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Penso, logo duvido.

A estranha viagem de Krikor Balabanian – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Bom zagueiro na juventude e entusiasta do futebol viril que se jogava na Faculdade de Medicina, Krikor amava a avó rabugenta que, quase todo dia, tartamudeava as orações em armênio e, invariavelmente, queria saber se ele tinha comido bem. Embora nascida em Alexandria, no Egito, estava mais à vontade com o francês do que com qualquer outra língua, o que não era incomum às pessoas de sua origem e geração. De mais a mais, na verdade, os muitos anos na longínqua Buenos Aires não arrefeceram em nada o fervor que a velha senhora devotava à pátria dos ancestrais, o chão de sismos daquela gente sofrida, mas feliz e combativa. Ela mesma, em seus dias bons, cantava “La Bohème”, de Aznavour – parisiense, mas, ele também, filho de armênios.

Assim, de forma mais retórica do que genuína, dizia que sonhava em ver o Monte Ararat antes de morrer, embora soubesse que as limitações de orçamento e saúde já não lhe permitiriam levar a cabo essa empreitada – se é que era sincera tamanha mitificação. Nessas horas, quando aludia em delírio a uma hipotética viagem que para lá tinha feito na infância – excursão esta negada por todos na família -, o neto lhe dizia que ficasse tranquila, pois ele próprio iria ao Cáucaso quando tivesse dinheiro, e lhe traria num saquinho um pouco da terra bem-amada para que ela a tocasse. “Vou levá-la à boca. E depois, sabes o que farei com ela? Vou colocá-la num travesseiro em que apoiarei a cabeça para sempre”, dramatizava.

Nessas confabulações, que aconteciam quando ele voltava da faculdade e saboreava com apetite o bife à milanesa com salada de batata que ela preparava pessoalmente, a avó se valia da informalidade do momento e lhe dizia que ainda queria conhecer um bisneto. E que, portanto, ele aproveitasse a viagem anunciada a Erevan e, no dia que fosse, trouxesse de lá uma noiva de boa cepa armênia. Mas acrescentava: “Você precisa de pelos no rosto, no peito, nas pernas e nos braços, meu neto. Não sei a quem saiu assim, pelado como uma lagartixa. Já falei a respeito disso com Dr. Bournoukians e ele disse que você fosse vê-lo. Ele é da família, não se acanhe”. E logo mudava de conversa para não ficar desagradável, pois intuía que a chatice era fatal aos idosos.

Krikor sabia que essa asneira se devia à vez em que ela lera na borra do café do fundo da xícara que ele seria uma sumidade profissional, mas que não teria alegria no casamento. Desde que fez essa intrigante constatação – que levava a sério como só a sua gente fazia, posto que essa vidência se eleva quase a arte entre os cristãos mais antigos do mundo -, a velha Arpi lhe pedia para tomar coalhada com alho, devorar quibes crus, mastigar semente de girassol, comer merluza e, se necessário, ingerir hormônios. Isso porque temia que associassem a falta de cabelos pelo corpo a pouca virilidade. E Deus o livrasse de tamanha desdita. Descendiam de generais, afinal. Mas que mulher de verdade haveria de querê-lo assim? “Tonteria, abuelita, tonteria. Ainda te apresentarei uma noiva de sonho”.

Na verdade, desde que o irmão Tigran desaparecera anos antes nas masmorras militares, Krikor sentia que devia à família um feito de impacto que a ajudasse a superar a dor. Formatura, casamento e um filho – eis um bom trio. Muitas vezes se perguntava onde estaria o corpo do irmão amado? No estuário do Prata ou nas águas frias do Atlântico? Como vivera os últimos dias de seu suplício? Como imaginar não ter o irmão mais velho – batizado em honra ao grande enxadrista Petrosian – nos principais momentos da vida? Quanto à matriarca Arpi, meses antes de ela própria falecer, efetivamente conheceu a pretendente de Krikor. E, como os mais avisados já esperavam, torceu o nariz para a bela Carla Sabatini, a dermatologista que logo desposaria o neto médico, se tornando assim a futura senhora Balabanian.

Era mesmo hora de partir, pensava a avó. Tudo que lhe pedira, fora que considerasse uma noiva armênia. Povos pequenos precisam manter as tradições. Não era assim que faziam os judeus? Nem que fosse uma dessas moças da Califórnia, onde morava um tronco importante da família, em Pasadena. Não queria ir tão longe? Então que tivesse ido conhecer o ramo brasileiro, lá no Mato Grosso. Mas ora, isso foi nos anos 1980. De lá para cá, a visita ao monte Ararat ainda não acontecera, mas Krikor se perdoava. Era do jogo. Afinal, assim é a vida. Surgiram prioridades novas e vieram os filhos – pensava o cardiologista entre as tacadas de golfe em Olivos quando, um domingo por mês, confraternizava com o diretor da clínica, o honrado Dr. Gubelkian, antigo professor.

Certo é que, apesar da rabugice, amara muito aquela avó que soubera camuflar a perda de um neto, talvez seu preferido, e, a seu  modo, era bem humorada e carinhosa. Bem mais do que os pais dele que, devastados pela dor do desaparecimento de Tigran, se desuniram e tomaram rumos distintos. Ela foi para a Patagônia e só largava a pintura para uma vinda esporádica à capital, geralmente em torno de um evento das Mães da Plaza de Mayo, já que se tornara amiga da líder Hebe Bonafini desde os primórdios do movimento. O pai, Artur – dançarino de tango e perseverante corretor de seguros -, fora viver na Austrália e de lá lhe acenava com as maravilhas daquela parte do mundo. Dizia que só voltaria quando Tigran reaparecesse. Krikor, porém, era um portenho de quatro costados e era em Buenos Aires que gostava de viver.

*

“Será que lá tem loja da Chanel?”, foi assim que Carla reagiu quando ele anunciou que, afinal, sentia que chegara a hora de fazer uma viagem à Armênia em memória da avó. Se tinha perdido o aniversário do centenário do Genocídio – data mais pungente do calendário da Nação -, quando uma delegação argentina integrada por descendentes esteve em Erevan e foi recebida com honras oficiais, agora algo lhe dizia que o momento tinha soado. Dentro de alguns anos, por certo, o mais longe que gostaria de ir seria até Punta del Este, e olhe lá. A atividade de um cardiologista não dá trégua e a gestão de uma clínica de excelência, muito menos. E, depois, 25 anos passados da morte da avó, mereciam recolhimento e homenagem.

Chanel, ficou remoendo – essa palavra lhe ficou engasgada. Para ser sincero, recebeu a resposta cínica de Carla até com alívio. Se a pré-condição para acompanhá-lo passava pela possibilidade de comprar bolsas de grife, melhor era ele ir só. Como lhe vinha dizendo o amigo Lucho Darín – vulgo “el Brujo”, e tio do mais famoso ator argentino -, Krikor de há muito já não tinha um casamento para chamar de seu. Segundo ele, aquilo era um arranjo neoliberal, uma parceria público-privada, enfim, tudo menos o que ele considerava um matrimônio. Riram com a analogia, mas ele ficara tão mortificado que, alegando urgências, dormiu na clínica e não voltou para casa naquela noite.

Pensando bem, apoios na Armênia não faltariam e ele até se angustiava com os rapapés dos parentes que costumavam exagerar nos ritos de recepção – conforme acontecera aos patrícios, segundo apurou no Clube Armênio de Vicente Lopez. Decidiu, pois, que iria por Paris e que maio era o mês adequado para a semana que dedicaria ao pequeno país. Na ida, se desforraria da petulância da mulher e ficaria por uma noite num belo hotel da capital francesa. Compraria uma joia delicada para a filha; duas camisas da Façonnable para Stepan – herdeiro e futuro cardiologista –  e, vá lá, mais uma bolsa para Carla.

Se uma viagem ao Cáucaso era um evento e tanto até uma ou duas gerações passadas, a sua aguardada expedição pareceu cair em grande indiferença perante todos, salvo para os que queriam mandar por ele um presente para familiares na pátria-mãe. O mundo ficara pequeno. Foi dessa forma que Krikor Balabanian, 51 anos, médico bem-sucedido, olhos claros, nariz proeminente e calva avançada, beijou a testa de Carla Sabatini, 49 anos, cabelos negros, olhos oliva e de bom sangue lombardo, à hora de sair da Recoleta para tomar o voo da Air France. Há quanto tempo não ficava assim sozinho consigo mesmo? Pois bem, nunca era tarde para nada.

Como chegou demasiado cedo a Ezeiza e não contara com a embarque prioritário da classe executiva, logo se entediou no “lounge” e foi esticar as pernas nas lojas “duty free”. Antecipando-se em alguns dias ao que poderia fazer na volta – é próprio de médicos urgentistas de formação agir assim – comprou uma colônia Vetiver, sua favorita. Uma não, duas. Se esse era o preço para matar o tempo, tanto melhor. Atraído pela beleza de uma camisola de seda curtinha, preta, portanto da cor dos cabelos da esposa, mandou embrulhá-la para ir acumulando créditos. Na volta, esperava ser mais bem recebido. Pois, ao sair de casa, e não estava enganado, percebera um júbilo contido na mulher.

*

Krikor Balabanian podia até ter dúvidas quanto ao fôlego de seu casamento. Estariam ainda juntos na formatura de Stepan? As chances eram bem equiparadas, do tipo meio a meio. Uma coisa era certa. Ele sabia que incorreria em despesas pesadas no ano seguinte, por ocasião do cinquentenário de Carla. Já fazia bom tempo que ela matutava sobre como festejar a data de forma a que suas clientes grã-finas pudessem se divertir, se sentir belas e prestigiadas. Não fosse a festa no meio do ano, poderia levá-las para Punta às suas expensas, mas se arriscariam a pegar clima frio e voltarem de lá constipadas ou, pior, com a pele crestada.

Na conversa que tiveram na véspera da viagem – um jantarzinho burocrático em que ela não tocou na comida -, Carla disse que o deserto do Atacama e as cavalgadas noturnas sob o luar chileno não eram má ideia. Tudo o que lhe importava era fidelizá-las à clínica dermatológica de Palermo, onde chegavam a gastar até cinco mil dólares com aplicações subcutâneas e cremes suíços. Sobre estes, Carla costumava dizer: “Se tens que saber quanto custam, cariño, é porque não são para ti”. Mais de uma cliente se ofendera com tanta petulância. Que dissesse isso a Cristina Kirchner, que lá fazia aparições-relâmpago de vez em quando. Não para quem trabalhava honestamente.

Nesse contexto, apesar de gozar de ótimo padrão de vida, Carla achava que a conta da festa pertencia estritamente ao marido e, fazendo lorota, dizia que era o preço a pagar por ele ter uma mulher exuberante como ela – sendo ele um homem de pálpebras recaídas, sobrancelhas espessas e nariz adunco. Quanto às convidadas, ele mal as conhecia, embora soubesse quem eram alguns dos maridos. Carla os apontava em revistas de fofoca e badalação. Ou por ocasião de eventos beneficentes a que, pouco a pouco, ele deixava de comparecer. Que ela fosse só, ora bolas. Ou com Torralba, se o protocolo assim exigisse.

Enquanto sobrevoavam a costa brasileira e degustava um Puligny-Montrachet, lhe ocorreu outra conversa inquietante que tivera com Lucho Darín. Nela, Krikor dissera uma coisa que o deixara surpreso com a forma natural como lhe saíra da boca: “Sabes, Brujo, ela continua atraente. Mas eu perdi talvez o que mais admirava nessa mulher que era a integridade profissional. Não, não ria. Carla hoje é capaz de prescrever esfoliante para melanoma. Orgulha-se de ter virado uma grife, de tudo delegar e de só pensar na promoção da clínica. Daí viver em talk shows de terceira. Ela não passa um minuto sem olhar o celular. As redes sociais acabaram com ela como médica e pessoa. Há anos que não vai a um congresso decente da especialidade”.

Apesar da perspectiva da gastança da festa no Chile – se é que ela não mudaria de ideia até lá para um patamar mais alto -, e embora ele fosse um homem espartano nas coisas pessoais, hospedou-se num hotel lendário na avenida George V e, mal se instalou na suíte, já se sentiu disposto a dar uma caminhada revigorante nos Champs-Elysées para ativar a circulação e poder, enfim, respirar os ares de Paris, cidade onde já estivera meia dúzia de vezes. Pobre avó, nunca tivera essa dádiva. O mais perto que chegara da capital de seus sonhos se resumiu a uma escala portuária em Marselha, de que falaria pelo resto da vida.”Comemos uma bouillabaisse de sonho no Porto Velho. O avô morreu falando nela”, dizia se referindo à famosa sopa.

A caminho do restaurante “Maison d´Alsace”, onde se permitia comer um chucrute com joelhinho de porco, salsichas e costela suína – que nenhum paciente o visse -, passou na loja Sephora e, pensando nas preferências da mulher na área da cosmetologia, comprou por impulso um pouco de tudo: rímel, blush, delineador, um estojo de maquilagem grande, batom e até esmalte de unha. Tamanho apetite pelas compras surpreendeu até a vendedora experiente. Não lhe passara pela cabeça que aquele cavalheiro um pouco soturno pudesse debitar mil euros de compras no cartão com tanta naturalidade. Efeito de Paris sobre as fantasias, pensou com acerto.

*

Chegando ao hotel, Krikor concluiu que uma diária de oitocentos euros pedia que desfrutasse de tudo a que tinha direito. Assim, se entregou a um prolongado banho de banheira à base de sais do Mar Morto. Como sempre fazia, foi terminar de se enxugar na grande poltrona. Distraidamente, via as imagens de um documentário sobre a fabricação artesanal de queijos de cabra do alto do Jura. Para acomodar melhor na mala as compras que acabara de fazer, resolveu espalhar o conteúdo da enorme sacola na colcha adamascada que jazia dobrada num marquesão ao pé da cama.

Enxuto, por fim; nu e de pé diante do grande espelho, abriu um dos batons que comprara e, meticulosamente, o levou à boca, como se esperasse por isso há muito tempo. Tomado por um frisson incomum, por uma alegria que lhe parecia sensual, apertou os lábios e se deliciou com o efeito. Não era assim que fazia Carla? Caminhou até a porta e se assegurou que estava bem fechada. Por precaução, colocou a placa vermelha de “Ne pas déranger” dependurada na maçaneta do corredor, e passou a pequena corrente que impedia qualquer acesso não autorizado. Então, abriu o grande estojo multicolorido. Por onde começar?

Por um Champanhe, ora essa. Servido-se da segunda flûte,  se valeu de um pincel largo e macio, escolheu tons, combinou-os nas costas da mão, se deliciou com os resultados, e aplicou-os sobre o rosto, sem temer a extravagância da combinação. Aproveitou para espalhar cores em torno dos olhos mortiços e, com pequenos e precisos puxões na ponta das unhas, arrancou dois pelinhos ilhados na ponte entre as sobrancelhas. Nelas, fez vigorosas aplicações de lápis. Se a pele estava ainda um pouco úmida, a untou com uma base sobre a qual pretendia aplicar uma pequena alquimia do material à mão, sem temer que o serviço parecesse amador. Pelo contrário, importava o impacto. Não queria ter cara de noiva; queria se assemelhar à outra – que se arrependia de não ter tido.

Que tal? Para seu espanto e júbilo, a brincadeira começou a deixá-lo sexualmente excitado. Acionou um dos canais pagos e selecionou um filme, no mínimo, muito sugestivo. Até nisso estava dando sorte. Fato é que nunca, nunca mesmo – seguramente desde a morte de Tigran – tinha se sentindo tão à vontade consigo próprio. A distância ajudava, não havia dúvida. Abriu outro Champanhe que tirou do frigobar e, rindo da própria irreverência, fez poses variadas diante do espelho que ia até o chão, se enxergando sob diversos ângulos. De joelhos, no carpete macio, não ficou nada descontente com o que viu. E cantando outro dos versos favoritos da avó, afetou uma voz semovente e sensual: “Mon amour c´est Paris…”

Era certo que as feições do rosto eram marcantes, bem próprias de homens do Cáucaso, mas agora estavam suavizadas e lhe davam prazer contemplar. A embriaguez deixou-o deliberadamente faceiro, quase pândego. Estudando as próprias nádegas, achou-as bem proporcionadas e de uma alvura quase azulada. Apartando os joelhos, as viu abertas e, depois, as fechou – caprichosamente. Fez um longo muxoxo, levantando e baixando a cabeça, vendo a imagem refletida à sua frente. Emulando um felino saciado, circulou de quatro até o banheiro e voltou. Beijando a imagem fria da própria boca, ronronou uma inusitada melodia aveludada. No dia seguinte, veria as marcas de batom no espelho, na altura dos joelhos, com ar de quem vê ruínas no quintal alheio.

Para quem já tinha passado dos cinquenta, Krigor estava muito bem. Para seu orgulho, quase não tinha barriga e, de pé, constatou que havia uma pequena abertura entre as coxas, mesmo quando de pernas juntas. Como as modelos. Excitado, foi até a mala e pegou a camisola preta. É claro que ela era pequena, mas nada que lhe impedisse de se movimentar e, francamente, exultar diante da imagem graciosamente provocativa que viu surgir. Ah, se tivesse ali uma bela peruca de cabelos naturais. De brincadeira, foi até a cesta de frutas e pegou duas peras que colocou sob a camisola. Assim, só para ver o efeito. Se tivesse que compra um sutiã um dia, seria um de renda. Um belo par de meias italianas também poderiam compor um todo interessante. Ainda voltaria a Paris para fazer tudo “comme il faut”. Já sabia até com quem.

O que mais o divertiu e intrigou foi a briga que travou com o próprio pênis. Tão logo conseguia ocultá-lo no meio das pernas, deixando à mostra só os discretos pelos pubianos, vinha uma ereção incontida, determinada – o que lhe frustrava a composição da feminilidade ensaiada. Maricón perdido, disse a si mesmo, vendo refletida a própria imagem. Mas logo se arrependeu. Não, não era um maricón. Afinal, descendia de generais que ainda hoje lutavam contra os azeris no Nagorno Karabakh. Não, ele ali era só Carla. Car-la, escandiu as sílabas. Como Nabokov fez com Lolita: Lo-li-ta. Devia ser daquele jeito que a mulher se entregava a Torralba, o contador da clínica. Torcia para que ele a roubasse um dia, o galego biltre. Que lhe desse um desfalque à altura de sua reputação.

Krikor Balabanian dormiu bêbado e maquiado sob o edredom de pena de ganso. Antes de adormecer por completo, se tocou de várias maneiras, chegando a prazeres novos e outros tantos até então desconhecidos. O cansaço da viagem lhe proporcionou, afinal, um sono profundo. Ao ver-se no espelho, com a maquiagem borrada, quase sorriu. De novo, se certificou de que a porta permanecera fechada e jogou a fronha no chão, como se tentasse apagar pistas. A muito custo, removeu a maquiagem, mas desceu de cara limpa para tomar o desjejum. Melhor fabricar sua própria Carla do que aturar a original. O que diria disso a avó Arpi? E Tigran, o irmão, será que se divertira com a brincadeira? Passara a primeira noite em família. Com todos os entes queridos em Paris, salvo os filhos.

Já estava quase escuro quando, sobrevoando a Turquia, viu a silhueta do Monte Ararat à esquerda. Então, recitou uma prece que dava por esquecida e se preparou para pousar em Erevan.

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