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Penso, logo duvido.

O país do baixo clero – João Rego

João Rego

Francis Bacon, Figure with Meat, 1954.

Francis Bacon, Figure with Meat, 1954.

O asco que importantes setores da classe média externaram diante do espetáculo patético de grande parte dos deputados, quando na declaração de seu voto, contra ou a favor do impeachment, revela-se como um sintoma que encobre um sério descolamento desse segmento, os dos mais abastados, do Brasil real – um país ainda severamente marcado pelas desigualdades sociais.

Como é possível que em momento tão delicado da nação, uma grave crise econômica e paralisação política se vote daquela forma, invocando a família, Deus e outros adereços mais?

Cassaram a concordância verbal!!! Mataram a gramática!

Lembro-me de um que citou as microrregiões geográficas que o elegeu, lá no interior do Amazonas: a BR 75 que vai do trecho tal ao trecho qual. Outro, infelizmente daqui de Pernambuco, carregou seu filho para votar em seu lugar, revelando um traço cultural que forja a cultura política de região, desde idos tempos: o feudalismo político. Prática secular da elite política que insiste em se reproduzir a cada eleição, mais fortemente nos setores mais conservadores. Embora, alguns setores da esquerda não fiquem por baixo, com seus mitos de pés de barro; seu populismo tosco e traços de um marxismo anacrônico, mal interpretado e mal aplicado, nutrindo, com o mesmo zelo dos coronéis, suas reservas de mercado das consciências.

Os currais eleitorais, expressão antiga que só fome, unidade celular desse feudalismo político, onde os votos são passados de pai para filho, como um pedaço de terra, ou valioso bem que se coloca em testamento antes de morrer, a tudo resistem, se reproduzindo impermeáveis ao tempo de redes sociais e suas modernas tecnologias de comunicação.

Com o inchamento das grandes regiões metropolitanas, fruto de intensos fluxos migratórios do campo para a cidade formando nossas periferias, os currais, antes demarcado por áreas geográficas no interior se transmutam para dentro das almas dos desassistidos. Estes, carregam agora, como uma maldição, para onde se desloquem a submissão política que moldam suas vidas e, em muitos casos, a de seus descendentes.

Como o gado que, além das inúmeras cercas que os impedem à mobilidade social, são objeto de um poderoso e infernal círculo vicioso determinando sua existência: escola pública de baixíssima qualidade, subemprego, desemprego, violência entre os mais jovens, etc. Semelhante a marca de ferro quente no couro do gado, carregam em seus espíritos a indelével marca da alienação política, tornando-os alvo preferido dos políticos e marqueteiros, ávidos pela compra do voto barato no mercado eleitoral.

Enquanto isso na Sala de Justiça…. uma elite econômica investe em seus projetos – legítimos, tenho que admitir – de ampliar seu patrimônio, gozar com o maravilhoso e célere universo do consumo, regando seus herdeiros com MBAs e cursos no exterior para comandarem os destinos da nação, que seja em cargos públicos, por meio da absurda indústria dos concursos públicos ( precisamos mesmo de um Estado desse tamanho?), que seja no comando dos setores produtivos. Tudo estaria perfeito, exceto pelo fato de que fazem isto de costas para este Brasil periférico. É deste descolamento que falo.

A política, quase sempre delegada a poucos, não é item importante de suas agendas, exceto para reproduzirem seus privilégios e ampliarem suas riquezas. Para muitos, votar é uma obrigação cívica, um feriado a mais, para depois se reunir com a família e amigos, que ninguém é de ferro.

Aqui deve-se registrar o importante papel do PT como o primeiro partido, de nossa recente fase democrática, que deu espaço e voz para os setores “esquecidos” da população – nossos cidadãos de segunda categoria. Mas, tragicamente, encerra um ciclo com parte da sua liderança presa e envolvida com a corrupção, traindo sua missão original. As imagens de Lula com Paulo Maluf e Jáder Barbalho, há algumas eleições atrás, balizavam antecipadamente o desastre que descambaria na crise da Lava-Jato e o impeachment de Dilma Rousseff.

Não viu quem não quis, ou não pode ver.

Se há um valioso ganho com essa crise da Lava-Jato foi que, obrigatoriamente, a política se impôs em nossas vidas. Impeachment, STF, Delação premiada, Primeira Instância, Celso de Melo, Teori Zakaski (ô ´nominho` complicado!), Oderbrecht, Eduardo Cunha, corrupção institucionalizada, são termos que perpassam nosso cotidiano transformando todo brasileiro em juiz. De técnico de futebol para juiz, tenho que admitir, é um salto de qualidade relevante. Trocar o Domingão do Faustão pela votação do impeachment, outro ganho social.

Esse estranhamento, denunciado incomodamente por muitos, reação ao triste espetáculo na votação do impeachment na Câmara do Deputados, mostra que, apesar de significativos avanços na economia e da modernização da classe média, somos ainda um país do baixo clero -, expressão depreciativa usada para isolar aqueles deputados eleitos pelos grotões da sociedade. Um deputado de formação frágil, despreparado pois vindo dos grotões, não representa seus eleitores, trazem apenas condensado em si mesmo a miséria social em que viveu, o que é importante para a democracia, mas insuficiente para consolidá-la, uma vez que estes, assim como seus eleitores, são massa de manobra dos chefes políticos ricos e poderosos.

Vejo, dentre várias ações necessárias para rompermos as estruturas arcaicas de dominação política, a reforma política como a mais importante, começando pelo fim do voto obrigatório e a discussão do voto distrital.

Talvez por aí possamos derrubar alguns currais.

Recife, 22 de abril de 2016.

Revista Será?
www.revistasera.info

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