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Penso, logo duvido.

Eu e a Ditadura Militar: Os dias em que não fui herói III – Luciano Oliveira

Luciano Oliveira

texto de imagem - Passeata dos 100 mil – Junho de 1968

texto de imagem – Passeata dos 100 mil – Junho de 1968

Terminei o relato passado falando do medo que senti ao ser intimado para prestar esclarecimentos à Polícia Federal. Continuo hoje relatando um evento que vivi sob o mesmo sentimento: medo – só que dessa vez experimentado não em dependências da polícia, mas nos corredores e salas da própria instituição onde estudava, a Universidade Federal de Sergipe. Digamos que foi um medo alcatifado. Mas foi.

Acho que era o ano de 1975, e os colegas queriam porque queriam que eu fosse o candidato “da esquerda” à presidência do diretório acadêmico. Terminei aceitando, obrigado por aquilo que um amigo, o ensaísta Fernando da Mota Lima, chama de “tirania dos afetos”. Mas aceitei a missão sem nenhum entusiasmo, porque nunca gostei – como continuo não gostando – da atividade política. Estou falando, obviamente, da política no sentido eleitoral do termo, um terreno viscoso em que qualquer um que ele adentre tem de deixar fora as veleidades de autenticidade – como Dante dizia a propósito da esperança que era preciso deixar do lado de fora quando se entrava no inferno. Enfim, passemos. Já com a campanha em curso, eis que sou um dia convocado a comparecer à Assessoria de Segurança e Informações da UFS, quando conheci uma figura chamada Hélio Leão.

Seu nome já me era conhecido. Tinha sido ele quem vetou um colega nosso a uma excursão ao sul do país por motivos políticos. Mas só conhecia de nome, e eis-me de repente diante do próprio. Nunca me esqueceu, como diria Machado de Assis, a sua figura insignificante. Em todo caso, desproporcional ao poder que detinha. Era um tipo baixinho, mirrado, um tanto macilento talvez por falta de sol, e, contrariando o sobrenome, gentil! Disse-me com delicadeza que as autoridades constituídas (ou algo assim) não viam com bons olhos a minha candidatura, e que eu devia renunciar. Uau! Nunca soube – e não me interessa saber – as razões do veto. Suponho que eram as consequências do inquérito a que tinha respondido na Polícia Federal.

Juro que neste momento em que escrevo não me lembro desses acontecimentos com espírito de revanche em relação a esses funcionários miúdos do regime. Antes, minha lembrança decola desse nível pedestre e sobrevoa aqueles anos valendo-se uma filósofa do quilate de Hannah Arendt sobre como o mal pode ser uma coisa banal. Terrível ensinamento. Parece-me, hoje, o caso. Não sei direito quem era Hélio Leão. A pessoa física, como diz um outro Leão, o do imposto de renda, não me interessa. Interessa-me pensar que era um funcionário cioso do seu emprego e das suas promoções, com o que garantiria uma boa pensão para a sua família. Quantos de nós teriam feito diferente? Não sei. Sei apenas que a questão me interpela. Outra vez, passemos.

Começou uma quebra de braço entre nós dois. Ele queria que eu renunciasse, e eu queria que ele assumisse o veto ao meu nome e me vetasse. Nada feito. Nenhum dos dois cedia. Se bem me lembro, estive uma ou duas vezes mais na Reitoria. E nada. Até que um belo dia comecei a ter medo. E, sem votos de “cordiais saudações” (pelo menos isso fiz!), enviei-lhe minha renúncia. Confesso, aqui entre nós, que me senti de certa forma liberado de uma carreira para a qual não tinha nenhuma vocação. Como dizia o finado Batalhinha (apresentador de um programa de rádio muito conhecido em Sergipe da minha infância) “Bença, Mãe Maria… desapareci!”.

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