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Penso, logo duvido.

O Golpe do Voto – José Arlindo Soares

José Arlindo Soares (*)

Brasileiros Século XIX.

Brasileiros Século XIX.

Parte da imprensa internacional não consegue entender porque a maioria da população desfechou um tremendo ”Golpe do voto” no PT e não teve o mesmo rigor com os  outros sócios da chamada corrupção sistêmica,  que foi revelada na operação Lava a Jato. Artigos assinados e matérias informativas dos mais credenciados órgãos de imprensa do mundo ocidental reconhecem que o PT perdeu 60% do número de Prefeituras do Brasil, com repercussão maior nas cidades mais industrializadas.

Uma dúvida que aparece na mídia de alguns países é se a punição foi apenas ao PT ou ocorreu um veto à corrupção como um todo. Isso porque, outros partidos, fortemente vinculados aos processos de corrupção, não tiveram o mesmo percentual de perda da legenda petista. O caso do Partido Popular (PP), legenda campeã em citações na Lava a Jato, conseguiu até aumentar o número de prefeituras. Da mesma forma, o PMDB, sócio preferencial dos negócios ilícitos,  manteve a sua tradicional performance  na conquista  de municipalidades.  Não é difícil entender as razões dessa aparente contradição na leitura seletiva do eleitorado a respeito da punição aos agentes responsáveis pelo esgarçamento moral do sistema político do país.  O PT teve, por 13 anos, a hegemonia da Presidência da República, que é de longe o símbolo de maior visibilidade junto à população. Além disso, o PT nasceu com um discurso radical de mudança nos valores tradicionais da política oligárquica no Brasil. Um discurso alimentado por um líder carismático, que fez sua carreira estimulando a polarização entre os puros e os impuros, ou, de forma mais precisa, entre a elite predatória e o povo honesto e trabalhador. Tal discurso, quando traído pela prática, de forma tão abusiva, tende a ter uma reação avassaladora no imaginário do eleitorado. O veredito popular é, quase sempre, proporcional ao tamanho do esbulho, que se materializa na maior ou menor identidade que cada agrupamento conseguiu amealhar na sua trajetória política. O PMDB já foi vítima dessa vindita popular, ao decepcionar a população, como fiador da chamada Nova República. Depois do fracasso da Nova República, o partido desistiu de ter a hegemonia presidencial e passou a ser, apenas, um instrumento fisiológico de sustentação a qualquer governo, a um custo ético muito elevado, que já não tem nada a ver com o partido da resistência ao regime militar.

Relatório recente do Fórum Econômico Mundial constata que o Brasil se tornou a quarta nação mais corrupta do mundo, atrás apenas do Chade, da Bolívia e da Venezuela, conclusão tirada com base em uma pesquisa com 15 mil empresários, localizados em cerca de 140 países. Acrescente a esse quadro a invencionice na condução da política econômica do governo Dilma, com consequências devastadoras, tanto na imagem do partido como nas condições de vida de milhões de brasileiros. Pesquisa recém-divulgada pela empresa “Tendência” revela que a herança deixada pela má gestão do PT está levando o país a um retrocesso social imenso, com a pobreza tendendo a aumentar nos próximos nove anos, mesmo que haja uma melhora do crescimento econômico. Portanto, não é de admirar que o protagonista principal dessa combinação explosiva – corrupção com retrocesso econômico – não tivesse o julgamento rigoroso por parte da maioria do eleitorado, principalmente da parcela localizada nos grandes centros urbanos.

(*) Sociólogo, pesquisador do Centro Josué de Castro

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