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Memória e “verdade histórica” – Sérgio C. Buarque

S?rgio C. Buarque

Foto do livro ?Um olhar sobre o Brasil. A Fotografia na constru??o da Imagem da Na??o: 1833-2003?

Foto do livro ?Um olhar sobre o Brasil. A Fotografia na constru??o da Imagem da Na??o: 1833-2003?

A mem?ria ? uma inven??o do passado com o olhar e a conveni?ncia do presente. Mem?ria n?o ? mentira. Mas tamb?m n?o ? verdade. ? hist?ria reconstru?da e alterada (no limite, at? falseada) inconscientemente pelos desejos e interesses do presente. Parodiando Pasolini ? ?a realidade ? feita de mil sonhos? ? podemos dizer que a hist?ria ? escrita por mil mem?rias, cada uma com sua vis?o do passado e de acordo com as situa??es presentes. Em busca da verdade hist?rica, as mem?rias se confundem e embaralham os fatos e as interpreta??es. S? o confronto de muitas mem?rias, e o seu teste em documentos e dados, pode ajudar a clarear o passado.

O que diz a mem?ria de Jos? Dirceu e da maioria dos companheiros no poder sobre os chamados anos de chumbo? Que eles lutaram pela democracia, com o risco da pr?pria vida, e ajudaram a restaurar o sistema democr?tico no Brasil. Ser? verdade? Ou apenas uma mem?ria conveniente? Desde que recordem, efetivamente, o que viveram, fizeram e propuseram neste per?odo da hist?ria brasileira, ? uma mem?ria, mesmo que n?o corresponda aos fatos e ? mem?ria de outros personagens e testemunhas da hist?ria. Esta auto avalia??o como lutadores pela democracia ? uma clara confus?o da mem?ria muito conveniente na atualidade pol?tica brasileira: os partidos de esquerda do Brasil, incluindo os trotskistas no qual me incluo, lutaram contra a ditadura militar mas n?o pela democracia, como pretendem convencer os desavisados. Pelo menos ? o que diz a minha mem?ria (talvez polu?da por minhas conveni?ncias) mas que tamb?m pode ser constatado pela leitura dos documentos e dos discursos dos seus partidos da ?poca.

Na verdade, nenhum partido ou grupo de esquerda, armado ou desarmado, lutou para restaurar a democracia no Brasil. Simplesmente porque repudiavam a chamada ?democracia burguesa? e queriam mesmo trocar de ditadura; o objetivo era a ditadura do proletariado, que seria a base para a constru??o do socialismo. A exce??o pode ter sido apenas do Partido Comunista que queria voltar ? democracia burguesa para poder melhor destru?-la e implantar tamb?m a ditadura do proletariado. Considerando a op??o recente e tardia pela luta pol?tica nos quadros da jovem democracia brasileira, ? compreens?vel que os l?deres pol?ticos queiram se apresentar como respons?veis pela constru??o do regime democr?tico no Brasil. Mas, ao faz?-lo, recusam o seu passado, suas honestas convic??es e sua consistente pr?tica, mesmo que fracassadas e equivocadas; como, no entanto, n?o criticam estas convic??es, a sua mem?ria reinventa os fatos e confunde a hist?ria.

Longe de terem sido os combatentes pela democracia, a maioria da esquerda revolucion?ria repudiava as tentativas parlamentares do antigo MDB atuando nos limites do jogo pol?tico na ditadura. As for?as pol?ticas que derrubaram a ditadura e constru?ram a democracia no Brasil n?o foram de esquerda; ?foram ousados democratas, como Ulisses Guimar?es, Paulo Brossard, Marcos Freire, Fernando Lira, Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos, entre muitos outros, que enfrentaram abertamente a ditadura para construir um sistema democr?tico. O ?processo iniciado nas lutas do povo brasileiro pelas liberdades democr?ticas e pela anistia?, para citar o discurso da presidente Dilma Roussef na cerim?nia de cria??o da Comiss?o da Verdade, foi liderado por pol?ticos com convic??es democr?ticas e n?o revolucion?rias, e levado adiante apesar e contra os movimentos e partidos da esquerda.

E os partidos e grupos de esquerda que optaram pela luta armada, jovens e corajosos socialistas que arriscaram a vida por um grande ideal, contribu?ram, ao contr?rio do que pretendiam, para refor?ar a ditadura e intensificar a repress?o e a viol?ncia. No final dos anos 60, at? o desmantelamento do Congresso da UNE de Ibi?na, a ditadura brasileira estava dividida e permitindo espa?os de participa??o pol?tica. O Ato Institucional n? 5, do final de 1968, foi uma express?o de hegemonia da ultradireita na ditadura, justificada e favorecida pela luta armada da esquerda. A partir do endurecimento da ditadura, por outro lado, a op??o pela luta armada se fortaleceu na medida em que se fechavam os poucos caminhos legais e n?o violentos de atua??o diante da forte repress?o. Como costuma acontecer no jogo pol?tico, os extremos se alimentam e se fortalecem na viol?ncia do confronto, o endurecimento de um estimulando a radicaliza??o do outro.

Se o que se busca ? a hist?ria – a verdade hist?rica que resulta de mil mem?rias – est? na hora de refletir sobre o passado confrontando m?ltiplas mem?rias que permitam evitar as simplifica??es e falsifica??es dos fatos e das interpreta??es; sem medo nem pudor de ressaltar os m?ritos e acertos, menos ainda de reconhecer os equ?vocos e as falhas. O futuro depende da abertura intelectual e pol?tica para a cr?tica corajosa do passado, questionando as pr?prias conveni?ncias que possam enganar a hist?ria.

 

10 Comments

  1. Adorei o texto, é o começo de uma linha de argumentos ótima para se refletir sobre os discursos políticos atuais, principalmente esse de que não existe mais esquerda…Mas acho que vc foi muito duro com essa frase: “A memória é uma invenção do passado com o olhar e a conveniência do presente”… Muito reducionista, e ainda dentro de um campo que articula uma memória bem Trotskista.

  2. Muito interessante e provocativo esse seu artigo, Sérgio, porque nos instiga a começar a ter outro olhar para a “verdade histórica” de nosso País
    .

  3. o companheiro so nao falou que o golpe foi em toda a america latina e originaria de uma guerra fria entre russo e norte americano e que estamos pagando a conta ate hoje. e por falar em dilma rousseff, e revolucionario, o nosso minerio [ niobio ] esta nas maos da ingraterra e eles ditam o preço.

  4. Quando criança meu irmão muito querido corria riscos em nome seus nobres ideais. A minha memória diz que isso não pode ser visto apenas um erro. A democracia hoje é uma soma dos erros e acertos de todos. Os democratas não seriam os mesmos sem os revolucionários.

  5. Acho que Sérgio recoloca os fatos na sua verdadeira dimensão.

  6. Muito interessante e pertinentes as criticas ao artigo, especialmente Teresa que considera, com razao, um reducionismo na definnção da memoria; claro que a memória é muito mais do que a invenção do passado com o olhar e as conveniencias do presente, incorpora ate mesmo as expectativas do futuro, tudo misturado com o efetivamente vivido. Tambem é valida a ideia de Luciana de que os democratas nao seriam os mesmos sem os revolucionarios, no aspecto positivo e negativo, da mesma forma que os revolucionarios nao teriam sido os mesmos sem os democratas. Gostaria de acrescentar um comentario muito interessante de Elimar Nascimento que ele nao conseguiu inserir no blog (dificuldade tecnologica) mas me mandou por email: “seu artigo esta corajosamente correto no essencial mas falta a distinção história como falaria nosso querido Denis Bernades. É preciso ter clareza que a partir da segunda metade dos anos 1970 militantes da esquerda revolucionaria, aos poucos, mas cada vez em maior número vao se convertendo à democracia, até chegar aos anos 1980 quando muitos se juntam à Lyra e seus companheiros”. Estou feliz com o debate em torno do artigo e, fiel aos principios da revista Será? com as criticas que despertam mais duvidas.

  7. fui mal interpretado guando critiquei alguns revucionarios que agora que estao no poder esqueceram do socialismo e o povo esta na maior m. m. m e democracia nao e ito ai nao

  8. Prezados:
    Este eterno conflito entre passado e presente foi, a meu ver, brilhantemente resumido pelo escritor inglês LP Hartley:
    “O passado é um país estrangeiro, eles fazem as coisas de modo diferente”
    (“The past is a foreign country: they do things differently there”)

    Atte´
    Ednardo Melo

  9. No período da ditadura militar, pelos poucos registros (que foram intencionalmente reduzidos), podemos notar que os democratas e os revolucionários faziam oposição ao governo, um em menor grau que o outro. A desorganização ideológica de cada movimento fez com que se almejasse a democracia. Vejamos um exemplo: O sr. Fernando Henrique Cardoso, marxista na década de 1970, e presidente da república em 1995. Ele renunciou seu legado marxista “em prol da restruturação da democracia” (entre aspas, porque sabemos que não foi bem assim). Claro que existiram os socialistas e os comunistas que queriam uma ditadura do proletariado, mas muitos estavam lutando contra a ditadura, filiado ao partido ou movimento que melhor representassem suas ideias. Nesse processo tivemos o FHC, o Lula e o Dirceu, diferentes ideologicamente, mas que estão presentes na recente democracia brasileira.
    Obrigada pelo espaço.

    • Peraí queridinha: vc afirma que a ditadura militar tem poucos registro? Então vosmecê não está acompanhando o que a comissão da verdade está publicando na internet? Vosmecê está bem por fora (coisas da esquerda festiva), lamentavelmente. Desculpe o mal jeito, mas é isso aí.
      Ao seu dispor
      Roberto França

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