Para meu amigo Luiz Otávio, um otimista inveterado

 

É insuportável. Começa por uma imagem, uma paisagem, uma flor. Uma frase de auto-ajuda que nem sempre faz sentido e um cumprimento. De repente, uma enxurrada de respostas que tornam sua caixa de mensagens pequena. As pessoas se sentem na obrigação de responder. Todos os dias se perdem bons momentos para remover o recebido. Os Apps facilitaram esse mecanismo de socializar, essa prática.

Não é de hoje que as pessoas se cumprimentam, obrigatoriamente, com alvíssaras.  É falta de educação encontrar alguém, mesmo desconhecido, e não fazer uma saudação. E, também, não é de agora que alguns se irritam com esse costume.

Lembro de um professor, um chato e carrancudo, que ao ser cumprimentado de manhã, sempre respondia: 

-Por quê? Explique. 

O interlocutor, em geral ficava atônito e tinha que escutar um discurso de bons minutos de como a situação não era para comemorações. De como havia problemas estruturais que poderiam tornar o dito palavras vazias, sem sentido.

Outro, mais ameno e simpático, sempre respondia: 

-Aparentemente. 

Emendava com uma explicação de que algo podia fugir do controle e tornar o dia não tão bom. Mas, esperava, sinceramente, que o desejo transmitido se concretizasse.

Essas lembranças me vêm à mente, dada a situação atual. 

Tenho um amigo, intelectual a quem muito respeito e admiro, que todo dia manda um texto, uma crônica, sempre demonstrando que tudo vai melhorar, que as perspectivas são boas, que o futuro só pode ser mais gratificante. 

É uma missão de vida que desempenha com perfeição. Quando a situação está cada vez mais crítica e difícil fica apresentar esse otimismo, procura um tema, o mais variado possível, para fazer uma reflexão em que o respeito ao ser humano será o motor das relações futuras, em que diferenças serão vividas com harmonia e responsabilidade.

Admiro, mas vejo outros aspectos. Sem entrar muito na discussão, como ser otimista se estamos num País em que a Constituição é ignorada e modificada ao bel prazer dos poderosos, em que a investigação de corrupção é postergada para depois de eleições onde se definirão a estrutura de poder que até pode colocar para debaixo do tapete os casos, em que a inflação tem prazo de controle apenas até ocorrer uma eleição, em que benesses para os desafortunados são dadas com prazo de validade findando este ano. 

No futuro só interessa o garantir o poder. A perspectiva que se trabalha é no máximo novembro, mesmo que se arrebentem as finanças públicas para os anos vindouros. E, se tudo isso não der certo, ameaça-se com um golpe, abertamente, e ninguém move uma palha para amenizar a questão ou se indignar. Tudo virou natural.

Fui servidor público por mais de 40 anos. Havia um respeito ao período de eleições. Ninguém ousava desafiar a Justiça Eleitoral, ninguém ousava fazer qualquer nova atividade ou mudar rotinas para beneficiar este ou aquele candidato. Era um crime de Lesa Pátria. Hoje, muda-se a Constituição, sem nenhum constrangimento ou receio de ser punido. É um vale tudo ironicamente justificado pela crise que o próprio poder constituído criou.

Um País que tem mais de 10 milhões de desempregados, 5 milhões de desesperançados, 40 milhões de subempregados, em que passam fome mais de 35 milhões de seus cidadãos, em que a inflação corrói os vencimentos de todos a níveis alarmantes. Mas temos que ter “fé” num futuro melhor.

Tenho receio de que nossa crença em uma época em que superaremos momentos tão tristes como os que vivemos leve a uma passividade pouco construtiva. Não vejo a força da juventude se organizando, os movimentos sociais pouco se manifestam, a sociedade está imobilizada. Todos na expectativa de mudanças que “certamente” virão. E se não vierem?

Lembro agora de Gonzaguinha e sua canção:

“Palavras, palavras, palavras

Cantar nunca foi só de alegria

Em tempo ruim

Todo mundo também dá Bom Dia.”