
Morte do Irã
A ditadura dos aiatolás do Irã está massacrando os iranianos que, há mais de duas semanas, tomaram as ruas das principais cidades do país para protestar contra a teocracia que governa o país desde 1979, quando outra rebelião popular derrubou a monarquia do Xá Reza Pahlevi. Já são quase quatro mil iranianos assassinados, mais de dez mil prisioneiros e um manifestante condenado à morte por sua participação no movimento de contestação social ao regime dos aiatolás. O diretor da HOHR – Organização Hengaw para os Direitos Humanos, Mahmood Amiry-Moghaddam, afirmou que “o assassinato generalizado de manifestantes civis nos últimos dias pela República Islâmica do Irã lembra os crimes do regime nos anos 1980, que foram reconhecidos como crimes contra a humanidade”.
A crise econômica, marcada por inflação acelerada, elevado desemprego e empobrecimento da população, soma-se à crescente insatisfação da sociedade diante da violência de uma chamada “polícia moral”, que impõe regras islâmicas à vida social e cotidiana, vitimando sobretudo as mulheres. Há pouco mais de três anos, o Irã foi sacudido por outra onda de protestos, reprimida com a mesma brutalidade, após essa polícia assassinar uma jovem de 22 anos por supostamente não usar corretamente o véu islâmico (hijab). A simples existência de uma polícia encarregada de vigiar a moral é uma aberração em qualquer país civilizado — mais ainda quando fiscaliza, controla e reprime a população com base em normas religiosas medievais, derivadas da interpretação xiita da Sharia, a lei muçulmana.
Líderes europeus manifestaram solidariedade ao povo iraniano e condenaram a violenta repressão da teocracia. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou estar “chocado com os relatos de violência e de uso excessivo da força contra os manifestantes no Irã”, ressaltando que os direitos à liberdade de expressão, de associação e de reunião pacífica devem ser plenamente respeitados e protegidos. É pouco. Muito pouco.
Por outro lado, refletindo uma arcaica afinidade de parte da esquerda com ditaduras — consideradas de esquerda, sabe-se lá por quê — e uma especial tolerância com o Irã, integrante do BRICS, o governo brasileiro limitou-se a afirmar que acompanha com “preocupação” a situação e lamenta profundamente a perda de vidas nos confrontos. Confrontos, presidente Lula? Estamos falando de manifestações populares reprimidas com extrema brutalidade pelo Estado islâmico do Irã, uma das ditaduras mais retrógradas do planeta.
No extremo oposto, o arrogante imperialista Donald Trump ameaça e ensaia uma intervenção militar no Irã, supostamente em apoio à rebelião popular e com o objetivo de derrubar o regime teocrático. Logo partindo de Trump, que jamais demonstrou apreço pela democracia. Além de representar um desrespeito à soberania nacional de um país — ainda que submetido a uma ditadura —, uma intervenção militar externa tende a fortalecer a base de apoio antiamericanista dos aiatolás.
A pressão diplomática internacional pode, sim, contribuir para conter a repressão e apoiar o movimento social iraniano em sua luta contra o regime dos aiatolás. No entanto, a oposição encontra-se fragmentada em grupos e facções rivais, o que limita a força transformadora da revolta popular e sua capacidade política em um eventual processo de transição democrática. Não se pode ignorar, ainda, que, graças ao enraizado sentimento religioso, a teocracia iraniana mantém o apoio de uma parcela da população muçulmana do país, contrária, portanto, à construção de um regime democrático que separe Estado e religião.
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