Campo - Van gogh

Campo – Van gogh

 

O escritor Clemente Rosas entregou recentemente ao público seu mais recente livro, belamente intitulado de Sonata de Outono, Editora Sal da Terra, João Pessoa, 2022, com capa igualmente bela de Raul Córdula. Um volume bom de se ver e mais ainda de se ler, pois nele estão reunidos saborosos perfis, “causos”, memórias, crônicas, artigos e ensaios, tudo lastreado pela longa experiência existencial do autor e por uma escrita à altura do homem de letras que ele sempre foi.

Em seu prefácio, Clemente explica o título, mas nem precisava. A sonata (“peça de polifonia vocal … executada por vários instrumentos”) tem a ver com a diversidade dos textos que compõem o livro. E o outono com a idade do autor (82 anos), o que muito valoriza a obra, dada a sabedoria de vida que lhe fundamenta. Como é sabido por muitos, Clemente é um intelectual de peso e um pensador lúcido, alguém que muito viveu, muito leu e muito refletiu, enfim, alguém que tem o que dizer ao leitor, para além da superfície das palavras. Chamá-lo, pois, de sábio não é propriamente um exagero, mas simplesmente respeitar e realçar sua já longa vivência, coisa normal para os povos civilizados, valorizadores da experiência.

A relação dos perfilados pelo autor dá uma boa ideia da importância de sua trajetória pessoal e profissional: Francisco Julião, Miguel Angel Astúrias, San Tiago Dantas, Petrônio Portela, Alcides Carneiro, Marco Maciel, Ariano Suassuna, Paulo Pontes, Celso Furtado e Cristovam Buarque, entre outros. Uma galeria de notáveis que, por si só, já bastaria para preencher uma vida – e um livro. De mais ou menos perto, Clemente cruzou o caminho desses personagens (ou o contrário), de alguma maneira e em alguma medida, enriquecendo sua caminhada com eles. Bastaria esse capítulo do livro para dar testemunho da qualidade das experiências vividas pelo autor, alguém que participou – e não apenas assistiu – intensamente da vida nordestina e brasileira a partir dos anos 1960. Nem sempre, claro, teve protagonismo nos acontecimentos narrados, mas sempre neles atuou de forma valorosa e idealista, além, muito além, dos condicionantes e limites ideológicos. A propósito, é importante destacar que ele nunca foi submisso ideologicamente a nenhum credo político, pois sempre soube subordinar as eventuais ideologias momentâneas ao seu constante refletir iluminista, superando-as quando a razão – e as circunstâncias – o aconselhassem. Essa grandeza, nem sempre compreendida, tem engrandecido sua biografia.

  Os “causos” são ótimos. Verdadeiros retratos dos velhos tempos. Neles, todo um apanhado sociológico e cultural da época, através de personagens e histórias praticamente típicos do nosso mundo paraibano de então. São coronéis, matutos, antepassados, bichos e memórias familiares, tudo envolvido em tramas pitorescas, ressuscitadas e agora eternizadas pelo autor.

Os ensaios, chamados por Clemente de irreverentes, abordam assuntos vários com a perspicácia do leitor atento que ele é – e sempre foi. Tanto exaltam como criticam, quando é o caso. Temos, entre outros, sob suas criteriosas lentes,  Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Marília Arnaud, Clarice Lispector, assim como a controversa vaquejada, “tradição nordestina tão importante como a cantoria e os sanfoneiros”, e o cinema de Cacá Diegues.

Os artigos filosóficos e políticos nos apresentam o pensador exigente, racionalista a toda prova, iluminista praticante. Os textos mostram a cultura acumulada pelo autor, suas reflexões sobre questões atemporais, como o sentido da vida, ciência e religião, a figura de Jesus, a ética, e por aí vai. Percebe-se que Clemente formou suas convicções à base de muitas leituras e muitas observações, mas também que não pretende converter ninguém: proselitismo não é com ele. Bravo!

Finalmente, as crônicas revelam as viagens do homem do mundo e seu olhar atento sobre o entorno. Com uma presença que se destaca de forma indisfarçável: o mar. Sim, porque Clemente Rosas é antes de tudo um homem do mar, desde sempre à beira da praia Formosa, em Cabedelo, reduto ancestral de sua família. Ele é um marinheiro, um marujo, mesmo que sem navio, não importa. A visão do mar e a experiência do mar lhe são vitais, percebe-se; longe dele, Clemente seria sempre um exilado. Viver em Formosa permite-lhe viver simultaneamente no mundo e fora dele, privilégio de poucos, nestes tempos freneticamente urbanos. 

Os autores sempre acabam por se revelar no que escrevem. Há um parágrafo do livro de Clemente, às páginas 214, em que ele o faz de maneira muito clara: “A esta altura, devo uma explicação sobre minhas preferências em matéria de arte e literatura. Não me empolga o ‘épico barroco’ de Glauber Rocha , na feliz expressão de Cacá Diegues. Prefiro o tratamento sóbrio de Nelson Pereira dos Santos ou Leon Hirzman. Entre Jorge Amado e Graciliano Ramos, sou mais Graciliano. Entre Vinícius e João Cabral de Melo Neto, fico com o segundo”. Eis o homem. Clemente é cultor da sobriedade (não da secura), desconfia das exuberâncias e dos exotismos. Não aprecia derramamentos, “gorduras” supérfluas, sendo ele mesmo magro e esbelto, como aliás eram Graciliano e João Cabral, ambos enxutos no físico e na literatura. É mais da razão que da imaginação, mais da experiência que da fantasia. Mas sem radicalismos – sempre, posto que muito preza o bom senso, sabedoria do homem comum. Suas preferências literárias e artísticas dizem tudo sobre sua disposição psicológica mais profunda, determinante de sua maneira personalíssima de ser e estar no mundo. Sem atentarmos longamente para elas, jamais poderemos compreender minimamente o homem Clemente, seu jeito, suas opiniões, seu pensamento.

Fui ao lançamento de seu livro na companhia do professor Wilson Marinho e de lá trouxe para o meu acervo uma pérola que Armando Klabin deu a Clemente e ele citou a propósito de uma recente experiência sua em nossa terra, uma experiência ingrata, certamente, e que ele, por todas as razões, não merecia. Essa pérola é a frase aparentemente óbvia, mas tão consoladora: “ Aqueles que não nos querem, não nos merecem”. Só com isso ganhei a noite. Mas, é claro, havia ainda o livro, apreciável volume que a todos recomendo.