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Penso, logo duvido.

Conexão londrina – Fernando Dourado

Fernando Dourado

An office in London, equipped with speaking tubes – London 1903.

An office in London, equipped with speaking tubes – London 1903.

From the Desk of Sebastião Alheira Cansado – Senior Advisor

O´Shannon, Highlander, Westley, Taragona, Suarez & Associates

80 New Bridge St, London EC4V 6JA, UK – Reino Unido

Ref: Demandas de consultores para a Lava Jato (Internal Code “Car Wash” / Brazil)

 

 

Preclaro Sr. Dr. Professor Eudóxio Cavalcanti Cisneiros,

Permita-me, Excelência, aqui endereçar-vos uma cordial saudação em nome dos que integram nosso gabinete legal. Em assim procedendo, tomarei não mais que dois minutinhos de vosso precioso tempo para dar conta de quem sou e do que aqui faço. Afinal, o que tem um velho cidadão português a dizer-vos desde um dos mais reputados escritórios da City londrina? Pois bem, explicá-lo-ei de forma concisa e, ao fazê-lo, debelarei a imerecida fama de prolixo de que desfruto entre essas paredes vetustas. O que sei é que tal reputação integra o preço a pagar por representar o sangue latino em meio a anglo-saxônicos sisudos, muito embora as exceções sejam tantas que já não convém exumar a regra. Cidadão do Douro que sou, contudo, aportei a essas terras há quase cinquenta anos, meses depois de conhecer minha pranteada Audrey e seus amados pais, ao pé das barricas da casa Sandeman, na Vila Nova de Gaia. Eis, portanto, tudo. Ou quase.

Instado pelo que então se chamava de genuíno amor – a que se rende, com júbilo, a alma lusitana -, nos unimos em lindo ágape no balneário de Brighton que, por certo, V.Excia conhece. Desde então, cá nessas ilhas tenho vivido quando ainda eram de voga The Beatles. Terras hoje já não tão brumosas e fuliginosas quanto foram antanho, mas bem equipadas para a velhice e para os que, como eu, apreciam a vida rural, embora tenha crescido de miúdo na cidade de Oporto, nos tempos em que Salazar ainda centralizava o panorama político da amada Terrinha, e este vosso servo pouco mais era do que um estafeta a serviço de corticeira afamada. Com a morte de Audrey, ao cabo de breve mas cruel enfermidade, e alojado nessa estrutura de onde vos escrevo, cá no Reino resolvi ficar, onde desde há muito organizo as besonhas gerais na firma de meu cunhado – o Westley do longo cabeçalho -, e, já às vésperas da reforma, eis que recebi o encargo de responder à gentil missiva em que V. Excia. nos desafia a atender demandas pouco convencionais.

Apresso-me em dizer que não careceis de acanhamentos em fazê-lo posto que o gabinete está a elas acostumado. Aquilate V.Excia. o que já não representava gozar de bom nome nos tempos em que o Império Britânico cobria sítios tão distantes um do outro quanto podem ser as Índias, a pequenina Nova Zelândia e o imenso Canadá? E, com esforço mínimo de vossa imaginação, vos peço avaliar o quanto de demandas bizarras cá já não chegaram, mercê de tanta exposição a glebas longínquas onde – melhor não duvidarmos – até práticas canibais eram vigentes? Permito-me elencar os extremos não para chocar-vos, porém como forma de que vos sintais, do lado irmão brasileiro, bem à vontade com nossas indicações vis-à-vis vossas necessidades concretas de prestação. Não seria em França que se achariam correspondentes tão versáteis, pois não? Mas eis que já me meto em peleja que não nos pertence.

Pois bem, como único representante da lusofonia ainda vivo – aqui já tivemos Dr. J Santos Balakrishna, nativo de Goa, remoto enclave de canela e cravo que nos irmana -, responderei ao ilustre confrade o essencial de vossas indagações pertinentes ao momento que vivem vossos clientes brasileiros, mormente aqueles às voltas com a tal operação Lava Jato. Até que se me fosse explicado do que se tratava, pensava eu tratar-se de ilícitos ligados à limpeza de grandes aeronaves turbinadas. Mas agora já sei que se trata de gatunagens ao Erário nos moldes das patrocinadas pelos governos onde o petróleo está nas mãos do Estado – e atentai que temos cases em África que ruborizariam até ameríndios Sioux. Da mesma forma que, se assim for de vosso agrado, listaremos alguns serviços adicionais que constam de nossa ementa, incorporados ao cabo de uma experiência de que nos orgulhamos. Digo tal não por jactância ou vanidade oca, mas para vos assegurar estar em mãos proficientes.

Há de se ressaltar, em benefício da verdade, que a maioria dos serviços assuntados por V.Excia. são, por assim dizer, derivados de nossa rede de outsourcing, qual seja, contratados periodicamente de partes terceiras para melhor atender ao espectro amplo de necessidades que, convenhamos, constituem mais um suporte do que aconselhamento legal ou advocacia. Creio que se trata do mesmo princípio que vos orienta do lado do Brasil, colosso de País que deploro não ter conhecido nos anos em que poderia me ter entregado com galhardia às vossas tão decantadas exuberâncias, mas que, com certeza, não ficariam cingidas à visitação de vosso imponente Cristo, em São Sebastião do Rio de Janeiro, santo de minha devoção e batismo. Pois acaso nâo dizem que a decantada mulata é invenção lusitana, mais precisamente de solitários trasmontanos e minhotos com as negrinhas Cabinda das entranhas de África?

Isso dito, estimado Professor, já vos passo, sem delongas, a prometida relação de serviços. A pedido de nosso aguerrido Dr. Highlander, me permito enaltecer-vos a prudência de vos ter valido das boas e velhas cartas para endereçar-nos vossas expectativas. Os correios eletrônicos hoje tão em voga constituem forte obstáculo ao livre exercício de nossa profissão e a correpondência entre cavalheiros pode a qualquer momento desaguar em tablóides de Fleet Street, quando não nas garras de aventureiros como os tais Wikileaks que, sem laivo de pudor, se comprazem em desvendar os mais bem guardados segredos de Estado e particulares. Foi, portanto, com júbilo que vos apreciamos a cautela e a elegância de linguagem ao nos pedir, com polidez, serviços que muitos só ousam murmurar entredentes. São, portanto, os seguintes os profissionais que vos podemos disponibilizar em poucos dias, consoante interesse e comissão sobre honorários:

a) Interrogatório ativo: Dr. Pavel S. Sokol, psicólogo moscovita, trabalhou no KGB com os mais altos dignatários russos da atualidade e esteve lotado com o próprio Wladimir Putin na extinta República Democrática da Alemanha, quando da Queda do Muro de Berlim. Considerado herdeiro espiritual de Rasputín, ajudou o ocupante do Kremlin a superar o choque pós-traumático, graças a que lhe temperou o espírito implacável. É especialista em ensinar técnicas de ameaça, intimidação e lograr até a hipnose dos interrogadores, levando-os a ser acometidos de grande torpor. Com elas, os eventuais inidiciados são treinados de forma a conhecer os pontos vulneráveis de seus algozes e a explorá-los a pleno, até pela via subliminar. Ideal para audiências públicas, comissões congressuais e arguições testemunhadas pela imprensa. Trabalha em dupla com Dra. Svetlana Kornikova que faz, por assim dizer, o trabalho de pesquisa sobre os interrogadores, indicando aos arguidos tudo que possam ter de negro em suas vidas pregressas e presentes. Fluente em castelhano, trabalha no momento em casos envolvendo os cartéis mexicanos;

b) Driblando o polígrafo: Dr. Taras K. Evilenko. Esse senhor septuagenário, vulgo “Trator Ucraniano”, é especialista em treinar os depoentes em manter batimentos cardíacos, níveis de salivação bucal e sudorese que os impeça de ser traídos pela boca seca, palidez, hiperventilação, taquicardia e a chamada deglutição de defesa – todos sintomas não verbais de culpabilidade e insegurança, quando monitorados pelos chamados detectores de mentiras ou polígrafos. Trabalha atualmente na defesa dos soldados da região de Lugansk que, alegadamente, teriam abatido com um míssil terra-ar um jato comercial malaio que conectava a Holanda à Ásia. Recomendamos vivamente seu concurso para vossos ilustres clientes ainda não indiciados, posto que é possível que logo seja contratado em tempo integral para atender a cúpula da FIFA. Homem capaz de reduzir os batimentos cardíacos a não mais de cinquenta por minuto graças à respiração – e veja que é fumador -, já o disponibilizamos para governos-clientes que nos pediram interceder pelos seus em Guantánamo;

c) Algemas, masmorras, escuridão e isolamento: Mestre Anil Goenka. Viaja cada vez menos, mas recebe em seu ashram, na cidade sagrada de Varanasi, todos aqueles vossos clientes que ainda estiverem de posse de seus passaportes. Pois que lhe façam uma visita e esqueçam as águas tépidas do Caribe – é o que lhes tenho a recomendar. Graças a técnicas de meditação infalíveis, Mestre Goenka simula com tecidos sintéticos os cerceamentos das algemas e, pondo à prova a capacidade do ser humano de controlar a respiração no diafragma, o prepara para caber em pequenos compartimentos de carros policiais; para o confinamento em solitárias e no controle da claustrofobia pela técnica batizada de Dois Dias no Sarcófago – cujos direitos de uso nos pediu para registrar. Na fase preparatória, acostuma os pupilos a dormir em cama de pregos e caminhar sobre brasas. Alguns de seus seguidores chegaram a jejuar por quase dois meses – tanto para efeitos de protesto quanto por privações de teste, ditadas pelo treinamento. No terreno teórico, também difunde noções de sexo tântrico para a chamada visitação íntima, tradição que soube comum no Brasil;

d) Liderança em ambiente hostil: Kazuo Nakamura. Nome de pluma de um aguerrido nipônico autor de mangás, ex-integrante da chamada yakuza japonesa, esteve muitos anos encarcerado no Arquipélago em função de proxenetismo, extorção, sequestro e tráfico de drogas. Jurado de morte na cadeia, após ter quebrado intrincados códigos de honra vigentes na origanização criminosa, conseguiu, mercê do exemplo e da coragem pessoal, granjear, atrás das grades, a liderança de que desfrutara nas ruas de Roppongi onde era conhecido como Ichiban-San – o que na língua deles parece indicar grande prestígio. Apesar da mutilação das falanges e do corpo integralmente tatutado – salvo o rosto -, é perito em artes marciais orientais como o karatê. Especialmente recomendado para os encarcerados em regime dito comum e que precisem de vez em sempre se manter à frente dos demais, mercê da força bruta e da liderança pelo exemplo. É especialista em ensinar o valor do silêncio mesmo porque não tem língua, cortada como castigo por um dos algozes da organização em Nagoya, ainda na fase de acareações;

e) Evitando a prisão: Mordechai Baruch. Ninguém sabe ao certo seu nome de batismo, mas dizem que os pais eram lituanos. Veterano de guerra do Oriente-Médio, ex-integrante das Brigadas do Golã, especialista em krav magá, esmaga uma traqueia humana com um aperto de dedos de aço. Profeciente em inúmeros idiomas, orienta quanto à detecção de grampos telefônicos, mensagens criptografadas, hackers e indícios de campanas nas imediações do alvo. Capaz de se evadir nas situações mais complexas, ensina técnicas de seguir elementos e de detectar se o oposto está em curso. Monta e desmonta armas as mais variadas sob a mais completa escuridão, e instrui sobre técnicas de infiltração nos órgãos investigativos para saber quem é o foco da ação. Pode providenciar com seus serviços de apoio espalhados em todo o planeta documentos falsos que habilitem o investigado a transitar pelo mundo. Amigo de bons cirurgiões plásticos, já trabalhou para governos em ambos os lados do balcão. Entre seus clientes, contou com diversos dirigentes brasileiros nos últimos dez anos e lhes deu apoio psicológico em momentos de estresse, facultando a exfiltração de alguns para outros países, como é o caso de importante prócere brasileiro, recém-extraditado;

f) Enfrentando a imprensa: Professor Salvatore Cuccia, um dos mais eruditos de nosso corpo de consultores externos. Já prestou serviços a brasileiros e se notabiliza por munir a clientela de farto arsenal de frases de efeito graças a apuradas técnicas de oratória, fraseologia e citações que podem atravessar gerações. Foi dele a ideia de sugerir a um Ex-Presidente Vosso que se valesse de “o tempo é o Senhor da razão” e, vinte anos mais tarde, que outro mandatário cunhasse “Nunca antes na história desse país…”, como forma de se lhe conferir a aura messiância que melhor camuflaria o que nos chega aqui como um projeto de perpetuação no poder, ainda que à custa do equilíbrio das finanças públicas. O professor Cuccia acompanhou Berlusconi durante três lustros consecutivos e conquanto sua circunspecção não lhe tenha permitido adentrar o assim chamado ciclo íntimo – o que implicaria em deleitar-se com espetáculos de dança perfomados por prostitutas que ficaram mundialmente conhecidos como o  bunga-bunga -, foi de fundamental importância para livrar das grades o mandatário pândego e, de certa forma, lhe criar uma aura de simpatia junto aos corações meridionais, mercê da palavra certa no momento certo;

g) Recomeçando a vida: Dra. Getrud Mühlschläger, de Zurique. Orienta a clientela sobre como lidar com a chamada Síndrome de Estocolmo, tão comum no pós-libertação. Trabalha as relações familiares, cria um plano de leituras que resgate a auro-estima do ex-encarcerado e estimula as atividades físicas. Por meio do que hoje se chama story telling, ela elabora uma nova visão dos fatos cruciais que valeram ao paciente a privação da liberdade e estimula a retomada de uma vida espiritual em que o legado do aprendizado é fortemente valorizado, sem lugar a julgamentos de cunho moralista. Ideal para banqueiros, empresários e todos aqueles que sofreram forte mudança de padrão de vida.

Isso posto, Caríssmo Doutor, ficamos na expectativa de sua manifestação. Entrementes, receba os protestos de elevada estima e consideração com que me subescrevo.

Cordialmente,

Sebastião Alheira Cansado

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