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Penso, logo duvido.

Prisioneiro da Liberdade

S?rgio C. Buarque?>

Ilustra??o de Oswaldo Goeldi para o livro de Dostoi?vski Recorda??es da Casa dos Mortos.

Ilustra??o de Oswaldo Goeldi para o livro de Dostoi?vski Recorda??es da Casa dos Mortos.

A vida na caserna tem momentos interessantes e alegres pelo intenso conv?vio e camaradagem com a tropa, mas, no geral, ? muito entediante. Depois de seis anos, estava cansado e aborrecido com a carreira militar. Al?m do mais, n?o tinha muita chance de avan?ar na hierarquia elitizada do ex?rcito, arriscando estacionar como um segundo sargento para o resto dos tempos, com um salariozinho sem vergonha e submiss?o a oficiais arrogantes e grosseiros. Por isso, resolvi estudar e me preparar para tirar a farda e vestir uma toga de advogado, uma vida mais livre e, segundo espero, mais instigante e bem paga. Enquanto n?o termino o curso, tenho que ir tocando a vidinha mon?tona do quartel e aguentar este tenente de merda que me tira o ju?zo e a raz?o.

Nossa rotina no quartel parecia isolada do mundo real dos conflitos pol?ticos que jogavam os militares no meio do furac?o, exercendo o poder e se inserindo em todas as atividades do Estado e da sociedade. Eu n?o me interessava por pol?tica e ignorava os discursos ideol?gicos do comando. Minha trajet?ria de vida estava tra?ada, os anos contados e medidos; e este era o pre?o que pagava, na verdade, bastante m?dico, para me formar e buscar uma profiss?o menos ma?ante e irritante, cuidar da minha fam?lia com mais conforto e dignidade. N?o podia mesmo reclamar. Tudo seguia como planejado, o que me motivava a relegar os momentos desconfort?veis do quartel.

Tudo mudou numa tarde de ter?a-feira; fui chamado pelo coronel para informar que nossa unidade tinha sido escolhida para receber alguns presos pol?ticos. A pol?tica entrava na minha vida sem que eu tivesse escolhido e nem pudesse recusar. Sempre pensei que o soldado n?o tinha que pensar em pol?tica, menos ainda tomar parte na pol?tica do pa?s, cuidando da sua miss?o de defender a p?tria com disciplina e honra.

?Amanha de manh? ? informou o comandante – v?o chegar nove prisioneiros pol?ticos, comunistas fan?ticos e terroristas perigosos, que devemos manter prisioneiros nas duas celas. Sargento! O senhor ? o respons?vel pela opera??o sob o comando do tenente Lopez. ? absolutamente proibida qualquer comunica??o da tropa com os prisioneiros, que devem ser tratados com respeito, mas com todo o rigor que merecem pela trai??o ? p?tria e ao governo?.

Sai da sala do coronel desolado e com medo. N?o tinha nada a ver com aquela briga, detestava pol?tica, tinha a vida encaminhada para fora do quartel e agora tinha que me envolver na pris?o de comunistas. Sargento disciplinado e diligente, mobilizei meu pelot?o para todos os preparativos, desde a limpeza e organiza??o das celas at? o esquema de seguran?a para evitar qualquer surpresa.

No dia seguinte, o pelot?o estava enfileirado na entrada principal do quartel e acompanhava at? a porta das duas celas formando um corredor de soldados bem armados e muito tensos depois da ordem do dia do coronel e dos gritos nervosos do tenente Lopez. O port?o central foi aberto para a entrada de duas kombis pretas completamente fechadas; estacionaram perto do corredor enquanto dois soldados trancavam atr?s o port?o de ferro do quartel.

Eu estava muito nervoso e preocupado quando foram abertas as portas dos ve?culos. O primeiro prisioneiro apareceu diante de n?s; um homem magro, muito jovem, com uma cara assustada e um olhar vago, barba rala e passos tr?pegos, bem longe da imagem do perverso e perigoso terrorista anunciado pelo coronel. Excetuando um quarent?o com olhar alucinado e arrogante e de passos firmes, que saiu da segunda Kombi, todos os prisioneiros pareciam fr?geis e aterrorizados enquanto passavam pelo corredor de soldados em dire??o ?s celas, seguidos pelos gritos de ?dio e amea?as do tenente.

Conclu?da a opera??o, todos os presos foram trancados nas celas e observados atrav?s das grades por soldados que mantive diante das duas entradas. Fui para a sala de armas tomar um caf? e descansar do desgaste psicol?gico. Me sentia desapontado e confuso com o espet?culo de for?a e poder contra aqueles rapazes que pareciam estudantes e moleques brincando de mocinho e bandido. Era uma situa??o grotesca. Provavelmente, para eles eu deveria ser o bandido; para o coronel e seu raivoso tenente, claro, eles eram os bandidos e eu um servi?al do bem.

Durante todo o dia eu passava pelo corredor para observar as caras e o comportamento dos prisioneiros; n?o podia imaginar aqueles jovens t?midos com uma pistola na m?o assaltando ou agredindo algu?m. Apenas o homem mais maduro parecia ter alguma coragem e ousadia para a??es armadas, mesmo assim, tinha um aspecto de pessoa honesta. Bem, as impress?es visuais s?o enganadoras. Mas, mesmo assim, n?o conseguia ver maldade nos seus olhos negros e tristes.

Depois do almo?o, quando tomava um caf? na guarda, ouvi vozes no corredor. Os soldados tinham ordem expressas para n?o falar nada com os prisioneiros. Quando sai, vi que um dos jovens da primeira cela tentava conversar com o soldado e, ao me ver, falou diretamente comigo. ?Oficial, consegue uns livros pra n?s! Queremos ler alguma coisa, ou livro ou revista, jornal, qualquer coisa pra passar o tempo nesta monotonia?. Respondi que n?o estava permitida entrada de jornais nem livros, mas que ia conseguir um jogo de dama e de xadrez para eles jogarem.

Talvez pela forma gentil que me falou, aquele pedido me tocou a alma e sem pensar muito tomei uma decis?o arriscada, aproveitando que a proibi??o era restrita a livros e jornais. O que n?o ? proibido, permitido est?, n?o ?? Foi o que pensei para justificar minha decis?o no vazio das ordens: arranjar um jogo qualquer para os presos. N?o entendi porque proibir leitura aos presos. Jornal e outras fontes de not?cias at? que se entende, mas livros?

Ainda fiquei remoendo a ideia durante o resto do dia, e na manh? seguinte procurei falar com o comandante. ?Coronel! Queria pedir permiss?o para passar alguns livros da biblioteca para os prisioneiros?. N?o esperava sua aprova??o, mas tamb?m n?o pensei que fosse rejeitar t?o enfaticamente meu pedido, de modo que ainda tive a ousadia de argumentar, o que quase me valeu uma ordem de pris?o. ?Se me permite, coronel, podemos emprestar a B?blia Sagrada ou a Hist?ria do Ex?rcito Brasileiro, livros que podem at? mudar a cabe?a destes jovens?.

Rabo entre as pernas, emputecido e humilhado, desci a escada para o corredor e passei com raiva pela frente das celas, ?dio da grosseria que aguentei do comandante e desprezo por aqueles comunistas que tiraram a tranquilidade dos meus ?ltimos anos de caserna. De qualquer modo, sem consultar o comando como tinha prometido, passei um jogo de dama para a primeira cela e o de xadrez para a segunda.

Tive dois dias de folga para passar com a fam?lia. Comentei com minha mulher aquela quase desobedi?ncia e ouvi foi uma dura repreens?o: ?Voc? vai arriscar nossa vida, a seguran?a dos meninos com esta besteira, com pena de preso!?? Conversamos, tentei apaziguar o temor de Eliane, mas tamb?m eu mesmo n?o estava nada quieto. Aquele impulso de desobedi?ncia me comia por dentro. Por?m o medo e o h?bito disciplinar de respeito ? hierarquia me seguravam. Eliane tinha raz?o: em primeiro lugar na minha vida estavam a seguran?a profissional e a fam?lia. No final da folga j? nem lembrava mais do anseio infantil de ajudar os jovens prisioneiros.

No terceiro dia, voltei para minha ingrata miss?o de guarda de preso pol?tico. Tudo continuava na mesma, exceto o ambiente entre os prisioneiros: se sentiam mais ? vontade, conversavam muito entre eles, brincavam e tinham perdido parte da cara assustada dos primeiros dias. Em v?rios momentos, sorriam e pareciam mesmo alegres. Quando passei pelo corredor um deles me cumprimentou com um ?bom dia, sargento? e percebi que eu j? n?o tinha nenhum medo ou inseguran?a. Eles pareciam bem ? vontade por tr?s das grades e contentes com o retorno do carcereiro. ?Com o tempo, relaxamos tamb?m o excesso de rigor e retiramos os guardas das portas das celas, completamente desnecess?rio.

N?o respondi ao cumprimento. Tinha medo de ser suspeito e merecer novas advert?ncias do comandante, mesmo porque o tenente Lopez estava sempre por perto como se me vigiasse. Acho que era isso mesmo: eu vigiava os presos e o tenente me vigiava; n?o sei se algu?m o vigiava, mas acho que era necess?rio um controle deste homem que destilava ?dio pela humanidade e, particularmente, pelos comunistas. N?o sabia mesmo distinguir o mocinho dos bandidos, nem a qual dos dois deveria temer mais, os comunistas com cara de menino assustado ou o oficial raivoso e intolerante.

Da minha sala ouvi um preso me chamando atrav?s da grade. N?o deveria conversar com eles, mas fui ver o que queriam. De forma muito gentil, o prisioneiro pediu autoriza??o para mandar comprar um rem?dio porque um deles estava com uma crise de asma. Aproveitou para insistir no pedido de livros. ?Sargento ? disse o prisioneiro ? qualquer livro serve, at? mesmo a Lista Telef?nica, completou sorrindo?. Mandei o enfermeiro examinar o prisioneiro enfermo e providenciar a medica??o, mas informei que, lamentavelmente, n?o poderia atender ao seu pedido de livro. Ponderei se n?o estava excessivamente amig?vel com os prisioneiros, o que seria bastante suspeito, de modo que levantei a voz para parecer dur?o ao transmitir a ordem do comando. Acho que meu grito de comando n?o os convenceu da minha autoridade. Que me importa o que pensam? Eu precisava mesmo era convencer o tenente e o comandante do meu rigor na rela??o com os prisioneiros, certo de que eles me vigiavam.

Passado quase um m?s da chegada deles ? pris?o no quartel, alguns dos seus familiares vieram ao quartel procurar os parentes e trazer comidas, roupas e livros. O comandante me chamou e mandou examinar as sacolas e distribuir com os prisioneiros, excetuando os livros; entre eles, a B?blia, contos de Machado de Assis, poemas de Manuel Bandeira e de Fernando Pessoa, e um volume ilustrado de Grande Sert?o Veredas de Guimar?es Rosa. Nada de pol?tica nos livros. Cumpri as ordens do coronel, distribui as sacolas nas celas e guardei os livros na sala da guarda.

Passei dois dias observando aqueles livros sobre minha mesa, achando uma grande covardia impedir que os presos recebessem os presentes e pudessem se debru?ar sobre as novelas e poemas para aliviar as restri??es da cadeia. Tinha um impulso de enfrentar o comandante e descumprir a rid?cula e inaceit?vel ordem, mas temia que tivesse destino pior que os jovens prisioneiros. ?Ele pode me expulsar da vida militar ? pensava – e eu n?o tenho como viver e sustentar minha fam?lia; ainda preciso de dois anos para me formar?. Pensava assim e repetia para mim mesmo, no intuito de controlar a ansiedade irrespons?vel que me consumia a alma cada vez que via os livros ou percebia os presos espalhados pelas camas.

Tinha muito medo, na verdade tinha mais medo que os nove prisioneiros que, ?quela altura, n?o tinham muito o que perder. J? estavam presos mesmos! Que mais poderiam sofrer? Eles conversavam, riam, brincavam e dormiam, dormiam muito. Pareciam mais livres que eu. Dentro do limitado espa?o das celas, eles podiam dizer o que quisessem e expressar seus pensamentos e suas ideias. De minha parte, eu vivia amedrontado e atormentado pelo olhar desconfiado do comando militar e do prepotente tenente, sempre com receio de cometer algum deslize que pudesse arruinar meu projeto e minha vida familiar. Do lado de c? das grades, eu era o prisioneiro de uma liberdade duvidosa e assustada.

Os livros estavam na minha mesa sempre denunciando minha covardia e coniv?ncia com aquela imbecilidade, impedindo que os jovens – mesmo que fossem perigosos terroristas – pudessem ler e se instruir ou se ocupar com uma boa literatura. Olhava a B?blia do meu lado, com os ensinamentos de generosidade e bondade de Cristo, e com o exemplo de coragem do filho de Deus, e me sentia um verme, submisso e humilhado; naquela tarde, li alguns trechos da B?blia e me perguntava como poderia amar ao pr?ximo se eles eram comunistas ateus e defensores da viol?ncia contra o governo? Era estranho mas come?ava a sentir uma afei??o curiosa e muito inc?moda pelos jovens prisioneiros, o que nunca tinha sentido antes pelo tenente arrogante, talvez menos crist?o que os comunistas.

Depois de dois dias de sofrimento moral e leituras esparsas da B?blia, num impulso desvairado e muito arriscado, me aproximei da primeira cela e chamei Pedro, um dos jovens mais falantes. Passei, discretamente, o livro de Machado de Assis entre as grades, pedindo que o escondessem com cuidado. ?Estou fazendo uma loucura ? acrescentei ? e se descobrirem, quem est? lascado sou eu; voc?s apenas perdem o livro mas eu perco tudo?. Para a outra cela, entreguei a B?blia. Se eram ateus, n?o sei, mas o livro sagrado gerou um grande entusiasmo no grupo. Estava criada uma perigosa cumplicidade do carcereiro com os prisioneiros e nesta rela??o eu era a criatura mais vulner?vel. Tinha um medo terr?vel, mas estava absolutamente realizado com a transgress?o e a desobedi?ncia diante da ignor?ncia.

Uma voz me perguntava insistente: ?De que lado voc? est? afinal, sargento Moreira? De que lado? Da ordem e disciplina militares que garantem estabilidade do pa?s, ou dos comunistas que querem destruir o Estado e amea?am a sociedade crist???. N?o sei se tenho que estar de algum lado. Penso que posso ser apenas um brasileiro simples e sem pol?tica ou ideologia, e que n?o aceita esta insanidade coletiva de lado a lado.

Mas, devo confessar, adorei desrespeitar as ordens e realizar minha liberdade, decidir e fazer o que penso, mesmo contra tudo e todos, e mesmo secretamente, o que talvez desse at? mais m?rito ao meu gesto de indisciplina. Senti uma excita??o na alma e uma corrente el?trica parecia cortar todo o meu corpo. At? aquele momento de ousadia, eu era mais preso que os comunistas. Agora, eu sou um homem livre. Me borrando de medo, ? certo. Mas com uma deliciosa sensa??o de liberdade e de coragem pessoal. Nunca mais dormi tranquilo. Receio que, a qualquer momento e por qualquer descuido, seja descoberto. Mas desde ent?o deixei de ser um sargento para me tornar simplesmente um homem, um cidad?o talvez, um homem livre com todos os riscos que representa esta liberdade.

 

One Comment

  1. Li o conto do Sergio no momento em que leio Hannah Arendt sobre a banalidade do mal, personalzada em Adolf Eichmann, mostrado como o que Sergio chamou de “serviçal do bem”, o sargento entre os oficiais e os comunistas. Ele não era ninguém mais do que o vetor de transmissao de uns na luta contra os outros. Esta ideia do impotente “serviçal do bem” é um ponto alto do conto. Mas a ideia dos riscos da liberdade é a grande mensagem: é muito perigoso não cumprir as regras definidas pelo sistema, seja por revoltosos seja por repressores. Prisioneiros também.

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