
Ultra direita
Ao que tudo indica, a ultradireita brasileira já tomou para si a pauta da segurança pública. É como se nos dissesse: “Disso eu entendo”. Semanticamente, essa pauta vincula-se, embora não diretamente, claro está, à militarização da política, cujo guru inexcedível é o ex-presidente Jair Bolsonaro, aliás hoje instalado em local seguro, senão seguríssimo: sua própria mansão. Enquanto deputado federal, sua pauta não foi outra senão uma defesa quase sindical das forças de segurança, e não por acaso é tão querido por policiais e militares em geral, malgrado as bombas que um dia lhe passou pela cabeça jogar nos quartéis do Exército.
Um dos candidatos à presidência já abriu o jogo, falando na mídia que “tem mão pesada para a bandidagem”, o que é tudo que pobres e classes médias querem ouvir. A “mão pesada” não se estende ao citado presidiário nem àqueles que, iludidos pelo bolsonarismo, agrediram a democracia e o patrimônio público, depois de agredirem a inteligência em geral.
A segurança está no radar como saborosa isca. Quem não deseja segurança? Talvez só os mais ricos da população, que andam de helicóptero nos céus de São Paulo e curtem a pé as ruas de Londres, Paris, Nova York, Zurique e congêneres. Pesquisas já dão conta que a pauta da segurança é a grande pedida dos brasileiros. Por falar em São Paulo, estado governado por um bolsonarista, repita-se que sua segurança pública está na lona. Uma segurança em frangalhos, operada por uma polícia truculenta, especialmente grosseira quanto trata com os mais pobres da população.
Não precisamos refletir muito para saber que a “mão pesada” dos candidatos para a bandidagem é a mesma “mão leve” que toca políticas demagógicas e antipopulares e “vai passando a boiada”. A mão que não larga nem o osso nem a carne de um poder autocentrado e autoritário, em vários casos “aspirante a fascista”, para usarmos a expressão do historiador Federico Finchelstein.
Nessa última terça-feira, 12 de maio, o jornal “Folha de S.Paulo”, publicou matéria com o longo e dúbio título: “Em discursos como deputado, Flávio deixou de lado saúde e educação para defender polícia”, assinada pela jornalista Laura Intrieri. Alguma novidade? Nenhuma! Mas, de fato, um bom alerta a quem candidamente sonha com um moderado Bolsonaro na presidência.
A matéria mostra uma pauta similar à do papai na Câmara Federal. Quanto ao filho, a segurança pública “foi o tema dominante em 68% das falas do então deputado”. Já na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, “Os discursos também expõem elogios ao período da ditadura militar, com endosso à homenagem do então deputado federal Jair Bolsonaro a Carlos Alberto Brilhante Ustra (um dos principais expoentes da tortura no regime), além de críticas às cotas raciais e ao modelo de família com homossexuais”. Também aqui nenhuma novidade. A novidade, supomos, está noutro lugar, ou seja, na circunstância de uma campanha eleitoral à Presidência do País na qual a segurança pública, como um buraco negro, pode sugar uma diversidade de temas, por assim dizer, tão ou mais importantes a uma agenda nacional. Escusado dizer, pois é outra não novidade, que rios de tintas acadêmicas para soluções na área já foram derramados e, claro, desviados para o mar geral da indiferença e da procrastinação…
É assim, sob a ofuscante obsessão de segurança, mas num contexto de disputa à Presidência da República, que uma questão de fundo nos parece decisiva para a complexa democracia nacional e para todas as democracias atuais, como bem o observou Yascha Mounk em seu livro “O grande experimento”, a saber: a diversificada natureza da democracia contemporânea, uma heterogeneidade que chegou para ficar e exige a superação de sectarismos. Enfim, a massa democrática não é um prato de fácil digestão para candidatos simplistas, despidos de maior complexidade política e sem uma sintonia fina para compreender a diversidade e pacificar conflitos internos. O Brasil não precisa de “mãos pesadas” seja lá sobre o que for. Nem precisa de Bolsonaros ou sub-Bolsonaros. Precisa de democratas que pratiquem o “grande experimento”: construir uma democracia tão inclusiva e agregadora quanto diversa e estável. Só com essa segurança poderemos gerar a segurança que desejamos.
Pois é. O que as esquerdas precisam fazer é retomar a bandeira das mãos da Direita, que a monopolizou.
E isso é urgente. As eleições estão aí.
A bandeira da SEGURANÇA!
A bandeira verde e amarelo também!