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Penso, logo duvido.

Impressões de um viajante: Viena – João Rego

João Rego

Vista da praça na frente do Leopold Museu em Viena – by João Rego.

Viena, na passagem do século XIX para o século XX, foi a origem de uma revolução na forma como seria definida nossa humanidade. No epicentro dessa revolução estava Freud e seu livro “A Interpretação dos Sonhos”. Como toda revolução duradoura, a princípio, não foi bem recebida. Pelo contrário, foi rechaçada, pois a descoberta do inconsciente abria uma enorme cratera no narcisismo da humanidade.

O homem, que tinha a convicção de que a terra era o centro do universo, com Copérnico sofre o primeiro impacto, descobrindo nossa inexpressiva importância diante do cosmo. Restou a percepção religiosa de que éramos a imagem e semelhança de Deus. Veio então a nossa segunda grande frustração, com Darwin e sua obra “A Origem das Espécies”, nos nivelando aos animais, como primos em primeiro grau dos primatas

A filosofia de Descartes viria nos resgatar um pouco desse orgulho ferido, com o “Penso, logo existo”. Se não éramos o centro do universo, nem a imagem e semelhança de Deus, éramos donos da nossa consciência. Esse último fio de esperança foi destruído com a descoberta do inconsciente, uma instância inacessível à consciência, que funda nossa existência como sujeito, moldando nossos desejos, definindo a forma como nos inserirmos no mundo e, muitas vezes, com dor, denunciando nossa radical alienação em relação àquilo que somos.

Lacan, um grande leitor de Freud,  que refundou a psicanálise, definiu numa curta frase essa nossa alienação:  “ Penso onde não sou, sou onde não penso.”, referindo-se ao inconsciente como a essência do sujeito.

*

A BERGASSE STRASSE  19.

Este é o endereço da casa onde Freud viveu 47 anos e que, para minha frustração, estava em reforma,  tendo sido feito um puxadinho na casa no 13, que já tinha lido, não valia a pena pagar pela visita. Entretanto, não foi possível conter a emoção ao pisar o solo, andar pelas ruas, praças e cafés em que Freud viveu. Obviamente, guardei este momento discretamente comigo,  Elba nem percebeu. A psicanálise teve uma importância vital para mim, reorganizando minha vida afetiva, ensinando-me a lidar com meus limites e minhas fragilidades.

A Bergasse Strasse 19 era, portanto, o meu Schonbrunn, um castelo de conhecimento onde enfim, alojei o meu espírito.

KLIMT e EGON SCHIELE

Nessa mesma época surgiu nas artes visuais a ruptura com a estética vigente, filha obediente do império austro-húngaro. Foi o movimento liderado por Gustav Klimt e outros, auto- intitulado como “Secessão”. Uma revolução na arquitetura, no urbanismo, no design, na dança, enfim uma onda que rompia as barreiras das envelhecidas estrutura de poder. Se a psicanálise libertava, em parte, o sujeito do peso da culpa e da repressão da sexualidade, os artistas, através das suas obras, construíam um novo universo visual, uma nova e ousada forma de expressão do sujeito diante do mundo.

Encontramos no Museu Leopold a exposição VIENA 1900, com as principais obras desses artistas, os quais estão, irreverentes e desafiadores, retratados na famosa foto do grupo. Tirei uma foto com Elba no canto do enorme painel.

O Leopold, um moderno e bem equipado Museu, fica no Quarteirão dos Museus, um maravilhoso complexo de artes visuais que, para você curtir bem, teria que passar, pelo menos, uma semana nele. Nos perdemos e entramos numa sala de exibição de filmes, documentários e montagens. Sentamos na frente de uma tela e colocamos o headphone que, para nossa alegria, narrava o belo texto do filme em inglês, e não em alemão. O documentário tinha o título “ A Política do Êxtase”,  e retratava os seguidores do Deus Baco, na Roma Antiga. Uma obra impactante, pois apresenta, baseada em importantes fontes históricas, a primeira intervenção do Estado sobre o corpo e a sexualidade do indivíduo.

Após cerca de duas horas de deslumbramento vendo as obras de Klimt e Egon Schiele, dentre outros, saímos felizes,  porém com fome. Na praça, na frente do Museu,  uma festa,  dia ensolarado, as pessoas espichadas relaxadamente em  cadeiras e, ao lado, bares e restaurantes. Sentamos e pedimos cerveja  e uma salada de aspargos frescos, recomendada pela simpática garçonete marroquina.

Como tínhamos comprado tickets para um concerto às 19:30, era prudente descansarmos um pouco em casa para chegar bem à noite.

DICA:  Em uma cidade grande, não pense duas vezes, compre logo seu ticket de metrô com a duração dos dias que vai ficar. Mas isso na primeira hora, pois você fica com a cidade nas mãos. Nos deslocamos com rapidez, conforto e segurança, poupando tempo e energia para o essencial.

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O CONCERTO

Como estava tudo em alemão, tive que fazer a compra pela internet, com calma, para não errar. Solicitei pegar os tickets na portaria do teatro. Saímos alinhados que só meio-fio, dentro do que era possível, considerando minhas duas calças jeans para toda a viagem. Elba veio bem mais preparada para um evento como esse.

Compramos o ticket mais barato, de 6 euros,  para assistirmos em pé mesmo, como foi no Jazz Dock, em Praga. O teatro foi a Academia de Música de Viena, bem menor que o Staatsoper, o suntuoso Teatro da KartnerStrasse, mas, mesmo assim,  tem seis salas de concertos no subsolo e mais duas em cima, podendo apresentar oito concertos simultaneamente!

Chegamos meia hora antes e nos juntamos a um grupo de turistas que iria assistir em pé. O espaço é suntuoso, porém tudo era em alemão.  Da fala do maestro ao programa, o que achei uma tremenda falta de consideração com quase 70 % da audiência, que era de turistas. A única frase em inglês foi “ não pode tirar fotos, nem filmar e nem gravar “.  Assim, foi-me dando um cansaço, que quase durmo no ombro de um japonês ao meu lado. Era uma grade baixa, que para meu vizinho era perfeita, pois ficava com o queixo encostado nela, bem relaxado. Para mim, tinha que curvar o corpo, ficando em forma de L, com pernas e bunda pra trás.

A música desconhecida, talvez um Mahler, que nem sempre é palatável para quem não é iniciado. Depois veio um pianista, que não tocava piano, era um cravo,  com um som chocho. Enfim, uma roubada para nós. Para outros amantes da música clássica,  talvez não.

Fugimos no intervalo, mesmo tendo recebido o convite da gentil espanhola, que vigiava a todos para não usarem celular, de que arranjaria duas cadeiras. Coitada, deve ter visto meu sofrimento, agarrado na grade, me mexendo o tempo todo.

Deixamos o concerto, passeando sem pressa pela Ringstrasse até nossa estação de metrô, a Karlstrasse. Quinze minutos depois, cortando Viena, estávamos na Messe-Prater, na porta de casa. Paramos no restaurante libanês para finalizar o belo dia, pedimos um prato sortido com as exóticas iguarias libanesas. Um taça de vinho, e estávamos prontos para casa, bastando andar um pouco mais na agradável temperatura de 14º .

Amanhã? Talvez um castelo, ou não?

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2 Comments

  1. E você nem foi numa “Heurige” para tomar um vinho branco local? Nem foi ver a sede da UNIDO e cumprimentar o diretor-geral, o chinês Li Yong? Vocês vão p’ra Budapeste de trem?

    • Helga, é muita coisa para poucos dias. Adoramos Viena.
      Estamos viajando todo o percurso terrestre de ônibus. É confortável e incrívelmente barato se comprar com antecedência.

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