Eduardo Leite

Eduardo Leite

Era o esperado, dada a biografia e as ideias daqueles que decidiram bancar a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado pelo PSD. À frente deles esteve sempre Gilberto Kassab, personagem com largo trânsito na vida política nacional e tido por muitos como alguém dotado de dons políticos fundamentais, desses que são capazes de dar nó em pingos d’água. Uma espécie de bruxo.

Kassab não perdeu a oportunidade de pôr as cartas na mesa e mostrar sua verdadeira inclinação, suas ideias políticas e suas intenções. Rifou, sem pena nem dó, a candidatura de Eduardo Leite, que prometia demarcar um território próximo à chamada “terceira via”. A motivação talvez tenha sido: facilitemos a vitória de Lula, pois assim manteremos nossas posições no governo. A ver se dará certo.

Eduardo Leite era a novidade, Caiado é a mesmice. Eduardo propunha coisas concretas e alvissareiras, Caiado repete chavões. Eduardo apresentou um plano de governo para não repetir o que se tem tido nos últimos tempos, Caiado se compromete a conceder “anistia ampla” aos golpistas de 2023. Eduardo queria se distanciar dos polos que engessam o país, Caiado aderiu imediatamente à direita, de onde, aliás, nunca se distanciou. Eduardo Leite era o futuro, Caiado mira para trás.

O PSD fez flopar a “terceira via”. Quer dizer, impediu que ela se projetasse. A polarização se impôs, levando os eleitores a ter de escolher entre o mal menor e o mal maior, sem muitas expectativas de encontrar o bem. A polarização virou algo “normal”, aceita por todos como o mais adequado caminho para chegar ao poder. A ideia de que polos sempre existem numa democracia se tornou uma convicção, não mais uma constatação. E com base nisso seguiu em frente, bombada nas redes sociais e pelas campanhas eleitorais. Os perdedores foram a sociedade, que deixou de visualizar propostas novas, e a democracia, que se esvaziou de substância e legitimidade.

“Terceira via” tem sido uma expressão repetida e apresentada como desejo de muitos brasileiros. A força dos polos dominantes sempre dificultou a compreensão da expressão, que ficou solta no ar, ao abrigo de poucos. Mais uma fantasia do que uma realidade efetiva. Foi vista como meio-termo, centro-esquerda, tática de conciliação, oportunismo, como manobra da direita para prejudicar a esquerda e como manobra da esquerda para enfraquecer a direita. Nenhum partido ou aliança partidária a endossou firmemente como estratégia e a disseminou pela população.

Em uma formulação simples, “terceira via” nada mais é do que a superação de polarizações negativas e a apresentação de novas esperanças de mudança. Seu pressuposto é que a repetitiva tensão entre uma extrema direita gulosa, fanatizada, e uma esquerda empoderada e acomodada no governo cria um estado de paralisia política. Como os polos se alimentam reciprocamente, o espaço para outras postulações se estreita.

O espaço para a “terceira via” sempre foi estreito, mas sempre existiu. A polarização já passou pela fase PT x PSDB, antes de se consolidar no formato atual, lulismo x bolsonarismo. A primeira fase foi fluída, a segunda é sólida. Ambas impossibilitaram avanços. A “terceira via” não ganhou corpo. E o país seguiu em frente, flertando com o abismo.Cansado, politicamente triste, sem ânimo. A polarização extrapolou: saiu dos polos e contagiou a sociedade inteira. Hoje a gente vota por falta de opção. Ou seja, sem tesão.

Se o espaço para uma “terceira via” é estreito, ele só poderá se viabilizar se houver uma força política que fale com firmeza sobre os desafios a serem enfrentados na atual etapa da história. Que indique como governar uma sociedade repleta de desigualdades, carências e tensões. Que atualize a agenda e retire a sociedade do sofrimento de ter de escolher um candidato para impedir a vitória do outro. Alguém vislumbra alguma articulação desse tipo no horizonte?

Eduardo Leite poderia ter sido um agente viabilizador disso. Disposto a representar um centro democrático distante dos polos dominantes, ainda que respeitoso com cada um deles.

A “terceira via” morreu na praia.