Dom Orlando Brandes.

 

Dom Orlando Brandes. Arcebispo de Aparecida. Voz forte. Olhar limpo. Não foi buscar argumento tomista. Virtus in médium. Nem argumento dos federalistas americanos. O bem maior é a felicidade. Mas trouxe o argumento aristotélico. O bem comum é o bem maior.

Disse Dom Orlando: o povo abrace a vacina. O povo abrace os pobres. O povo abrace a luta contra a corrupção. O povo abrace as autoridades. Para que o Brasil fique unido. E arrematou: Pátria amada, sim. Pátria armada, não.

Fui nove anos aluno de jesuítas. Sei que padres são filósofos. Alguns apolíneos. Outros, dionisíacos. Mas, todos filósofos. E, talvez, uns poetas? No sentido moral do termo? Como Dom Orlando?

A modernidade é espaço de duplos. Sombras, simulacros, fantasmas, como escreveu Olgária Matos. Duplos, sósias que perderam o corpo. E, mais que isso, a alma. Sombras não voltam a lugar algum. E não procedem de nenhum lugar. Borrões. Miméticos. Que não encontram correspondência no real. Tornam-se mercadorias. Coisas. Por si mesmos. Por decisão própria. Por medo. Falta-lhes coragem moral.

Alguém está ministro. Não se é ministro. Mas alguém é médico. Ninguém está médico. Cada um sabe de si. De sua altura. De seu autorrespeito.

A consciência da modernidade revela o sítio do fazer. Com o ganho da beleza. Da imaginação. Da criação. Da destreza. Do know how. Do how to know. Padre ou poeta. Poeta ou padre. Baudelaire foi poeta. Surrealista. André Breton, no Manifesto do surrealismo, escreveu que o poeta se sentia condenado à modernidade. E o poeta disse: é preciso ser absolutamente moderno.

Em As Flores do Mal, Baudelaire construiu uma poética onde associa o Bem e o Mal. Arruinando a conjunção entre o bem e o belo. Mas que abra ao homem as portas do Éden.

O Brasil do século 21 corre o risco de se tornar a canícula dos duplos. Onde especialidade da casa é dizer uma coisa e fazer outra. No Brasil, trata-se de falta de integridade. O fato é que estamos na era da escassez. Falta comida. Falta emprego. Falta sustentabilidade. Falta vergonha. Falta governabilidade. Falta planejamento para vacina. Falta dinheiro para ciência. Mas não há de faltar futuro.

Futuro é uma necessidade. Fisiológica. E espiritual. É construção. E inspiração. Tem uma origem e um destino. A origem é a esperança. O destino é a mudança.

Na esperança, me sinto menino. Nos versos de Milton Nascimento:

“Quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda, deve estar dentro do peito ou caminha pelo ar. Alegria e muito sonho, espalhados no caminho, verdes planta e sentimento, folhas, coração, juventude e fé”.

Estive com padres. Estou com poetas. Por isso, me chamo Baudelaire:

“Desde então, eu vigio,

Qual sentinela de olho atento e indagador,

Que espreita sem cessar barco, escuna ou navio,

Cujas formas ao longe o azul nos faz supor”.