Polícia militar no Rio de Janeiro

 

Quase no mesmo dia, dois grandes massacres, tão diferentes nas motivações e nas suas causas, mas igualmente lamentáveis: o assassinato de 19 crianças e duas professoras numa escola primária do Texas, e a morte violenta de 25 pessoas em uma favela do Rio de Janeiro, provocada pela operação conjunta da Polícia Militar, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. Violências descabidas que parecem virar rotina, lá e cá. 

O massacre na escola dos Estados Unidos, por um jovem de 18 anos utilizando um fuzil AR-15, escancara o absurdo da legislação norte-americana que facilita a compra e posse de arma de grande calibre. O presidente Joe Biden, num apelo comovente à nação, denunciou o poderoso lobby da indústria armamentista que, impedindo a aprovação de uma legislação restrita, torna possível esta reiterada carnificina em escolas dos Estados Unidos. Como disse o jornalista Jim Sciutto, da CBN, “quando as pessoas têm pensamentos homicidas nos Estados Unidos, elas podem descer a rua até uma loja e obter uma arma de assalto mais fácil do que comprar um gato ou um cachorro”. É isto que o presidente Jair Bolsonaro pretende para o Brasil quando estimula o armamentismo: a população trocando tiros nas relações tensas das cidades, utilizando balas para resolver conflitos banais, loucos ou desequilibrados invadindo escolas, milicianos legalizando o seu arsenal. 

Embora igualmente brutal, o massacre na favela do Rio de Janeiro tem características completamente diferentes. Por mais que existam sinais de força desproporcional, brutalidade, e mesmo chacina por parte das forças policiais, a violência no Rio de Janeiro é o resultado de um conflito armado entre a polícia e os traficantes, praticamente com o mesmo poder de fogo. A polícia afirma que foi recebida a bala pelos traficantes do Comando Vermelho. Mas a alta letalidade da operação levanta suspeitas de uma chacina ou, na melhor das hipóteses, da completa incompetência do Estado para lidar com o crime organizado. Ou, como pensa Bolsonaro, a competência do Estado deve ser mesmo para liquidar os bandidos, segundo fica claro na sua mensagem parabenizando os policiais que “neutralizaram pelo menos 20 marginais ligados ao narcotráfico”. O Congresso tem, já há algum tempo, uma “bancada da bala”. O Brasil tem agora um presidente da bala.