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Penso, logo duvido.

Eu e a Ditadura Militar. Os dias em que não fui herói II – Luciano Oliveira

Luciano Oliveira

texto de imagem - Passeata dos 100 mil – Junho de 1968

texto de imagem – Passeata dos 100 mil – Junho de 1968

No primeiro dessa série de artigos relatando eventos que se passaram comigo durante a ditadura militar, fiz uma confissão de pusilanimidade, ao não me solidarizar com um colega de faculdade proibido de participar de uma excursão da turma ao sul do país por causa de antigas atividades políticas. Hoje venho relatar um comportamento menos grave. Aliás, pensando bem, não há nele nada de reprovável moralmente falando, pois agi sob coação pelo menos psicológica, como verão meus cinco leitores. Mas, de todo jeito, não foi um comportamento de herói. E como hoje em dia vejo todo mundo ostentando tal qualidade (pois é fácil ser herói sob a democracia…), lembro o “Poema em Linha Reta” de Fernando Pessoa e venho, sem bater no peito, dizer que eu, “que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas / eu verifico que […] quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado para fora da possibilidade do soco”.

Corria, como da outra vez, o ano de 1973. Alguns colegas mais afoitos tiveram a ideia de fundar um semanário. Um jornal de verdade, com impressão em gráfica e venda em bancas. Queríamos ser satíricos e críticos do regime. O modelo, obviamente, era O Pasquim, e escolheu-se como nome O Rekado – assim mesmo, com “k”. Como eu era de esquerda e posava de intelectual (ainda lembro de mim ostentando em baixo do braço o “Ulisses” de James Joyce, que lia aos engulhos), fui convidado a participar do empreendimento. E como participei! Apesar das dificuldades de toda ordem que afetam publicações desse tipo, conseguimos pôr nas bancas oito números! Pulo muitas peripécias e chego ao que interessa: o nono número, antes de sair às ruas, foi apreendido na própria gráfica por agentes da Polícia Federal, e foi instaurado um inquérito contra nós – provavelmente enquadrados como perigosos subversivos agindo sob as ordens de Moscou. Eu não estava lá no momento da apreensão, e não lembro se algum colega foi detido. Mas algum tempo depois chegou minha vez de me explicar junto às autoridades que cuidavam da “Segurança com Desenvolvimento”, como dizia um dos slogans da época. Estava na varanda da minha casa lendo “O Exorcista” de William Peter Blatty, best-seller à época, quando um policial chegou com a intimação para que eu fosse depor. Nada disse aos familiares, para não assustá-los. Mas no dia designado deixei os amigos de sobreaviso (caso não reaparecesse…) e fui.

Não! Não! Não orem nem tenham pena de mim. Fui bem tratado. O “devido processo legal” foi rigorosamente respeitado (é verdade que não lembro se chegaram a me oferecer cafezinho), e do interrogatório lembro apenas uma pergunta idiota e descabida do delegado, que respondi com a cara mais séria e aliviada do mundo. Ele queria saber minha opinião sobre o presidente Médici! Disse que o admirava, que ele tinha devolvido aos brasileiros o orgulho de ser brasileiros, e que votaria nele em caso de eleição para presidente.

Não riam. Tenham apenas comiseração por um jovem com medo numa dependência policial, dizendo coisas que dele eram esperadas para se sentir livre e poder voltar à varanda da casa materna, onde o esperava o livro de Blatty e uma família ignorante do medo que ele tinha sentido naquela manhã. Nunca mais tive notícias do destino do inquérito. Deve estar sendo comido pelos cupins em algum depósito, se não simplesmente jogaram fora tamanha besteira. Mas a verdade é que não tive a coragem de ser herói. Depois tem mais. Será o último relato, prometo.

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