” mauromotiana com seu reverso: o passado, do qual nós, vivos, somos todos pósteros. Pois bem, dentre vários poemas que poderíamos citar, mencionemos o breve e significativo “Trânsito”, que diz assim: “Prisioneiro das lajes / e do musgo, / ainda percebe o trânsito / nas ruas. / Tem um instante só de / visão póstuma / para ver como a vida / continua”.

Veja-se que, nesse emblemático poema, o eu lírico nota que a vida deixada para trás tem, ela própria, algo de eterno, uma vez que… “continua”. A “visão póstuma” é uma insubordinação à imobilidade da morte a que, ironicamente, se associa o próprio título do poema: “Trânsito”. Assim, a morte para o eu apresenta-se mais como uma subtração a uma existência que o descarta do que como uma total extinção. Estamos longe de uma visão da morte como “libertadora”, senão no seu reverso, embora não custe lembrar o místico “tópos” da Terra como lugar de “trânsito”, de passagem, de peregrinação… Enfim, estamos diante de uma típica compactação semântica mauromotiana, em que percebemos o eco e a justeza das palavras de Ezra Pound quando afirmou que “Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”.

Outra (dentre inúmeras, obviamente) personalidade pessoalmente preocupada com a posteridade foi o célebre filósofo e economista Adam Smith. Ele observa, em sua “Teoria dos sentimentos morais”, que sempre foi a imaginação que, incitando ao renome e a gloriosas ações, antecipou para muitos “a fama que lhes seria concedida em tempos vindouros”. Apesar dessa útil e “agradável” perspectiva imaginária flagrada por Smith, haveria, segundo Marcel Proust, de par com ela, uma outra visão, mais materialista e sombria, pois: “Os que julgam duráveis as suas obras — e era o caso de Elstir [pintor e personagem de ‘Em busca do tempo perdido’] — tomam o hábito de situá-las numa época em que eles próprios não sejam mais do que pó. E assim, forçando-os a refletir no nada, a ideia da glória os entristece porque é inseparável da ideia da morte” (Cf. “À sombra das moças em flor”).

Assim, moral e idealmente útil, como parece vê-la Smith, ou tão melancólica como a viu Proust, a posteridade haverá de dizer a última palavra, mas, seja qual for, já não poderemos ouvi-la!