COVID Desinformation in Africa – autor desconhecido.

 

A coisa pode ser imaginada no ideário da sociologia da ciência, mais ou menos assim (lembradas ideias de uma vagante mente de um corpo em quarentena, no inferno da chegada da Covid-19):

Três Professores Doutores de prestigiosa e multicentenária universidade, verão à vista, com seus brown bags à mão, almoçavam e conversavam  à costumeira sombra de uma das famosas macieiras do campus. Passa um “expertalhão”, claramente os identifica como professores e se aproxima. Uma fabulosa oferta lhes foi feita:  prestar serviço a lideranças de pesquisas que visam royalties, firmar o pé no estribo do bonde dos que recebem larga grana como experts  de laboratórios interessados em obter royalties, desenvolvendo drogas médicas. Quem não gostaria de trilhar tal vereda?

Mas, que simpático este expertalhão (deduzo, pois nunca vi, nem ouvi falar, de malandro que não fosse simpático). Doutor, líder em uma empresa, de nome moderno, instigante, coerente por atuar em vasta amplitude dos saberes humanos, e de contar com mais de dez “expertos” em áreas tão diversas como Produção Agropecuária e Alimentação; Logística; Filosofia e Aestética; e Físico Química, para não mencionar todas. Na verdade, por ordem, tratava-se um vendedor de cachorro-quente; um entregador de pizza; uma manicure; e um fabricante de whisky moon light (aquele whisky de milho fabricado nos grotões do cinturão da bíblia, nos states, escondido do fisco, que vez por outra causa cegueira pelo conteúdo de metanol). Apresentava um artigo já prontinho, na crista da onda – a derrubada definitiva da controversa hidroxicloroquina. Era só assinar e amanhã teriam um artigo publicado na prestigiosa revista O Bisturi. Entrariam no livro de ouro das publicações científicas marcantes na história.

O artigo era mesmo uma bomba impressionante. Dados de 196 mil pacientes, de cento e tantos hospitais dos cinco continentes (quatro?), da América, da Antártida, da Ásia, da Europa (um só continente considerado dois pela imposição à Geografia do racismo dos brancos do lado ocidental dos Urais como divisor?) e da Oceania. Tão completo, pela diversidade de locais e de situações. Um hospital no Himalaia, outro no Aconcágua, outro nas margens do Titicaca, outro na cratera do Krakatoa, outro na Rocinha, Rio de Janeiro, outro em Barcelos (dois dias de barco de Manaus), em Machu Pichu, em Washington estado, em Washington, capital (deve ter sido um cara importante o senhor Washington, vou ler sua biografia). E em Reykjavik, um em Roma, até um instalado na sede da Cosa Nostra. E ainda hospitais recém-inaugurados e até um “desinaugurado” (não chegaram os ventiladores-respiradores para humanos, prometidos para o dia seguinte, quer dizer, os que chegaram eram desumanos).

Alguns pesquisadores cutucaram a internet e descobriram cheiro estranho no ar. The Guardian, vigilante, botou a boca no trombone. Ameaças de auditagem nos dados. Os Professores concordaram. O expertalhão, não, isso é duvidar de sua “inauditável” seriedade. O artigo foi “despublicado”. Ficam na história, seus autores, por terem um artigo despublicado (Nunca haviam pensado que um curriculum devesse ter uma seção para tal categoria de artigos despublicados).

Moral da história. Mesmo numa pandemia, e principalmente numa pandemia, cuidado com quem lhe estende a mão para pisar no estribo de certos bondes.  Faça o óbvio: nunca, nunca despreze o popular “de esmola grande pobre desconfia”.