Tragédia em Petrópoli – fevereiro de 2022.

 

A sucessão de tragédias que sacodem e entristecem o Brasil é o resultado doloroso e dramático de um grave passivo social acumulado por décadas de descaso político, pobreza, descontrole urbano e agressão ao meio ambiente. Os eventos climáticos extremos, com a concentração excessiva de chuvas em determinado território, apenas agravam o desastre, a destruição e as mortes que, em última instância, são consequência das precárias condições habitacionais da população pobre nas cidades. 

A expansão urbana desordenada, com a população pobre forçada a ocupar espaços fora do mercado imobiliário formal, levou à formação de aglomerados populacionais em áreas instáveis e de alto risco de alagamento e desabamento. De acordo com o IBGE, cerca de 8,3 milhões de pessoas (quase 2,5 milhões de domicílios), em 872 municípios, viviam em áreas de risco e em precárias habitações (dados de 2010). Mesmo diante da precipitação pluviométrica normal, ou apenas acima da média, estas áreas sofrem com alagamentos e deslizamentos que destroem o património e vidas. Com a persistência dessas aglomerações populacionais precárias, as tragédias sociais e urbanas no Brasil tendem a ser cada vez mais frequentes e intensificadas por conta das mudanças climáticas globais. O problema está dado e parcialmente mapeado, e precisa ser enfrentado com medidas e ações estruturais de reorganização do espaço urbano, para reduzir a vulnerabilidade e as tragédias humanas. 

Ao longo dos anos, o Brasil construiu um respeitável Sistema Nacional de Defesa Civil que, no entanto, vem atuando mais nas emergências (socorro e assistência humanitária) do que na prevenção e proteção das áreas vulneráveis. Como sempre, as emergências desviam as atenções e os recursos que deveriam ser aplicados em ações estruturadoras – estabilização de encostas e drenagem, e, em muitos casos, transferência de habitações – até porque são caras e de resultado lento. Ações estruturadoras que, no entanto, são urgentes, porque preparam as cidades para o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos e, portanto, para a redução dos desastres sociais e humanos.