Adriano Batista Dias e Tarcisio Patricio de Araujo

Tempestade em Nova Iorque – setembro de 2021

 

 

Julho, que pode vir a ser um “Julho Inesquecível”, é estação do sol bater forte, aquecendo o Hemisfério Norte, que detém peso desequilibradamente grande no ¼ do globo terrestre coberto por terra firme. Em Julho 2019, por conta de mudanças climáticas, irromperam incêndios monumentais nesse hemisfério, o que motivou a lavra do texto Entramos na Era dos Incêndios Monumentais, escrito naquele mesmo ano. O inesquecível é a simultaneidade agora, neste Julho 2021, de monumentais enchentes, gerando mortes por quilômetro quadrado em escala diluviana em áreas urbanas. Intensas chuvas na Alemanha, e na China. Para maior intensidade dos desastres, as chuvas extremas não caíram sobre simultâneos incêndios, mas sobre outras áreas, somando prejuízos pessoais e materiais. E em dois anos passamos da entrada na era dos incêndios monumentais para a entrada na era dos Eventos Extremos Monumentais. Desagradável generalização.

Alertas não faltaram. O primeiro deles foi em 1856. Sim, são cento e sessenta e cinco anos desde que a feminista Eunice Foote apresentou um trabalho em que comparou o resultado de se expor ao sol – sob diferentes pressões – ar, dióxido de carbono e vapor d’agua, contidos em idênticos cilindros de vidro, com termômetro. A temperatura aumentava com a pressão estabelecida no cilindro e era substancialmente mais elevada com o dióxido de carbono, comparativamente ao vapor, e com este, comparativamente ao ar. Em texto publicado na íntegra, em 1857, Foote constata: “uma atmosfera daquele gás daria à nossa terra uma alta temperatura; e se, como alguns supõem, em um período de sua história o ar se misturou com tal gás em proporção maior do que no presente, um aumento da temperatura … deve necessariamente ter resultado”. Deixou claro que algum aquecimento viria com o uso de combustíveis fósseis. Caberia muita atenção ao fato por ela apontado. Sumários do mesmo texto haviam sido publicados, em 1856, nos americanos New York Daily Tribune, Canadian Journal of Industry, Science and Art, Scientific American e no europeu  Jahresbericht. Ademais, também vieram à luz nas respectivas edições de 1857 do americano Annual of Scientific Discovery, e da européia Edinburgh New Philosophical Journal. 

Uma resposta veio rápida. Cinco anos depois, o cientista John Tyndall publicaria um trabalho, de sua pópria lavra, On the Absorption and Radiation of Heat by Gases, and the Physical Connexion of Radiation, Absorption, and Conduction, sintetizando o avanço do conhecimento sobre radiação e esclarecendo a questão do efeito estufa. Inaugurava, na questão do Aquecimento Global, o alegar desconhecer o publicado. No caso, o tão publicado. Nenhuma referência ao trabalho de Foote. Além do vapor d’água e do dióxido de carbono, os principais gases causadores de efeito estufa foram apresentados por Tyndall com dados quantitativos, excluído o metano. 

O sueco Svante Arrehnius publicou, em 1896, “Sobre a influência do Gás Carbônico no Ar na Temperatura do Solo”, mostrando que, conforme uma função logarítmica, tal temperatura deve aumentar 2k graus centígrados se o teor de CO2 no ar aumentar “k” vezes o teor vigente anterior à segunda revolução industrial. O trabalho foi tomado – sem conhecimento ou fundamentação que amparasse a crítica – como esforço inútil, visto que “o mar absorve todo o CO2 que é jogado na atmosfera”.

Mudanças de temperatura, associadas ao aumento de CO2 na atmosfera, foram capturadas pelo engenheiro mecânico Guy Callendar nos anos 30, após a Primeira Guerra Mundial. Retomando a preocupação de Arrhenius, e munido de dados sobre temperatura e medidas do teor de CO2, Callendar postulou um aquecimento global antropogênico. A precariedade das medidas do teor de CO2 foi alegada para desfazer a tese de Callendar. Todavia, seu trabalho trouxe – a pertinentes círculos de cientistas – precipitação de saudáveis e preciosos pingos de dúvida.

Anos mais de prosperidade – e mais uma guerrra mundial – sob a égide de queima de combustível fóssil se passariam, até que o químico austríaco Hans Suess, destacado membro da equipe que intencionava criar a bomba atômica alemã,  então trabalhando nos EUA, viesse a constatar que tão mais antiga a biomassa convertida em carvão ou petróleo, menor seu teor de carbono 14 –  o conhecido “Suess Effect”. Foi encontrado redução do teor de carbono 14 (no carbono) na atmosfera, relativamente ao de madeiras imediatamente anteriores à Segunda Revolução Industrial – teor idêntico ao da atmosfera de então -, denunciando o efeito dos combustíveis fósseis usados. Completando esse novo conhecimento, em 1957 foi publicado, em trabalho conjunto (Hans Suess-Roger Revelle), como fruto de pesquisa para a Marinha Norteamericana: Carbon Dioxide Exchange Between Atmosphere and Ocean and the Question of an Increase of Atmospheric CO2 during the Past Decades. Bastou para que cientistas leitores vissem que não era como se pensava; de fato, o mar não assimilava todo o CO2 liberado na atmosfera. Assim se dissipava o que era tomado como verdade e permitia manutenção do aumento desenfreado do uso de combustível fóssil. O mar absorvia só parcialmente, ao redor de 50%, o CO2 jogado na atmosfera, resultante desse tipo de combustível. Foram dois trabalhos irrefutáveis. Revelava-se que era tempo de providências sérias.

O caminhar das economias nacionais – em completo desprezo à questão do Aquecimento Global – levou James Hansen, diretor do Goddard Institute, centro de climatologia da NASA, a uma exposição no Congresso dos EUA, em fins dos anos 80. Os legisladores seriam informados da existência do Aquecimento Global e de parte dos decorrentes efeitos, inclusive a subida do nível dos oceanos. Sombrias as predições para meados do século XXI, face a que uma parte signficativa dos auto-denominados homo sapiens ocupa áreas a ser tomadas pelo mar.

Aos poucos o assunto viria a ganhar maior atenção de membros da comunidade acadêmica, e a propiciar pesquisas sobre impactos do Aquecimento Global e decorrentes mudanças climáticas. Mas nada mudou no comportamento das economias. Em 1990 seria publicado o primeiro relatório do Intergovenmental Panel on Climate Change (IPCC), criado a partir das primeiras constatações de mudanças climáticas e de afirmação científica sobre a contribuição antropogênica para tais mudanças.

Em 2015 veio a conhecimento público que a Exxon Corporation, hoje Exxon Mobil, a sexta maior empresa do mundo, após fusão (2016, ranking da revista Fortune), tivera conhecimento – por pesquisas próprias, nos anos 1980 – da contribuição principal dos combustíveis fósseis para o Aquecimento Global. No entanto, passara, desde 1989, logo após o testemunho de James Hansen no Congresso dos EUA, a fomentar dúvidas sobre o papel antropogênico neste fenômeno. A “Exxon investiu, entre 1997 e 2014, mais de trinta e três milhões de dólares em grupos, think tanks e cientistas dedicados a criar dúvidas sobre as mudanças climáticas”.

O alerta de Foote – possivel aumento da temperatura da Terra, em decorrência de ações humanas – deveria despertar os cientistas para despender esforço com vistas a ampliar o conhecimento humano na direção de elucidar tal suspeita, descartando-se a hipótese heroica de que o teor de CO2 na atmosfera seria uma constante. Exatamente cem anos depois de provado por Suessen e Revele o irremediável aumento do teor de CO2 via uso de combustível fóssil, a dinâmica do avanço da ciência passava a incorporar atenção sobre implicações desse aumento. Mais quatro décadas e haja esforço petroleiro para desorientar processos decisórios humanos e evitar a devida incorporação de avanços do conhecimento. E chegamos ao Julho Inesquecível. 

É também desconfortável saber que, dado o estado das artes da crise climática, mecanismos de retroalimentação muito provavelmente garantem continuidade do Aquecimento Global, mesmo que que venha a ser totalmente sustada, neste 2021, a emissão antropogênica de CO2. Poderíamos até tornar susbstancialmente mais lento tal processo. Como estamos em processo cósmico a caminho de uma era glacial, podemos até limitar o alcance total do Aquecimento Global, não sem ainda sofrer grandes perdas até um sonhado desfecho feliz. Mas faríamos isto para beneficiar longínquas gerações adiante? 

Ou nossa generosidade não iria além de solidariedade cooperativa com respeito aos mais fortemente alcançados por eventos extremos? De fato, ir além disso e cobrir futuras gerações com nossa aura de bondade exigiria mudança do padrão de cooperação e competição, refazendo-se os padrões de produção e consumo, em associação com radical alteração da matriz energética. Impossível imaginar-se que, em tempo hábil, grandes nações venham a liderar um processo de mudança da corrente matriz de consumo, claramente predatória em termos ambientais.

Ademais, são mudanças que trazem efeitos predominante negativos, em particular sobre os países de economia fortemente dependente do setor agropecuário – justamente aquelas que minimamente concorreram para elas. Ocorre que pessoas mais fortemente atingidas por eventos extremos, sofrendo maiores perdas pessoais e materiais, terminam por ser as que herdam cicatrizes mais diversas e profundas. Eventual indenização não garante compensação plena.   

Discursos à parte, verdade é que as sociedades demandam continuidade do corrente modelo de progresso, inclusive mantendo-se o predominante padrão de consumo. Note-se que o presidente Biden, líder que sustenta duros discursos na luta por sustentabilidade ambiental, está no momento pressionando a OPEP por aumentos de produção do ouro negro, ou seja, para que haja combustível fóssil mais barato. Em associação a este mesmo flanco da matriz energética, o automóvel – na esmagadora maioria do mundo – parece talhado a manter por muito tempo o posto de um dos mais desejados objetos de consumo. Veja-se, por exemplo, como se torna anedótica a curiosa veneração do automóvel, objeto predador, em massiva propaganda comercial na grande midia, em que se louva um SUV “vitorioso” como a “oitava maravilha do Mundo!”… 

Ao invés da seriedade com que o assunto deveria ser tratado, é promovida a inovação do carro elétrico, produto que, ao ser colocado para a primeira venda, já gerou CO2 equivalente ao trazido pela produção e por anos de uso de um equivalente automóvel a gasolina. O veículo inovador, para rodar, geralmente utiliza – nos países centrais – energia elétrica advinda do uso de combustíveis fósseis, o que, indiretamente, o faz prover furtivo consumo dos combustíveis que supostamente deveria evitar.

Somos mesmo homo sapiens? Ou os homo sapiens demens de Edgard Morin? Ou, na verdade, puro homo demens?