Medo

Medo

A gente olha para o próximo dia 4 de outubro, primeiro turno das eleições gerais desse ano, e fica se perguntando se ainda haverá algo capaz de modificar o quadro que se anuncia. Um boato, uma nova denúncia, um escorregão feio, uma fake news? Uma faísca de esperança? Não dá para descartar nada, tamanhas têm sido a mediocridade das campanhas atuais e a profusão de escândalos. Tempos líquidos são tempos escorregadios, mutantes, frenéticos. Difíceis de serem captados. Fala-se em desconfiança, decepção e desinteresse do eleitor, aturdido com tanta corrupção e falta de sinalizações seguras. Ele não vislumbra o “destino” que virá a partir de 2027. Nem os candidatos.

Ninguém sabe para onde o país deve e pode se dirigir. Não há mapas de navegação. O governo Lula 4 é desaprovado em todas as grandes áreas das políticas públicas, mas ainda conta com uma bolsa de “afetos” e benefícios que dão lustro à sua trajetória. Outra parte do eleitorado olha para o filho de Bolsonaro tentando ver nele a sombra do pai. Não o aprova com ênfase. Como um eleitor assim posicionado fará sua opção? Ele está assustado com os riscos de votar em um ou em outro candidato. A fé que lhe resta não parece forte o suficiente para impedi-lo de fugir das urnas, vê-las com desgosto ou temê-las.

Muitas coisas condicionam o processo eleitoral e a luta política. Coisas complicadas, não favoráveis a uma visão otimista do próximo governo. O estado de espírito da população pesa forte. Os brasileiros não parecem resignados, mas também não estão confiantes. Cansados e desiludidos, saboreando a contragosto os escândalos de cada dia, olhando para o horizonte como se fosse a tela de um celular. Veem um Brasil de gente poderosa, que mexe em dinheiro público sem prestar satisfação e se exibe em jatinhos, rodadas de uísque e charutos. Um Brasil em que juízes perderam as togas e ficaram nus no palco.

O brasileiro médio de hoje é um cara que mastiga raiva e conformismo, carente de uma lufada de ar que o mobilize.

Hoje, o real incorporou a dimensão virtual. Diluiu-se a separação entre o físico, o presencial, e o digital. A inteligência artificial não é inteligente nem artificial, mas está por toda parte. Nada mais se faz sem uma aplicação dela. Somos movidos por informações criadas a partir de outras informações, que surgem sem que saibamos a origem. Pior: acreditamos nelas e as utilizamos para criar novas informações. Recria-se a realidade com deepfakes, inventando-se um mundo paralelo que a cada dia impregna mais e mais a vida real. A esfera pública, bem como as rodas de conversas entre amigos, tornam-se um palco no qual cada um esgrima sua indignação e suas verdades. O que era complexo ganhou, assim, uma extraordinária dilatação.

Ficou mais fácil “esconder” a realidade, cobri-la de vídeos e postagens que embaralham as cartas, confundem e saturam. O que é estrutural é empurrado para as margens, sai de foco e evapora. Sobra aquilo que é mais fácil: promessas, conspirações, ilusões.

Na disputa eleitoral cujo desfecho se aproxima, os candidatos também cavalgam a realidade. Na superfície, usam e abusam de seus trunfos. Lula tem a caneta na mão e conta com uma biografia empolgante de liderança popular e reconhecimento. Mas não vê aquilo que faz com que parte do eleitorado o rejeite, ou seja, aquilo que seu governo não conseguiu ou não pôde realizar. O filho de Bolsonaro, por sua vez, sente o aplauso dos populares que o acompanham em sua peregrinação, mas não vê que fala por sua família, não para o País. Age movido pela convicção de que é preciso manter vivo um “mito”, sem qualquer preocupação de tentar apreender o subsolo. A pretexto de “acabar com o sistema”, quer restringir a democracia e concentrar poder.

Ao exacerbar posicionamentos e opções, a disputa eleitoral ajuda a ocultar o processo real, que não emerge à superfície da vida e não é captado. Você ouve os candidatos e percebe que nenhum deles, a rigor, deixa de fazer promessas e de se apresentar como um mágico que determinará livremente a vida de todos. Eles também flutuam sobre a realidade, ignorando suas camadas mais profundas, onde repousam as raízes de nossas dificuldades e germina o futuro.

São candidatos, porém, que não podem ser equiparados. Seus currículos são muito diferentes. As trincheiras das quais combatem são opostas. Gostem ou não de Lula, ele não tem sacrificado a democracia, não a ameaça, nem pretende desorganizá-la. É um presidente que vem cometendo erros seguidos e faz uma campanha medíocre. Mas se mantem firme no terreno democrático. Flávio Bolsonaro, por outro lado, não tem credenciais para postular a presidência e, além do mais, carrega consigo suspeitas demais e vínculos com o golpismo e o autoritarismo típicos de sua família.

As crises que nos atormentam vêm sendo plantadas pelo jogo de forças que também transcorre no subsolo da realidade. Esse jogo é potencializado pela coreografia que salta na superfície, movida a opções e escolhas equivocadas, à insistência dos agentes em seguir ritos consagrados, estilos gastos de liderança, caminhos já trilhados, alianças oportunistas que geram resultados de curto prazo, mas não fornecem oxigênio para viagens mais longas. Resultam da sucessão de polarizações e mediocridades que não soubemos desfazer a tempo.

O país clama por reformas profundas. Elas dependem de empenho e articulação dos democratas. Em vez de “finalizar” o sistema, devemos nos bater para substitui-lo por outro melhor, mais democrático e funcional, sem donos do poder. Nenhum dos que postulam a Presidência pode fazer isso sozinho ou com as forças que os apoiarem.

A arranque precisa vir de baixo.